Episódio 1 – Por que falamos tanto de felicidade? (Parte 1 de 4) – A falta da felicidade

E aí, pessoal, tudo bem? Eu sou o Luciano Sewaybricker e esse é o canal…. Avesso da Felicidade. Isso mesmo: olha só! já temos um nome! Avesso da Felicidade. Obrigado a todos que me ajudaram mandando excelentes ideias. O que seria de mim sem a criatividade e o bom gosto de vocês? 

De todos os nomes que foram considerados, “Avesso da Felicidade” é o que melhor traduz o objetivo desse canal. Não é “avesso” no sentido daquilo que é contrário. Eu não criei um canal pessimista para convencer todo mundo a ficar triste, infeliz. Ninguém precisa de um podcast disso. É “avesso” no sentido de “virar do avesso”. A gente, aqui, vai pegar essa coisa que é a felicidade que nos rodeia e vamos examiná-la da melhor maneira que a gente conseguir. Inclusive, virando ela do avesso. 

Pensa quando você veste uma camiseta e ela tá do avesso. Não é a versão mais bonita dela. Ao invés da estampa, ficam aqueles fiapos de pano aparecendo, aquela etiqueta gigante pra fora… Mas essa versão menos bonita, menos agradável de se ver também é parte da sua camiseta e te ajuda a entender, por exemplo, que tipo de costura utilizaram, onde ela foi feita, como lavar, os materiais utilizados… e por aí vai. 

O mesmo vale pra Felicidade. Ela tem um lado muito bonito, que é mais fácil e gostoso de falar: dicas de como ser feliz… ler citações famosas e belíssimas sobre felicidade… joguei no Google citações de felicidade e apareceu essa do Carlos Drummond de Andrade: “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade”. Lindo, não? Mas, para um exame da felicidade, isso é pouco, muito pouco diante da complexidade do tema. 

A Felicidade, portanto, também é um tema arenoso, confuso, desesperançoso muitas vezes. Tem um livro muito bom do historiador americano Darin McMahon, chamado “Felicidade: Uma história”, no qual ele fez questão de deixar no prefácio o seguinte trecho, abre aspas:

Como escrever a história de algo tão elusivo, tão intangível – dessa coisa que não é uma coisa, essa esperança, esse desejo, esse sonho? (…) É desconcertante para qualquer autor ser forçado a admitir a dificuldade – provavelmente a impossibilidade – de definir seu objeto de investigação. (McMahon, 2006, p. xi)

Fecha aspas.

Pois bem, essa é a expressão de alguém que está olhando pro Avesso da Felicidade…. E no episódio de hoje, pra encarar esses fiapos, essa etiqueta, a gente vai explorar algumas respostas pra pergunta “Por que falamos tanto sobre a Felicidade?”

E bota tanto nisso.

  • Quem não lembra da música “Happy” do Pharrel Williams? Essa foi a música mais tocada no Spotify em 2014, ficou em primeiro lugar no ranking da Billboard, ganhou vários prêmios, foi indicada ao Oscar. 
  • Ou então, quem não reparou que as propagandas citando felicidade tão se multiplicando como Gremlins? De cabeça, o que eu lembro de ter visto ou ouvido, “Lugar de gente feliz” (Pão de Açúcar), “vem ser feliz” (Magazine Luiza), “Abra a felicidade” (Coca-Cola), “A felicidade mora aqui” (Lojas Colombo), “Compartilhe felicidade” (Kibon). 
  • Ou então, faz um teste por aí, abre um portal da internet e procura na página a palavra “feliz” ou “felicidade”. Eu chutaria que tem uns 50% de chance de você achar algo. Eu acabei de fazer isso aqui com a UOL e tem o artigo “Dá para ser feliz no amor depois de um ex violento”. Digamos que não é o artigo mais alegre do mundo, mas ainda assim trata do tema da Felicidade.
  • Meu último contexto aqui é o da política, que é talvez o mais recente que a felicidade invadiu.  

Uns anos atrás me convidaram pra dar uma entrevista pra um jornal da hora do almoço comentando uma pesquisa internacional sobre felicidade. Essa pesquisa apresentava o ranking dos países mais felizes do mundo, e o Brasil tava lá em 10o lugar. Eu olhava para aquele ranking e os indicadores e não conseguia parar de pensar: “o que diabos isso significa?” Estar em 10o lugar? Ou melhor, ter 71% dos brasileiros consultados dizendo que se sentem satisfeitos com a vida significa o quê? A gente tá bem, tá mal? Estar satisfeito significa não passar fome ou ter a vida que sonhou? Mais ainda: o que significa comparar o Brasil com Ilhas Fiji, que ficou em 1o lugar no ranking, com 88% dos consultados se dizendo satisfeitos?  

No fim das contas, a materia não tratou desses pontos, mas deixou bem claro o tamanho do interesse na felicidade. Tamanho tal que passaram a competir em rankings, como se fosse uma olimpiadas. 

  • Mais ainda em relação à política, a ONU criou, em 2006, o dia internacional da Felicidade, 20 de março, justamente com a finalidade de botar as pessoas para pensarem na importância desse tema pra política. 
  • Um pouco depois, em 2012, Butão, que é um país bem pequeno entre Índia e Nepal, lançou finalmente as tão aguardadas medidas da Felicidade Interna Bruta, que estavam desenvolvendo desde a década de 70. Hoje 
  • Hoje em dia são vários os países que têm suas próprias medidas de Felicidade ou Bem-estar: Inglaterra, Irlanda, França, Nova Zelândia, Emirados Árabes….

Bom, já deve ter ficado bem claro que a gente fala muito sobre a Felicidade, mas, “por que a gente fala tanto sobre ela?”. É a explicação que nos interessa aqui, e não a simples constatação. Como essa pergunta pode ser respondida por diferentes angulos, eu vou organizar o material em quatro diferentes respostas, mas que podem, muito bem serem vistas como complementares.

  • A primeira delas é que a gente fala tanto da felicidade justamente “Porque a gente não é feliz.” 
  • A segunda, é “Porque a felicidade se tornou parte da publicidade”.
  • A terceira é “Porque nunca estivemos tão próximos de conhecer os segredos da felicidade.”
  • E a quarta é “Porque nós simplificamos demais o significado da felicidade.”

No fim das contas, como essa pergunta dá muito pano pra manga, eu vou reservar um episódio para cada resposta. Nesse primeiro a gente vai explorar a primeira dessas respostas, que é: falamos tanto sobre a felicidade justamente porque não somos felizes. Ou seja, quanto menos felicidade a gente tiver, mais a gente vai falar dela. 

Deixa eu começar contando uma história.

Faz um tempo que eu tenho sonhado em comprar uma máquina de café espresso. Até fiz um curso de barista pra aprender a preparar. Mas uma máquina dessas é bem cara. Toda vez que eu vou passar o meu café no meu humilde coador, eu olho para o café e penso na máquina de café espresso. Pelo fato de eu querer muito essa máquina, eu percebo a falta dela constantemente. Ela poderia estar na minha cozinha toda maravilhosa em alumínio cromado. Eu podia tá, agora mesmo, tomando goles de meu espresso perfeitamente azedo, amargo e doce… tudo ao mesmo tempo… Mas não tô… 

É essa a ideia por trás dessa resposta para a pergunta central desse episódio. A gente quer muito a felicidade e ela não está em nossas vidas (pelo menos não do jeito que a gente gostaria) e por isso a gente fica pensando e falando tanto nela. Quanto mais falta da felicidade a gente sentir, mais a gente vai falar sobre ela.
E note que tem duas ideias por trás dessa resposta e que são necessárias para ela fazer sentido:

  1. A primeira é que a felicidade é uma coisa que todo mundo quer, muito! Afinal, quem recusaria ser mais feliz? Será que alguém, em algum momento da história, já falou: “chega de felicidade, cansei, tô há tempo demais sendo feliz demais, chega, não me venha com mais felicidade”?
  2. A segunda é que hoje a gente se percebe pouco feliz. Na verdade, que a gente se percebe menos feliz do que as pessoas se perceberam em outros momentos da história.

A gente já falou bastante sobre a primeira ideia e, na real, não tem muita discussão em relação à ela. Agora, a segunda, de que hoje a gente é especialmente menos feliz exige um exame mais profundo. 

Percebe que a gente não tá falando de infelicidade, mas de felicidade e quão feliz eu me percebo. No fim das contas, isso significa que me perceber pouco feliz tem a ver com uma expectativa que eu tenho. 

Por exemplo: se eu não tivesse a expectativa de que a minha vida seria muito mais incrível com a máquina de café espresso, eu não sentiria falta dela e me lamentaria, imaginando essa minha vida alternativa. 

E o problema dessa expectativa é tudo culpa dos gregos antigos. Lá na grécia antiga, quando os filósofos socráticos se questionaram sobre aquilo que controlavam em suas vidas (versus aquilo que tava nas mãos dos deuses) eles receberam de brinde a insatisfação. Eles puderam imaginar vidas alternativas para eles, o que poderiam fazer de diferente, ter de diferente, ser de um modo diferente…

Afinal, se eu tenho poder sobre algum aspecto da minha vida, eu posso transformá-lo, eu posso melhorá-lo. É disso que trata a filosofia grega Socrática: de pensar a vida (incluindo a felicidade) como algo que a gente controla e não mais como algo que acontece com a gente.

Se eu eu me percebo sendo ranzinza, por exemplo, eu sei que consigo mudar isso. Talvez eu não acredite que eu consiga ser a pessoa mais alegre e saltitante do mundo, mas acredito que eu posso ser menos ranzinza. Eu consigo imaginar o meu futuro e desejar aspectos desse futuro. Mas olha só que desastre, se eu imagino e desejo um futuro isso significa que ele é diferente do que eu tenho ou de quem eu sou hoje. 

É exatamente sobre isso que o Platão escreveu no famoso livro “O Banquete”. A gente deseja somente aquilo que não tem. Quando tem, já não deseja essa coisa.

Se ouvir esse podcast te deixa muito, mas muito feliz, talvez pense: mas eu sinto a verdadeira felicidade nesse exato instante e ainda assim eu desejo a felicidade. Nesse caso, muito provavelmente o você deseja não é a felicidade agora, mas ser tão feliz no futuro. E no futuro você não é feliz ou pelo menos não tem certeza de que será. 

Você não deseja, por exemplo, respirar. Isso acontece normalmente e, em condições normais de temperatura e pressão, você sabe que vai continuar respirando no futuro. Como o Platão nos mostrou, a gente deseja aquilo que não tem.

Mas você pode estar se perguntando, mas o que isso tem a ver com o fato de a gente ter menos felicidade? Calma, que a gente chega lá. Estamos só na Grécia Antiga e a coisa vai piorando no caminho na medida em que a gente passar pela idade média, iluminismo e chegar na contemporaneidade. 

Bom, se os gregos puseram essa pulga do desejo atrás da nossa orelha, o cristianismo colocou um cachorro, daqueles bem estridentes, no lugar. 

Pensa só: sonhar sobre um futuro diferente do que a gente tem hoje é algo intensamente reforçado pelo cristianismo e tá na sua raiz: eu devo desejar viver como Jesus Cristo (que, convenhamos, é uma régua bem alta: o cara amava as pessoas indiscriminadamente! Hoje em dia, quem consegue isso? A gente fica falando na internet em “cancelar” as pessoas….). Não precisa ir muito longe pra perceber que perto dessa régua a gente tá mandando bem mal.

E essa régua fica ainda mais alta. Santo Agostinho, talvez o mais importante filósofo pro cristianismo, escreveu que a gente só podia ser verdadeiramente feliz após a morte. Pra ele, a felicidade consistia em ter aquilo que se deseja. Nada de novo até aí. Se você deseja algo que não tem, você não é feliz. Ponto final. O problema que o Santo Agostinho coloca é que o ideal mesmo, a felicidade de verdade, completa, só é vivido na presença de Deus. “Aquele que possui Deus é feliz.”, ele escreveu. Onipresença, onisciência… 

Nem adianta ser igual a Jesus Cristo… posso parar de cancelar as pessoas na internet que ainda assim não ia ser o suficiente pro Santo Agostinho. Pra ele, eu só vou estar plenamente com Deus quando eu morrer, no pós-vida. A minha condição humana me impede da felicidade terrena.

Mas se você acha que não poderia ficar pior, a coisa fica, sim. Aquele pulga do desejo que o Platão colocou na tua orelha, que virou o cachorro estridente do ideal ascético, continuou evoluindo, tipo um Pokemón, e virou um cachorro-zumbi nível vilão do Resident Evil. 

A culpa que vem do ascetismo religioso é inegavelmente um peso no ombro da gente. Mas, durante muito tempo, foi um peso dividido pela vida coletiva, pela vida comunitária. As pessoas entendiam suas vidas como sendo amarrada, dependente das pessoas ao seu redor, sobretudo da família. Por essa razão, os desejos eram, em grande medida, compartilhados. Do mesmo jeito que era compartilhada a culpa de não ter ou ser aquilo que se deseja. 

A individualidade, que a gente tanto preza hoje, foi sendo construída gradativamente ao longo da história. Mas alguns pesquisadores, entre eles o francês Louis Dumont, vão dar uma ênfase bem grande ao Iluminismo, à era das luzes, pelos séculos 17 e 18. 

Por esse momento, um monte de pensadores, como Adam Smith, John Locke, Thomas Hobbes e Descartes escreveram obras que potencializaram a visão individualista da economia, da política, da sociologia e de como conhecemos o mundo. 

Completamente diferente do Santo Agostinho, o Descartes, por exemplo, acreditava que a felicidade era plenamente possível para qualquer um que guiasse sua vida pela razão. Com o benefício de não precisar esperar a pós-vida.

Bom, se qualquer um pode guiar sua vida pela razão, sendo a razão um exercício puramente individual, e ser feliz…. Se eu não for feliz é porque eu sou burro, incompetente…. Não acredito que o Descartes usaria uma dessas palavras, mas a ideia é mais ou menos essa. Se os meios pra felicidade tão na minha frente e eu não me percebo feliz, só pode ser culpa minha, incapacidade minha…

Esse cachorro-zumbi atrás da orelha foi o preço de apostar tudo na razão. 

A Declaração da Independência dos EUA, deixa isso bem claro: 

Abre aspas.

“Consideramos estas verdades como autoevidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes são vida, liberdade e busca da felicidade.”

Fecha aspas.

Temos a felicidade tão desejada e tão individual que se tornou um direito inalienável de cada ser humano (americano, no caso). A felicidade passa a ser considerada um modo de existir próprio do ser humano, que é, no fim das contas, uma aposta muito alto por ela, pois a gente ainda tem o velho problema do desejo, que é sintetizado lindamente pelo dramaturgo George Bernard Shaw:

Abre aspas.

“Há duas catástrofes na existência: a primeira é quando nossos desejos não são satisfeitos; a segunda é quando o são.”

Fecha aspas.

Eu desejo aquilo que não tenho, quando tenho, já não é objeto do desejo. Catástrofe pura e platônica. Ou seja, eu sempre vou me sentir devendo. Ao longo da história a gente vai tentando agarrar a felicidade, entender como ela funciona e parece que ela vai ficando cada vez mais complicada…

Mas tem um pedaço da resposta desse capítulo que a gente ainda não resolveu… Se esse último nó, do cachorro-zumbi, aconteceu pelo século 17, 18. Por que hoje a gente é especialmente menos feliz?

A resposta: esperança e publicidade. 

O filósofo frances Comte-Sponville, que é um autor que eu gosto muito de ler, propôs que tem um tipo específico de desejo que é problemático. Ou seja, ele coloca em xeque a ideia platonica de que todo desejo é sempre o desejo daquilo que não temos ou o que nos falta. Pra ele, a gente pode sim desejar algo que tem. Mas não é isso que é mais importante pra gente aqui. O importante é que o Comte-Sponville entende que tem um tipo de desejo que é bastante problemático, na verdade, especialmente problemático na atualidade: a esperança. Vamo por partes pra entender isso melhor.

Abra aspas.

“Só esperamos o que não temos, e por isso mesmo somos tanto menos felizes quando mais esperamos ser felizes. Estamos constantemente separados da felicidade pela própria esperança que a busca.”

Fecha aspas.

Essa esperança, portanto, é uma esperança que me distancia da felicidade, pois eu só espero:

-o que não tenho, 

-o que desconheço e 

-o que não controlo. 

Por exemplo: “eu espero passar na entrevista de emprego”. 

>Eu desejo passar na entrevista porque a aprovação, pra mim, ainda não existe (se eu já tivesse passado, eu não “esperaria” por ela).

> Eu não sei se eu vou ou não passar na entrevista (se eu estivesse seguro de que eu passaria, por exemplo, se eu soubesse que quem me entrevistaria era a minha mãe – que acha tudo que eu faço lindo e maravilhoso – eu não precisaria esperar por isso).

> E eu não tenho controle, nesse momento, para fazer algo que garanta a minha aprovação (se eu soubesse, por exemplo que o único critério de seleção é estar presente no local da entrevista, eu não “esperaria” ser aprovado).

Portanto, eu só espero o que não tenho, o que desconheço e o que não controlo.

O Comte-Sponville propõe, portanto, que a gente nunca esperou tanto pela Felicidade. Se eu meditar, espero ficar feliz. Se eu viajar para a Europa, espero ficar feliz. Com o novo emprego, espero ficar feliz. Mas essa esperança pela Felicidade, no fim das contas, só reforça a distância gigante entre como eu me sinto de fato e como eu gostaria de me sentir; entre a vida que levo e a vida que desejo levar. Afinal, quanto mais eu espero ou seja, quanto mais eu desejo, mais significa que aquela coisa não faz parte da minha vida.  

Pra ele, enquanto a gente entender a felicidade desse jeito, como um prêmio prometido ao fim da partida… esperando por ela de um jeito meio destrambelhado, sem saber bem o que ela é, sem saber bem como tê-la… enquanto a gente esperar pela felicidade, a gente tá lascado. 

Eu só espero o que não tenho, o que desconheço e o que não controlo. Mas da onde vem tanta espera pela Felicidade, tanta promessa pela vida feliz?

É aí que entra a publicidade, que é algo muito próprio de nossos dias. Pára pra pensar: o que te faz desejar coisas? O que te faz desejar uma vida diferente? 

A primeira coisa que vem à mente quando me faço essa pergunta é a famosa propaganda de margarina. A família sentada na mesa do café da manhã com a belíssima margarina, todos sorridentes, alegres, realizados, o cachorro golden, super comportado com o rabo abanando. É uma vida em que tudo deu certo. Todos os desejos foram satisfeitos. Eu sorrio junto com a propaganda… eu compro  a margarina, coloco em cima da minha mesa…. daí eu percebo que minha vida tá bem longe da da propaganda…

A publicidade, portanto, produz os desejos e o consumo, a esperança: eu desejo a vida da propaganda e, ao comprar o produto, esse desejo ganha a forma de uma esperança por um pedaço da felicidade. 

Esperança porque eu só espero o que não tenho, o que desconheço e o que não controlo.

Eu não tenho felicidade, não sei bem o que ela é (…apesar de parecer que o pessoal da propaganda da margarina saber), e, na falta de opções do que fazer, espero passivamente que algo semelhante à propaganda aconteça comigo. Uma espera passiva.

E se a felicidade não vier, não acontecer, pois bem: a culpa é só minha. Obrigado iluministas por isso.

Retomando, o centro da ideia de que hoje a gente é especialmente menos feliz é que:

  • a publicidade e o consumo fazem com que a distância entre o que desejo e a vida que levo seja cada vez maior, 
  • enquanto que a característica individualista da sociedade contemporânea faz com que a culpa pelo fracasso em ser feliz caia inteiramente no meu ombro. 

Com isso, a gente fecha essa primeira resposta, suuuper otimista, para a pergunta “Por que falamos tanto sobre a felicidade?”. No próximo episódio a gente continua com a segunda das respostas, e que é uma continuidade dessa:

  • Porque a felicidade se tornou parte da publicidade, parte do consumo.
  • Porque nunca estivemos tão próximos de conhecer os segredos da felicidade.
  • Porque simplificamos demais o significado da felicidade.

E que resposta você daria para a pergunta: “por que falamos tanto sobre a felicidade?”

Compartilha comigo as suas ideias e aproveita para deixar seu comentário sobre o episódio no meu twitter, @lusbricker. @ L-U-S-B-R-I-C-K-E-R

Pra fechar, a frase do filósofo romano Sêneca: “Quando desaprender a esperar, eu o ensinarei a querer.”

Espero que tenha gostado e até o próximo episódio.

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Twitter: @lusbricker

Bibliografia

Bendassolli, P. F. (2007). Felicidade e trabalho. GV EXECUTIVO, 6(4), 57-61.

Bok, S. (2011). Exploring happiness: From Aristotle to brain science. New Haven, CT: Yale

University Press.

Comte-Sponville, A. (2001). A Felicidade Desesperadamente. São Paulo, SP: Martins

Fontes.

Dumont, L. (1985). O individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Rio de Janeiro: Rocco.

McMAHON, D. M. (2006). Felicidade: uma história. São Paulo: Globo.

Musikanski, L. et al. (2020). The Happiness Policy Handbook: How to Make Happiness and Well‑Being . Gabriola Islands, US: New Society Publishers.

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-e-o-10-pais-mais-feliz-do-mundo-diz-pesquisa,175238e

Créditos Musicais:

Abertura:

“Flutey Funk” Kevin MacLeod (incompetech.com)

Licensed under Creative Commons: By Attribution 4.0 License

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Fechamento: 

“Protofunk” Kevin MacLeod (incompetech.com)

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