E aí, pessoal, tudo bem? Meu nome é Luciano Sewaybricker e esse é o canal…. Sem nome por enquanto…. Estou aceitando sugestões. Esse é um episódio piloto para conversarmos sobre o tema da felicidade. Um aviso importante: falar do tema da felicidade é bem diferente de falar da felicidade. Eu não vou falar de uma felicidade, mas de umas trocentas formas diferentes e polêmicas de se falar sobre ela.
Você já deve ter sacado que isso é um outro jeito de dizer que eu não vou ensinar ninguém a ser feliz. Na verdade eu devo ser uma das piores pessoas para isso.
Quando me convidam para algumas entrevistas sempre fazem um pergunta que me amedronta. O entrevistador, sorridente e esperançoso, manda: “Mas e aí, Luciano, afinal de contas você é feliz?”. Dependendo do meu humor, metade das vezes eu digo que não sei, outra metade eu digo “veja bem…” e começo a enrolar. De todo modo a resposta é sempre decepcionante e dá para ver os ombros e o sorriso da pessoa na minha frente murchando. A esperança dela escorrendo pelo rosto. Bom, temos alguns episódios pela frente e você vai ser capaz de tirar suas próprias conclusões “se você é feliz”.
O objetivo do episódio de hoje, de apresentação desse podcast, é mostrar que não dá para falar de um jeito simples sobre Felicidade. Felicidade é um campo de debate bagunçado. Tem gente falando que existe, gente falando que não existe, alguns falando que depende dos deuses ou de Deus, outros que depende das pessoas ao seu redor, ou até que só depende de você. A ênfase maior da felicidade pode ter a ver com os prazeres, com a ética, com a amizade. Eu poderia continuar fazendo essa lista aqui por mais um tempo, mas, não, né? Já deu para entender o ponto.
Felicidade então é um tema complexo e interessante demais pra caber em um manual ou um passo a passo. Se você encontrar por aí alguém que fale que pode te ajudar a ser mais feliz (mesmo que essa pessoa tenha um PhD no que for ou seja o guru da pessoa que ganhar o Big Brother), duvide. Deixa eu te dar um pequeno argumento pra isso:
Platão, aquele famosos cara do Banquete, escreveu que “Felicidade é aquilo que guia a ação de todos”. Um tempo depois, o filósofo francês Blaise Pascal complementou dizendo que não só Felicidade é aquilo que guia a ação de todos, como também guia a ação inclusive daquele que vai se enforcar.
Dá para perceber nesses dois trechos que Felicidade é uma coisa importante e aí está um dos poucos consensos em relação a ela. De um modo geral, a Felicidade vai girar em torno dessa ideia de ser algo central para as pessoas. Mas, esse não é o único consenso entre Platão e Pascal. Os dois concordariam que a felicidade não é fácil de ser alcançada. O Platão afirmou que só uma única pessoa tinha sido verdadeiramente feliz. E não era nem ele, a mãe ou algum dos amantes dele. A única pessoa verdadeiramente feliz para ele tinha sido o mestre dele, Sócrates. Somente Sócrates havia sido feliz para Platão.
E o Pascal também achava que Felicidade é difícil pacas de ser alcançada. Se não ele não precisaria dizer que a última e derradeira ação, o suicídio, é uma forma de buscar a Felicidade. Se fosse fácil ser feliz, ninguém precisaria chegar ao ponto de apostar tudo para tê-la, não é não? Pra quem gosta de um pensador mais moderno, tem o Freud, que sugeriu que a gente deixasse a felicidade de lado, já que ela seria impossível de ser alcançada. Ou então, tem os intelectuais por trás da Declaração da Independência dos Estados Unidos que escreveram não em ter a felicidade, mas no direito de perseguí-la. Eles não prometeram que ela viria para ninguém.
Talvez você esteja pensando, “mas esses caras são velhos demais, são múmias do pensamento. Hoje em dia a gente tem a ciência investigando a Felicidade.”
A você, meu caro amigo ou amiga, eu digo: aguenta um pouco. Toda teoria científica precisa partir de algum lugar. E geralmente esse lugar é do meio dessas múmias. Por enquanto, só duvide um pouco quando encontrar um vídeo do youtube, tipo uma palestra Ted Talk de 15 minutos que vai apresentar os segredos da felicidade. Ou então quando estiver dentro de uma livraria e encontrar “Os 7 passos para a felicidade” ou “A Arte da Felicidade”. Isso que eu tô falando só não vale para esse Podcast. A gente aqui tem uma troca única e especial, cheia de gratidão e pensamentos positivos que tornam tudo possível. Se a gente quiser ser feliz, a gente consegue.
Como é o começo desse canal aqui, melhor eu avisar que acabei de ser irônico. Isso tudo vale inclusive para esse Podcast. Por isso que eu vou ter material para vários episódios e no fim das contas, ainda assim não vou te dar receita para ser feliz. Mas espero que toda a reflexão em torno da felicidade te ajude a viver melhor.
Vamos parar de conversa de comadre e começar a contar a história da palavra Felicidade. Essa história não é simples, ela tem algumas versões diferentes. Mas eu vou te contar a forma como eu gosto de ver essa história que, começando na Grécia Antiga. Essa não é a única forma de contar essa história, beleza? Ela muito bem poderia ser contada pela perspectiva do pensamento árabe, chinês, indígena. Mas, pra eu te mostrar a bagunça que é a felicidade, a versão da Grécia Antiga já basta (além do fato de que eu não saberia contar essas outras versões…).
Imaginem a Grécia antiga. Os cidadãos gregos não precisavam trabalhar, eles tinham os escravos e os estrangeiros para isso, e podiam se dedicar àquilo que tinha mais valor para eles: a contemplação do mundo. A galera ficava nas praças públicas ou nas escolas debatendo sobre temas mais diversos. E essa prática deles fez com que uma nova forma de pensar sobre o mundo e o ser humano começasse a ganhar força. Eles estavam inaugurando a separação entre aquilo que entendiam ser próprio dos deuses e aquilo que era próprio do seres humanos, aquilo que estaria no nosso controle. Dizendo de um jeito bem tosco, para eles parou de valer a resposta “por que Deus quis”.
Pra gente, hoje, essa separação é bem óbvia. A gente inclusive dá nomes diferentes para os tipos de reflexão, se é religiosa ou filosófica. Mas naquela época esse tipo de debate não era nem óbvio nem fácil de acontecer. Pra começo de conversa, porque eles tinham que discutir sobre coisas que ainda não tinham palavras claras. Vontade, liberdade, subjetividade, autonomia… e Felicidade… por exemplo eram palavras que tinham sentido vago para nossos padrões. Eles não tinham dicionários com verbetes e definições claras de como utilizar as palavras e quais sentidos elas poderiam ter.
Sabe quando você quer ensinar para seus avós a usar o smartphone? Você nem lembra mais a última vez que ligou em telefone e quer convencer seus avós a instalarem o Whatsapp. Mas eles não têm a menor ideia do que é Whatsapp. Daí você vai e diz que é um aplicativo… não ajuda muito. Você percebe que é uma missão perdida. Nenhuma palavra que faz parte do universo da telefonia móvel e internet é familiar para seus avós. O mais perto que você consegue é quando eles dizem “Ah, é tipo fax?”.
Os gregos antigos eram como um monte de velhos debatendo sobre o que é o Whatsapp. Só que ao invés de Whatsapp, eles estavam tentando conversar sobre a Felicidade. Que palavras eu uso para explicar para os outros o que eu quero dizer? Hoje fica mais fácil olhar para os registros históricos e falar que trata, de um jeito de outro, de um debate sobre a melhor forma de se viver. Mas, na época, esses velhinhos segurando o celular, sem conseguir desbloquear a primeira tela, foram chegando a respostas bem diferentes.
Só um parênteses aqui. Eu estou reduzindo a filosofia grega a alguns velhos com celular. Isso está errado em muuuitos níveis. E eu sei. O que talvez só piore minha defesa…
Só para ter uma ideia, três importantes escritores gregos tinham visões um tanto diferentes sobre a Felicidade. Hesíodo, por exemplo escreveu que viver bem dependia diretamente da vontade divina. Ou seja, muitas coisas poderiam ser investigadas filosoficamente, mas não a Felicidade. Quem entende dela são os deuses e só eles poderiam fazer alguém ser ou não ser feliz.
Já Eurípides, o cara que escreveu a Medeia, foi mais drástico. Para ele, a Felicidade é assunto tão próprio dos deuses que só eles poderiam ser felizes. A gente aqui na terra tá basicamente lascado.
E o Sófocles, escritor essencial para a Psicanálise, que escreveu Édipo Rei, mudou um pouco o rumo da conversa e escreveu que a Felicidade poderia sim ser um objeto humano. Pela sabedoria a gente poderia aprender a lidar melhor com a vida e ser feliz. No fim das contas, a proposta dele tinha a ver com entender como agradar os deuses e agir de acordo. Temos aí uma posição ativa dos seres humanos diante dos deuses, que é bem mais próxima do que pensamos hoje.
Mas o problema não está só no entendimento, como no caso do Hesíodo, do Sófocles e do Eurípides. Tinha o problema também de quais palavras eles usariam para falar dessas coisas todas. Ou seja, esses caras não se referiam exatamente a um objeto através das mesmas palavras. Eles usavam, mais frequentemente, os adjetivos Olbios, Macarios e Eudaimon. Com o tempo, os dois primeiros acabaram sendo mais usados para dizer sobre alguém abençoado pelos deuses. Entendo deuses como entidades externas ao ser humano, que observavam e poderiam ou não dar algo para a pessoa. Já Eudaimon, que literalmente significa “Bom Deus”, acabou tendo o sentido de um deus interno ou uma conexão individual com os deuses.
Ou seja, pra transição que eu mencionei que a filosofia grega antiga passava, a palavra Eudaimon traduzia melhor o humor do período e foi sendo, pouco a pouco, mais utilizada pra se referir a esse melhor modo de se viver ali na Grécia Antiga.
Na reprodução do dia-a-dia grego, o adjetivo Eudaimon ou o substantivo Eudaimonia foram vitoriosos, sobretudo depois da obra de Aristóteles. Mas é importante reforçar que, de forma alguma, isso significa que havia consenso na felicidade. A gente tá falando aí de um período de uns bons 300 anos até começar a se desenhar uma tendência.
Mas antes de falarmos de um momento que essa galera já não parece mais com os velhinhos tentando usar celular, vale um parênteses para contar a história do debate entre Sólon e do Croesus. Esse debate está registrado em um dos livros mais antigos de história que se tem registro, chamado… Histórias (olha que coisa mais inesperada) escrito pelo Heródoto.
Sólon era um sábio peregrino grego que perambulava por aí conhecendo o mundo e espalhando a sabedoria dele. Por onde ele passava ele era venerado. Todo mundo queria tirar uma casquinha da genialidade do Sólon.
O nosso outro personagem, o Croesus, era o imperador da Lydia, um reino próspero na época, cheio de riquezas, vitorioso nas batalhas e que tinha conquistado muitas terras.
Certo dia, Croesus, sentado no seu trono repleto de pedras preciosas recebeu a notícia que Sólon, o sábio, estava peregrinando pelo reino da Lydia. Croesus então, sem pestanejar, ordena que seus súditos tragam o Sólon até sua presença. Mas, não sem antes fazerem um tourzinho básico pelas férteis e verdejantes terras de Croesus. No fim das contas o tour levou alguns dias. Quando finalmente Sólon chegou ao castelo de Croesus, eles foram dar uma caminhada. O Croesus falou algo mais ou menos assim: “Está vendo tudo o que o sol toca? Isso tudo me pertence.” E daí em diante o magnânimo foi listando tudo o que ele tinha conquistado e possuía até que, terminando a lista, emendou a fatídica pergunta: “Então Sólon, existe alguém mais feliz do que eu?”
Daí a história desanda e muda rápido de um clima do Rei Leão apresentando o Simba pra galera para um clima de tensão entre Mufasa e Scar.
O Sólon responde: “Pô, Croesus, não é que tem? Nessas minhas andanças por aí, conheci dois irmãos que foram pra guerra e morreram; conheci também um pai de família que, depois de trabalhar e sustentar sua família, morreu subitamente durante o sono….” e por aí foi o Sólon listando gente morta que ele considerava mais felizes que Croesus. Lógicamente que Croesus ficou irritado com a resposta e começou uma correria dentro do castelo pra tentar cortar a cabeça do Sólon que foi escapando como o Simba fugindo das hienas. No fim das contas Sólon fugiu e pode peregrinar mais um bocado por aí.
Mas eu perdi o foco. Não é quem sobreviveu que importa para gente aqui. O importante é o que cada um entendia por felicidade. Enquanto o Croesus acreditava que felicidade tinha a ver com posses, bens, conquistas e podia ser avaliada objetivamente em tempo real, Solon entendia que Felicidade tinha a ver com uma vida eticamente bem vivida e sem infortúnios e que só poderia ser avaliada ao fim da vida. Afinal, vai que a pessoa é acometida por alguma doença e sofre horrores ao longo dos últimos anos de vida? Por isso que, para Sólon, não se podia dizer sobre a felicidade de alguém em vida.
Olha para esse tantinho de história que falamos nesses poucos minutos e quão complicada a história da felicidade já ficou! E a gente nem chegou nos detalhes do que os grandes filósofos gregos propuseram.
Agora, para retomar a pergunta “Mas o que a ciência e as pesquisas da Psicologia Positiva, por exemplo, tem a ver com tudo isso?”. Tem a ver porque os objetos de investigação das ciências humanas e sociais precisam ser definidos antes de serem investigados em pesquisas com Ressonância Magnética, usando um questionário, usando o que for… Eu preciso saber o que eu estou buscando, afinal de contas. E as pesquisas sobre felicidade sempre fazem referência aos filósofos gregos. E a gente viu aqui que o pensamento grego antigo sobre a felicidade era plural, difuso. O que pode justificar, por exemplo, que eu assuma que um dos filósofos gregos disse a verdade sobre a felicidade e não outro? Como posso argumentar que felicidade pode ser avaliada objetivamente e não apenas ao fim da vida?
A gente vai voltar bastante para essa discussão sobre a ciência da felicidade. Por enquanto eu espero que o episódio de hoje já te tire do automático quando for desejar “feliz aniversário” para alguém, ou quando for dizer que está feliz, ou quando for fazer compras e ouvir a música que fica tocando no Pão de Açúcar. Como se você fosse magicamente ficar feliz por causa dela. Reparem também o quanto se fala sobre felicidade hoje em dia. Revistas, propagandas, no dia-a-dia.
E aí, você é feliz e Por quê?
Compartilha comigo a sua resposta lá no twitter e aproveita para dizer o que achou desse primeiro episódio. @lusbricker. @ L-U-S-B-R-I-C-K-E-R
Te deixo pra refletir com a belíssima citação do escritor português Valter Hugo Mãe, “Ser feliz é o que se pode”.
Até o próximo episódio.
