E aí, pessoal, tudo bem? Eu sou o Luciano Sewaybricker e esse é o canal “Avesso da Felicidade”.
No episódio passado, a gente falou sobre a importância da publicidade pra Felicidade e pro fato de a gente falar tanto sobre esse tema. E, talvez, uma dúvida que tenha ficado no ar é: o que me dá a segurança de que os produtos contêm essa “essência” da Felicidade neles? Será que as propagandas são tão poderosas assim pra convencer a gente de que se eu comprar um amaciante de roupas da marca X eu vou ser mais feliz?
Independentemente do quanto você acha que a publicidade é capaz de influenciar a gente, ela tem um limite. Ela consegue ir até certo ponto só.
Não basta a Coca-Cola jurar de pé junto que sim, uma latinha vai me deixar mais feliz. Tem um limite do quanto de felicidade eu acho que posso ter numa lata de Coca, tem um limite do quanto eu estou disposto a pagar ela… Ou seja, tem um limite do que a publicidade, por si só, consegue influenciar de comportamento de consumo e gerar de vendas.
A gente tem um pé atrás com a publicidade. Acho que todo mundo já se sentiu enganado pelo menos uma vez por alguma propaganda.
Bom, a resposta que a gente vai ver hoje, pra pergunta “Por que falamos tanto sobre a Felicidade?”, é complementar à resposta do episódio anterior e acaba dando uma força pra publicidade, convencendo de que a Felicidade tinha se tornado um objeto mais acessível. Podendo estar, inclusive, em produtos.
A nossa personagem central de hoje é a ciência. A ciência, enquanto instituição de credibilidade (pelo menos para os terra redondistas), vai quebrar o estigma de que a Felicidade era objeto exclusivo dos filósofos. Ela se torna acessível a todos.
E pensa só: Se a gente já botou o homem na Lua, se a gente é capaz de construir um acelerador de partículas e quebrar um átomo em dois, se quase todo mundo tem, ao alcance da mão, acesso rápido a quase todo o conhecimento já produzido pela humanidade (estou falando do smartphone e da internet por sinal)..se a gente já sequenciou o genoma humano(!) por que a ciência não seria capaz de desvendar a felicidade?
A resposta de hoje, então, é: Falamos tanto sobre a felicidade justamente porque, graças às pesquisas científicas, estamos desvendando cada vez mais os segredos dela.
E não é por acaso que a aproximação entre ciência e Felicidade aconteceu de modo determinante nas décadas de 70 e 80, que foram décadas também muito importantes pras propagandas de Felicidade. Isso não foi uma coincidência.
A gente pode entender essa relação entre ciência e felicidade a partir da convergência de 4 principais elementos ao redor dessas décadas: MOTIVAÇÃO, ESTATÍSTICA, INSTRUMENTOS e CONCEITO. A gente vai olhar pra cada um deles com calma.
Vamos começar pela MOTIVAÇÃO. Vou dar três exemplos de coisas que estavam acontecendo:
- as pessoas, de um modo geral, estavam mais abertas pra temas abstratos, espirituais, esotéricos, entre eles a felicidade… ou seja, tudo que ajudasse alguém a se conhecer melhor, a se tornar mais inteira…. era bem vindo. Nessa época rola uma invasão de filosofias/religiões orientais no ocidente e é o emblema do indivíduo auto expressivo que a gente falou bastante no episódio anterior.
- A economia americana tava em momento difícil de retração, demissões e a necessidade de reajuste nas fábricas. Diante de toda esse volatilidade e insegurança, os trabalhadores passaram a manifestar um aumento vertiginoso do adoecimento mental e diminuição do engajamento no trabalho. Os donos das indústrias estavam clamando por alguma luz sobre o que fazer pra recuperar a produtividade anterior. Por isso que pesquisas sobre Felicidade no Trabalho apareceram junto com as pesquisas de Felicidade em geral. E…
- (essa é um tanto óbvia) As empresas estavam na corrida para não só “falar” nas propagandas, mas de fato vender cada vez mais felicidade nos produtos.
Esses três exemplos ajudam a entender que tinha um interesse geral na Felicidade, inclusive, um interesse por parte de pessoas dispostas a pagar caro por conhecimento sobre o assunto, ou então, financiar pesquisas sobre o assunto. A ciência da felicidade, e em especial, a psicologia da felicidade, estavam se tornando POP.
(um parênteses antes de continuar: eu não vou falar de resultados específicos de pesquisas ou contar a história da Psicologia Positiva, que é a área da Psicologia mais conhecida por estudar o tema. Vou guardar isso pra um futuro episódio. O foco aqui é mais contextual e por isso eu vou generalizar esse campo no que eu estou chamando de “ciência da felicidade” – e muito importante: não confundir com a religião “Happy Science” que existe).
Voltando.
Mas você pode estar pensando que isso tudo tá muito estranho… por quê a ciência ia precisar de tanta motivação assim pra estudar Felicidade? Felicidade não é aquilo que todo mundo quer, até quem vai se enforcar, como disse o Pascal?
Pra responder essa dúvida, vou contar a história de “amor e decepção” do Jeremy Bentham, filósofo-jurista-político inglês da segunda metade do século 18 e grande representante da filosofia Utilitarista. Amor e decepção do Bentham, no caso, pela Felicidade.
Como era comum pela época do Bentham, ele era fá da capacidade de mensuração, previsão e controle das ciências naturais e queria levar tudo isso pra política, que era a praia dele. Pro Bentham, a política sofria de um problema muito sério: a dependência da linguagem. Pra ele, a política dependia de palavras como Certo, Errado, Justo, Bem, Mal…. que eram vagas demais e davam margem pra equívocos e corrupções. Era preciso dar um caminho objetivo pra política!
E contra todas as expectativas, ele propôs que o problema seria resolvido se os governos se pautassem na Felicidade. Isso mesmo, você não ouviu errado. Felicidade. A mesma palavra que, desde os gregos antigos, era tão polêmica quanto comer pizza com ketchup.
E o Bentham só afirmou isso porque ele entendia que a Felicidade podia ser definida de uma maneira bem simples, direta, mensurável. Ele queria, basicamente, transpor a Felicidade da Filosofia pra Ciência.
Bentham definiu felicidade como o resultado da “soma dos prazeres menos a soma dos sofrimentos”. Uma equação de soma e subtração simples. Na real, era essa parte da felicidae, o prazer e o sofrimento, que podia ser medida, pois era a base para todo o resto da existência humana. Tudo se construia em função do prazer e do sofrimento.
Abre aspas pra ele:
“A natureza colocou o ser humano sobre efeito de dois únicos mestres: prazer e sofrimento”.
Fecha Aspas.
Pra não se perder em debates que não levavam a lugar algum e operar de forma Útil, um governo deveria, portanto, se guiar pela maximização dos prazeres e minimização dos sofrimentos. Ou, seja, deveria operar como uma Fábrica da Felicidade, pra usar a expressão do Bentham.
Se o Bentham desconfiava da linguagem, ele precisaria operacionalizar seu projeto em medidas de prazer e sofrimento que fossem tais quais uma ciência natural. Por isso ele apostou tudo no corpo. Tinha que ser possível medir a felicidade de forma objetiva pra ela ser uma felicidade utilitarista e não mais aquela felicidade polêmica dos gregos antigos!
Pena que aí começa a decepção do Bentham. Ele tentou, tentou, tentou muito medir felicidade, mas não deu certo.
A principal tecnologia que ele explorou foi o estetoscópio, pra ouvir os batimentos cardíacos, que era uma invenção do século 18. Mas apesar de ter alguma relação com prazer, a frequência cardíaca também tinha com relação com sofrimento e variava muito de pessoa pra pessoa. Na falta de opção, restou pra ele voltar pra linguagem e classificar os prazeres e sofrimentos a partir da experiência pessoal.
Em um dos livros dele, o “Introdução aos princípios da Moral e da Legislação”, Bentham fez uma breve introdução sobre a teoria utilitarista e depois se lançou em dezenas de página descrevendo prazeres e sofrimentos. Tem um capítulo, inclusive, que chama de Catálogo de Motivos com 21 páginas de tipos de prazeres, como o prazer da curiosidade, o prazer da riqueza e por aí vai.
Bom, como resultado desse esforço homérico, a decepção derradeira…
Abre aspas:
“Isso é em vão… a felicidade de um ser humano nunca vai ser a felicidade de outro. O ganho para um ser humano não é um ganho para outro. Você pode igualmente pretender adicionar 20 maçãs a 20 peras.”
Fecha aspas.
Essa história do Bentham é importante pra gente porque representou uma decepção não só do Bentham, mas da ciência como um todo com o tema da Felicidade. Parecia haver um limite até aonde a ciência conseguia ir e, por isso, a Felicidade foi deixada de lado, abandonada pra filosofia.
Mas se ele não chegou aonde queria, o Bentham plantou a semente do positivismo na Felicidade. E ela ficou lá, germinando por quase 200 anos, até que os astros se alinhassem pra realizar seu sonho.
Corta a cena então do Bentham, tomando cerveja no pub da esquina da casa dele, desolado, tentando convencer os amigos de tranca que era possível medir Felicidade, pra 1972. Ano em que o Skinner, psicólogo importantíssimo pra psicologia comportamental, escreveu,
Abre aspas:
“O único fato que eu poderia anunciar a plenos pulmões é que a Boa Vida espera vocês — aqui e agora! — (…) Não depende de mudança de governo ou das maquinações do mundo da política. Não está aguardando uma melhoria da natureza humana. Nesse preciso momento, temos as técnicas necessárias, tanto materiais como psicológicas, para criar uma vida plena e satisfatória para qualquer um.”
Fecha aspas.
Muita coisa mudou nesses quase 200 anos desde a empreitada do Bentham. A gente já falou, inclusive, sobre a MOTIVAÇÃO. Mas tem muito mais coisa. Imagina como era pro Bentham fazer uma pesquisa… Por exemplo, ele querendo, aplicar um questionário perguntando pras pessoas “de zero a dez, quão feliz você é?” Imagina o trabalho dele pra conseguir participantes. Ele ia convidar pessoas como? Anuncio no jornal? Por carta? Não tinha telefone, não tinha email, não tinha Google Forms, não tinha aplicativo. Era um trabalho do cão. Mesmo que, por um acaso, vamos supor, que o Bentham fosse o cara mais bem relacionado (que não é muito o jeito como ele é retratado por historiadores) e conseguisse que muitas pessoas respondessem… ele ia precisar organizar todos os dados na mão! Desenhando uma tabelinha, escrevendo cada dado molhando a caneta no tinteiro.
Esse é só um vislumbre do que mudou. As novas tecnologias de comunicação e transporte impactaram muito a forma de fazer ciência. (Eu sei que isso pode parecer óbvio, mas nem sempre a gente para pra pensar no real impacto de tudo isso).
Só pra ter ideia, na primeira metade do século 20 calculadoras elétricas já eram bem acessíveis e alguns pesquisadores, como o Gallup e o Cantril, já se lançavam em pesquisas representativas de todo um país e inclusive entre países… tamanho era o acesso que eles conseguiam ter a participantes. Eles, inclusive, foram pioneiros em incluir perguntas sobre felicidade nesses questionários. Nada que levasse eles a resultados super relevante, mas já mostrava que a ciência estava voltando a olhar pra esse tema.
Mas a coisa vai mudar mesmo, pra valer, na virada pra segunda metade do século 20, com a informática. A capacidade de tratamento estatístico deu um salto gigantesco com o computador. Essa coisa de usar software de estatística, programar em R, em Python ou mesmo Excel foi revolucionária.
- Os estatísticos, passaram a ser uma mistura de programador com matemático, e estavam menos propensos aos erros de fazer todo o trabalho manualmente.
- As análises se tornaram multidimensionais, considerando um número muito maior de variáveis.
Isso era gigante pras ciências humanas e sociais: variáveis que antes pareciam não ter nada a ver com nada, agora podiam ser calculadas e correlacionados. Isso inclui um objeto complexo como a Felicidade. Foi essa evolução toda que possibilitou que o Warner Wilson, um pesquisador da Universidade do Alabama, escrevesse em 1967:
Abre aspas:
[A pessoa feliz]“ é jovem, saudável, bem educada, bem remunerada, extrovertida, despreocupada, religiosa, casada, tem alta autoestima, moral alta com o trabalho, aspirações modestas, é de ambos os sexos e de diferentes graus de inteligência”.
Fecha aspas.
Se te pareceu uma conclusão meio tosca, ela é sim. Mas uma conclusão tosca amparada na estatística era algo inédito pra investigação da Felicidade. Essa lista de características da pessoa feliz era bem significativa. E foi ajudando a fazer da felicidade um tema mais respeitado na ciência, mais quantitativo.
Mas aí a gente tá falando principalmente de estatística. Tinha um outro aspecto do sonho do Bentham que precisava mudar pra ciência da felicidade se tornar rigorosa: não depender da linguagem e se voltar para o corpo. Lembrando, o Bentham entendia ser muito volátil a opinião das pessoas sobre Felicidade, sobre prazeres e sofrimentos. Afinal de contas as pessoas são estranhas, elas mudam de opinião, podem falar coisas geniais, podem falar asneiras gigantescas… (só abrir qualquer rede social comprovar isso).
E as pesquisas do Gallup, Cantril, Wilson tinham como base o que eles chamaram de “Felicidade Manifestada”, ou seja, uma felicidade que não era definida. Por exemplo, na pergunta “de 0 a 10, quão feliz você é?” quem responder vai tomar como referência o seu próprio entendimento de felicidade.
E aí que entram instrumentos de pesquisa que vão buscar um atalho e acessar o que entendiam ser a fonte da Felicidade: o cérebro. Se tem algum lugar que os materialistas entendem ser a origem da Felicidade, é no cérebro.
- A eletroencefalografia, aquela máquina que mede atividade elétrica do cérebro com eletrodos, e a ressonância magnética, vão ficar acessíveis e se popularizar como instrumentos de pesquisa pelas décadas de 80 e pelos anos 2000 respectivamente.
O Bentham soltaria rojões se estivesse vivo.
Agora dava pra mapear as regiões do cérebro mais ativas nas pessoas mais felizes e ver quem tinha mais ou menos atividade nessas regiões, que acontecimentos ou ações faziam com que essas regiões ficassem mais ou menos ativas. O melhor de tudo: não precisa mais perguntar pras pessoas onde elas vivem, o que comem…
Foi sem precisar falar nada que o monge budista Matthieu Ricard, autor de livros, palestras ted talk e intérprete do Dalai Lama para o francês, foi classificado como o homem mais feliz do mundo em uma pesquisa de 2002 da Universidade de Winsconsin. O eletroencefalograma dele indicou que, nas regiões que entendiam ser da “Felicidade”, a atividade elétrica dele era muito maior do que a da segunda pessoa mais feliz. Quase o dobro.
Ou então, extrapolando das pesquisas acadêmicas, são essas tecnologias que possibilitaram que, em 2014, a British Airlines testasse o “Happiness Blanket”: uma coberta conectada a um capacete de encefalografia. Quando os passageiros usassem esse capacete, a coberta mudaria de cor (entre azul e vermelho) dependendo do nível de felicidade deles.
Agora, usar um capacete durante um voo de 10 horas entre Nova York e Londres não deve ter sido muito feliz, não.
Mas tem instrumento mais simples, mais acessível, mais abrangente, embora tenham menos rigor.
- O restaurante/bar da Cervejaria Nacional em São Paulo, por exemplo, tem um sorrisómetro logo na entrada da casa e te diz quão feliz você está ao chegar e ao sair. Essa medida de sorriso, inclusive, se desenvolveu tanto a ponto de uma câmera diferenciar o sorriso Duchenne, que pesquisadores consideram como sorriso genuíno, do sorriso social. Muitas lojas de departamento têm adotado essa tecnologia pra mapear a satisfação do consumidor sem depender que o próprio consumidor verbalize.
- E pensando em abrangência de tecnologia, não dá pra esquecer todos os dados produzidos em tempo real pelos smartwatches, smartphones e afins….
- Ou mesmo pelas redes sociais. Em 2014, por exemplo, pesquisadores da Universidade de Cornell, junto como time de dados do Facebook, publicaram um artigo bem polêmico em que apresentavam como conseguiram modular as emoções das pessoas a partir do que aparecia no feed de notícias delas no Facebook.
O melhor de todas essas tecnologias e análises estatísticas é que fica muito mais fácil dizer sobre a Felicidade. Você nem precisa ficar encabulado mais, pensando: “eu nem li Platão e Aristóteles no original em grego, será que estou falando alguma besteira?”
Se a ciência está falando, então está falado.
Maravilha, né? Quase. Ainda tem uma ponta solta nessa história. Sem uma definição minimamente razoável de Felicidade, um conceito rigoroso, ainda ia ser um problema falar sobre ela.
Eu não vou entrar em muitos detalhes sobre isso, porque é um aspecto bem polêmico da ciência da felicidade e que a gente fala melhor no nosso próximo episódio. O que interessa pra gente agora é que na década de 80 alguns pesquisadores, cada um ao seu modo, começaram a entender que já tinha bastante informação sobre a “felicidade manifestada” e dava pra arriscar algumas definições a partir de todo esse material.
Uma das direções que essa empreitada acabou seguindo é, no mínimo curiosa: a definição mais rigorosa de Felicidade envolvia…. deixar a felicidade de escanteio.
Ed Diener talvez seja o mais importante pesquisador pra esse processo, por que
- foi um dos primeiros, ele escreveu em 84,
- e porque o conceito que ele apresentou, Bem-Estar Subjetivo, acabou sendo o que mais pegou nas pesquisas científicas da Felicidade até hoje.
Abra aspas pro Ed Diener:
“Infelizmente, termos como felicidade, que têm sido usados constantemente no dia-a-dia vão ter um significado confuso e variável (…) conforme as mensurações e outras pesquisas avançarem, os conceitos mais úteis serão aqueles que, dentro de uma teoria, podem ser medidos e poderão apresentar relações com outras variáveis.”
Fecha aspas.
O fato de o Ed Diener se preocupar tanto com a utilidade do conceito é bem significativo. Ponto pro Bentham e pro utilitarismo.
É importante apontar que a polêmica não foi e não está completamente resolvida. Ainda tem muitas teorias diferentes (ou conceitos de Felicidade) por trás das pesquisas científicas. A do Ed Diener é uma delas e é questionável se ele deixou ou não a Felicidade de lado.
O ponto importante, pra gente, é que essa polêmica foi perdendo relevância diante da capacidade de mensuração que os novos CONCEITOS permitiam. Junto com a ESTATÍSTICA e as TECNOLOGIAS, era possível operacionalizar pesquisas científicas sobre Felicidade como nunca antes.
Se, por um lado, a polêmica conceitual sugere não ser possível fazer uma pesquisa rigorosa, a quantidade de artigos e conhecimento sendo produzidos sugere algo diferente. Talvez por um empurrão da MOTIVAÇÃO?
Ou talvez porque não seja preciso falar em rigor, mas em utilidade das pesquisas científicas.
Utilidade que pode ser medida como o quanto as pessoas consomem os resultados das pesquisas da ciência da felicidade. Utilidade no quanto parece que essas pesquisas estão ajudando as pessoas a viverem melhor.
Se você ouvir, por exemplo, o podcast “The Happiness Lab”, da professora de psicologia de Yale, Laurie Santos, você vai ter uma boa amostra da quantidade de pesquisas e conclusões sobre o que pode te ajudar a ser mais feliz e quão aplicáveis (ou seja, úteis) são essas pesquisas. Esse é um dos meus podcasts preferidos sobre felicidade. Recomendo bastante ouvir ele até pra ter uma visão complementar a que eu tenho.
Bom, então… “Por que falamos tanto sobre a Felicidade?”
Porque uma instituição com muita credibilidade, a ciência, está decifrando a Felicidade e me entregando guias de instruções. Eu tenho testes diagnósticos, eu tenho acesso a pesquisas comparativas com todos os países do mundo… Tá tudo na minha frente, mastigado. É óbvio que eu vou ficar empolgado e consumir essas pesquisas, vou falar dessas pesquisas, vou esperar ser muito mais feliz aplicando as conclusões dessas pesquisas.
Resumindo: “Falamos tanto sobre a felicidade porque nunca conhecemos tanto sobre os segredos da felicidade”
Mas antes de terminar o episódio de hoje, eu quero falar sobre o experimento mental do filósofo Robert Nozick, chamado “A máquina da Felicidade”.
No episódio passado a gente se perguntou: Será que isso que a ciência mede, com todas essas tecnologias é, de fato, a Felicidade? Consequentemente, será que dá pra saber se os produtos contêm felicidade?
Vamos supor que sim, dá pra pesquisar, produzir, medir felicidade. Se isso for verdade, a gente vai, cada vez mais, transformar o exercício reflexivo do Nozick em realidade. O Nozick, em 89, ficou pensando sobre a seguinte situação: como seria se inventassem uma máquina na qual a gente se pluga, tipo Matrix, e que é capaz de criar a perfeita experiência de Felicidade pra gente? Ou seja, nada de Agente Smith lá dentro, você fica quanto tempo quiser, você pode combinar de encontrar seus amigos lá, tipo uma balada da felicidade.
A pergunta que o Nozick se faz é: as pessoas escolheriam se plugar nessa máquina? Você escolheria se plugar nessa máquina?
Mas essa pergunta do Nozick não é muito boa pra gente, porque a gente escolhe “muita coisa ruim na vida” as vezes sem saber que é ruim, mas as vezes sabendo que é algo que vai fazer mal… um exemplo simples é o vício em drogas.
A gente pode, então, mudar a pergunta do Nozick pra uma outra que ajuda mais na nossa reflexão: será que essa vida plugada na máquina é uma vida feliz?
Se você assistiu Matrix e torceu pro Neo escolher a pílula Azul (que era pra continuar na Matrix e acabar o filme ali) acho que você não vai concordar comigo, nem com o Nozick e nem com uma infinidade de outros filósofos, de que falta alguma coisa importante nessa máquina. Por exemplo, a gente que fazer coisas e não só ter a experiência de fazer coisas. Fazer algo é diferente de ter a experiência desse algo.
Imaginar essa máquina em operação me lembra uma frase que ouvi, não lembro aonde, e me marcou bastante. De que que um sábio disse, certa vez, que, se você quiser mesmo amaldiçoar alguém é só garantir a ela a capacidade de ter tudo que ela desejar. Desejou, a coisa já está lá. Ela não precisa mais lutar por nada, ela não vai mais sentir frio na barriga de que algo pode não acontecer. A vida ficaria sem graça, as coisas iam perder o valor delas.
Imaginar uma felicidade que vem embrulhada pra presente, que alguém nos entrega, é distinta da felicidade que eu identifico ser fruto das minhas ações, das minhas escolhas. E isso faz toda a diferença.
Mas não é só o problema de agência (como alguns autores de ciências sociais vão se referir a essa capacidade de escolha e ação individual).
Tem o problema também de percepção da Felicidade.
Por exemplo, imagina que um jornalista me pergunte, depois de uma entrevista, se eu sou feliz. É a pergunta que mais me aterroriza… pra variar eu fico confuso, não sei como responder, estou prestes a desmaiar… e daí, como em um milagre, aparece Deus de jaleco, uma combinação da autoridade divina e científica. Deus diz assim: “Luciano, você é, sim, feliz. De 0 a 10, sua felicidade nesse instante é 8.3. Você está acima do percentil 90 da população.”
Eu ouso dizer que essa intervenção científico-divina não me ajudaria a ficar em paz com a pergunta. Não me ajudaria a dar uma resposta que resolveria todas as dúvidas que tenho dentro de mim.
De pouco adianta se dizer feliz se você não conseguir perceber essa felicidade.
Vale mais o eletroencefalograma do Matthieu Ricard dizendo que ele é a pessoa mais feliz do mundo ou ele dizendo que é feliz? Ainda que o eletro influencie a opinião do próprio Matthieu Ricard, é a percepção dele que me interessa.
Sendo ou não sendo Felicidade de verdade que é medida pela ciência, as pesquisas sobre esse tema estão bombando e disseminando resultados em ritmo impressionante. Cada vez mais se diz sobre Felicidade e com a segurança de que o enigma está se dissipando. E por isso que se diz tanto sobre o assunto.
No próximo episódio, que é o último dessa sequência, a gente vai falar sobre o processo de simplificação da Felicidade e o porquê essa simplificação interessa algumas pessoas.
Pra fechar, vou deixar você com a frase do cientista político William Davies, que, se referindo à ciência da felicidade, diz: “Em algum lugar entre as ciências quantitativas e a espiritualidade está a felicidade”
Compartilha comigo as suas ideias e aproveita para deixar seu comentário sobre o episódio no twitter, @lusbricker. @ L-U-S-B-R-I-C-K-E-R
Espero que tenha gostado e até o próximo episódio.
