Episódio 5 – História da palavra Felicidade (Parte 1 de 3) – eudaimon, makar, eftýchia e olbios

E aí, pessoal, tudo bem? Eu sou o Luciano Sewaybricker e esse é o canal “Avesso da Felicidade”. 

Você já se perguntou “quando que começaram a falar sobre felicidade?” Como será que era a vida antes de se preocuparem com a felicidade, antes de existir a palavra “felicidade”? Quem será que foi a primeira pessoa a falar sobre felicidade? A pessoa que, em um dado momento da história, pensou que estava muito chato viver do jeito que viviam e seria melhor se as pessoas pudessem sentir… sentir uma coisa mais interessante, mais desejosa…. vou chamar isso de “felicidade”. Voilá. Está descoberta ou inventada a felicidade.

Seria mais fácil se a investigação histórica da felicidade fosse simples assim. Se a polêmica pudesse ser resolvida com a identificação do específico momento no tempo e no espaço em que a felicidade surgiu.

Mas a realidade é bem diferente. Se você pegar o dicionário, consta lá pelo menos umas 4 definições diferentes: sorte, prosperidade, estado de bem estar duradouro, uma experiência sentida como prazerosa ou um acontecimento desejável. Na filosofia, também, é fácil encontrar as mais diferentes referências ao tema. Qual delas é a verdadeira? 

Ou seja, a quantidade de sentidos diferentes de felicidade já dá pra gente um bom motivo pra investigar cuidadosamente a história dela. 

Um outro motivo é a quantidade de palavras ou nomes diferentes que habitam o universo da felicidade.

A história da felicidade se passa em lugares muito diferentes. A gente tá falando da Grécia Antiga, da Roma Antiga, da Europa renascentista, dos Estados Unidos de 1900, do Brasil contemporâneo… são culturas diferentes, idiomas diferentes… o percurso de uma ideia (como a felicidade),  entre traduções e mudanças culturais, é tortuoso até chegar ao uso que a gente faz hoje. 

Por exemplo:

– Dá pra traduzir Felicidade pelo inglês Happiness? E pelo alemão glück ou francês bonheur? 

– Quais palavras os gregos usavam pra se referir a essa coisa, essa ideia da felicidade? No que essas palavras se diferenciam?

– Como essas palavras gregas foram traduzidas para o latim da República Romana?

A história da palavra felicidade, portanto, é longa, complexa e curiosa. E é para essa história que a gente vai começar a olhar no episódio de hoje: ao invés de falar sobre o que significa “felicidade”, a gente vai olhar pra palavras que são parte dessa linha do tempo e tentar entender o que o uso delas nos conta sobre o que foi virando “felicidade”. 

O Mikhail Bakhtin, filósofo russo e estudioso da linguagem, escreveu sobre isso, justificando o valor de examinar as palavras, abre aspas:

“A palavra é capaz de registrar as fases transitórias mais íntimas, mais efêmeras das mudanças sociais (…) [porque] a palavra constitui o meio no qual se produzem lentas acumulações quantitativas de mudanças que ainda não tiveram tempo de se transformar em novas teorias.”  (Bakhtin, 2004, p. 41 – edições minhas)

Fecha aspas.

Pro Bakhtin mudanças na forma de pensar vão ter primeiro um reflexo no uso das palavras e só depois que viram teorias bem delimitadas. 

Ainda assim, você pode pensar que é uma besteira fazer isso. “Pra quê voltar lá pra Grécia Antiga de novo? A gente vai desenterrar o cadáver da felicidade?? Só continuar pesquisando, indo pro laboratório, até a gente descobrir o verdadeiro significado dela!”.

Esse tipo de pensamento é como a gente costuma pensar na maior parte do nosso dia a dia. Se eu falo “maçã”, tem um significado muito claro e objetivo do que é “maçã” e eu espero que você entenda. Eu não vou me preocupar com a etimologia da maçã. “Ah, mas eu preciso entender como falavam maçã na Grécia Antiga….”. Eu não vou achar que corre o risco de você me entregar uma pêra.  Maçã é maçã. Talvez, se eu for falar algo mais complicado, como “alma”, eu vou tomar mais cuidado com o conjunto de palavras que vou usar pra garantir que o verdadeiro significado seja transmitido e você me compreenda. Mas, ainda assim, eu ajo no dia-a-dia como se aquilo que eu quisesse dizer estivesse bem delimitado pelas palavras.

Bom, mas deixa eu abrir parênteses sobre a palavra aqui pra deixar claro que essa investigação etimológica é bem importante.

Primeira coisa: a felicidade é uma palavra. Pois é. Espero não ter pego você de surpresa com essa frase. Felicidade é um acumulado de letras: um efe, alguns ês, alguns dês… Essas letras, colocadas em certa ordem, compõem uma palavra que indica um sentido muito específico. Felicidade não é café. Não é maçã. Felicidade é felicidade. Do mesmo jeito que maçã é maçã. 

E como a gente depende da palavra… O filósofo nascido na região Argélia, Jacques Derrida (2016), escreveu a famosa frase de que não há nada fora do texto. Justamente por que o texto ou a palavra está em todo lugar: a gente pensa com palavras, pra nomear as coisas ou explicar palavras a gente usa… palavras. O dicionário é um mundaréu de palavras tentando explicar o que palavras significam. Palavra pra todo lado… A palavra é tão central na nossa vida que a gente muitas vezes confunde a palavra com aquilo que ela significa, achando que elas têm uma relação direta, inequívoca. Mas o significado da palavra não está no conjunto das letras, não está contido na palavra.

Deixa eu contar uma história Zen Budista sobre isso.

No começa da noite, uma monja chamada Wujincang perguntou pra um grande mestre Zen se ele podia ajudar ela a entender alguns sutras (que são textos sagrados), mas, pra surpresa dela, o mestre respondeu que não ia rolar. Ele não sabia ler, mas se ela quisesse ler pra ele, aí beleza. A Wujincang ficou “passada”: como assim não sabe ler? Como você consegue compreender a verdade por trás das palavras se você não sabe ler? Eis que o mestre, como um bom mestre zen budista, calmamente apontou pra lua e disse: “a verdade e as palavras não são a mesma coisa. A verdade pode ser comparada à lua e as palavras podem ser comparadas a um dedo. Posso te ajudar a olhar pra lua com meu dedo, mas meu dedo não é a lua e você também não precisa dele pra ver a lua.”  

A palavra, portanto, seja ela felicidade, casa, café, maçã, qualquer uma, nunca vai ser equivalente àquilo que eu estou me referindo. Se você pedir lasanha em um restaurante e eles te trouxerem um pedaço de papel escrito “lasanha” ou sussurrar no seu ouvido “lasanha”, você não vai ficar muito contente. Obviamente você diz “lasanha” e espera uma coisa diferente da palavra…. O dedo não é a lua. E a lua não é o dedo, mas eles têm uma relação. O historiador e tradutor Cornelis de Heer escreveu sobre isso.

Abre aspas:

“..o significado é a relação recíproca entre nome (ou palavra) e o sentido que possibilita que um possa chamar/convocar o outro. Nessa definição, nome (ou palavra) é o formato acústico, sentido é o conteúdo mental.” (1969, p. XI)

Fecha aspas.

Quando eu digo maçã, essa palavra convoca um sentido, uma imagem, uma emoção. Do mesmo jeito que quando eu vejo, na minha fruteira, o objeto avermelhado, suculento, do tamanho da minha mão, a palavra “maçã” me vem à mente.

Pro Cornelis de Heer, pensar no significado de algo, como a felicidade, é pensar na relação entre palavra e o sentido que é convocado por essa palavra. A felicidade, portanto, é uma palavra que aponta, como o dedo, pra um sentido, pra uma ideia. 

Mas aí a gente tem um problema: se essa relação entre palavra e sentido fosse estável, era só a gente buscar quem patenteou a felicidade e quando. Mas a relação entre palavra e sentido não é estável, não é universal, não é homogênea entre todo lugar, pra todas as pessoas… 

Falar da história da palavra felicidade engloba várias palavras que indicam um sentido semelhante e também palavras que, cada uma, indica sentidos diversos. São uns 30 dedos e umas 20 luas.

E é nesse bololô que a gente vai se meter e quem sabe aprender alguma coisa sobre o uso que a gente faz, hoje, da palavra felicidade. 

Fecha esse longo parênteses sobre a palavra, e vamos falar sobre a estrutura dessa investigação da palavra felicidade que começa com o episódio de hoje.

Os pontos de interesse pra gente nesse percurso são quatro: primeiro, o universo de palavras na Grécia Antiga; segundo, o que rola com essas palavras na passagem para o latim na Roma Antiga; terceiro, as transformações das palavras na Europa renascentista com as novas traduções dos filósofos gregos e a diminuição do poder da igreja; e quarto, como essas palavras vão se moldando ao vocabulário moderno e científico, mais familiar pra gente hoje.

No episódio de hoje a gente vai ficar com o primeiro desses pontos. Vale a pena ser um pouco mais minucioso nessa parte porque as palavras que eram utilizadas na Grécia Antiga pra representar essa ideia de felicidade (ou melhor forma de se viver) ainda são referência hoje.

Vamos começar. 

Grécia Antiga. A coisa mais valiosa pros membros da cultura grega era contemplar o mundo, pensar, filosofar. E parte dessa contemplação era em relação à vida. Meio difícil não pensar sobre a vida quando se filosofa: quem sou eu, por que vivo, fico aqui dormindo ou vou pra Ágora falar de política… o importante aqui pra gente é que num dado momento, que geralmente vai ser referido como passagem da filosofia pré-socrática pra filosofia socrática, essa reflexão se tornou explicitamente e consistentemente ocupada com aquilo que era particular ao ser humano de modo separado dos deuses. Uma coisa era pensar sobre como pode ser a nossa vida entendendo ela como determinada pelos deuses e outra completamente diferente era pensar nela como estando em boa parte no nosso controle.

Um problema é que essa mudança no humor da filosofia não veio junto com um dicionário novo, com novas palavras. Os gregos antigos tinham um mesmo universo de palavras à disposição, mas agora pra se referir a uma coisa nova. Como se o mesmo dedo deixasse de apontar pra lua e passasse a apontar pra uma nuvem. Como se maçã deixasse de se referir à uma fruta e passasse a se referir, a partir de hoje, à uma empresa de tecnologia. Não precisa ir muito longe pra perceber que isso levaria a uma certa confusão.

Abre aspas pro Cornelis de Heer:

“Nos épicos de Homero não existe evidência de um conceito particular de felicidade. Para os pensadores da Grécia Arcaica, a gente pode entender que felicidade era o estilo de vida dos heróis. Esse estilo de vida envolvia a glória pessoal, que significava o esforço incessante por parte do indivíduo-herói para atender os desafios em competições e manter sua reputação.”(1969, p.1).

Fecha aspas.

Se na Grécia Arcaica não tinha um conceito particular (uma única palavra) pra falar de felicidade, pra falar da melhor vida possível, os registros históricos, dos poetas, dos filósofos, vão fazer uso de palavras diferentes pra dizer sobre pedaços da vida que eram bons, vão usar palavras diferentes pra se referir às características das pessoas que pareciam viver ou ter vivido uma vida boa.

Pausa pra um aviso importante: a partir de agora eu vou começar a falar palavras em grego e a pronúncia dessas palavras pode estar bem errada. Meu esforço maior vai ser pra pronunciar igual até o fim do episódio. Se eu conseguir isso já vai ser uma vitória.

Retomando. As principais palavras pra retratar pedaços da melhor maneira de se viver eram quatro: olbios, makar, eftychía e eudaimon. Se você pegar um dicionário grego-português contemporâneo, você vai encontrar provavelmente os seguintes significados: 

  • Olbios (ὄλβιος) – significa: feliz, afortunado e próspero.
  • Makar (μακάριος) – significa: bem-aventurado, próspero, abençoado.
  • Eftychía (ευτυχία) – significa: boa sorte, sucesso.
  • Eudaimon (ευδαίμων) – significa: feliz, afortunado, próspero.

Olhando assim, o significado não é muito diferente, mas o uso das palavras era razoavelmente diferente na Grécia Antiga e isso é bem importante pra gente porque essas palavras vão levar a mudanças maiores mais pra frente na história. 

E pensa só, todas essas palavras e o uso que os poetas e filósofos foram fazendo delas, eram um processo de desvendar e ao mesmo tempo inventar o que é uma vida que vale a pena viver, qual a melhor forma de viver. Lembrando que a felicidade era um objeto novo pra eles, que não tinham um conceito específico (pelo menos não antes do Aristóteles construir sistematicamente o significado de eudaimon). Vamos começar por essa palavra então.

Eudaimon, principalmente por mérito do Aristóteles, é a palavra mais importante pra gente porque foi ela que acabou sendo usada de forma mais ampla e frequente pra se referir (como adjetivo) à pessoa que vivia especialmente bem e, gradativamente, (como um substantitvo) pra se referir à própria vida boa. Mas tem muita coisa rica sobre a palavra eudaimon antes de chegar no Aristóteles. 

A Rosanna Lauriola (2006), doutora em literatura grega e latina, escreveu sobre três usos distintos da palavra nos textos clássicos.

  1. No primeiro desses usos, eudaimon é usado como uma condição da vida boa que é diretamente dependente da vontade dos deuses. 

Abre aspas pro Hesíodo: 

“É feliz (eudaimon) e sortudo (olbios) aquele que conhece as coisas e faz seu trabalho sem ofender os deuses imortais, aquele que discerne os presságios dos pássaros e evita transgressões”. (Hesíodo, 1914, 826-828.). 

Fecha aspas.

Ser feliz em nada se relacionava com os assuntos terrenos, mas ao divino. Aquilo que era próprio da eudaimonia era de conhecimento só dos deuses. Pra gente, o que resta é esperar, torcer pra ser eudaimon.

  1. No segundo exemplo, eudaimon era separada por completo da sorte (olbios e eftýchia). Em vida alguém só poderia ter sorte, mas não ser feliz. Mesmo o mais dos sortudos não seria feliz. A felicidade não apenas era de conhecimento dos deuses, mas também só era vivida pelos deuses. Para esse uso, um trecho da obra Medea do Eurípides exemplifica.

Abre aspas:

“Porque nenhum mortal se torna feliz (eudaimon). Uma pessoa pode ter mais sorte (eftychía) do que outra quando a riqueza (olbios) vem em sua direção, mas feliz (eudaimon) jamais.” (Euripides, 1994, 1228-1230).

Fecha aspas.

  1. Por fim, no terceiro uso da palavra eudaimon, ser feliz dependeria tanto dos seres humanos quanto dos deuses. A condição para se ser feliz dependeria do bom senso, mas sem se desconsiderar o papel fundamental dos deuses.

Abre aspas pro Sófocles: 

“Sabedoria é a parte central da felicidade (eudaimonia), e nossos assuntos com os deuses não podem, ainda assim, ser profanos”. (Sophocles, 1891, 1347-1350). 

Fecha aspas:

Aqui, apesar do Sófocles ter rabo preso com os deuses, há margem pra vida feliz ser vivida, que é algo que se torna mais comum nos filósofos pós-socráticos.

Essa relação entre eudaimon e o divino é curiosa porque a palavra faz alusão direta a isso. A palavra eudaimon é a junção do sufixo adverbial “ευ” (que significa “algo bom, positivo, próspero) e o radical “daimon” (que, literalmente, significa “demônio”). Ou seja, eudaimon significa “bom demônio”. Só que os demônios no pensamento grego apareciam de formas bem diferentes e, com certeza, tinham um sentido completamente distinto do dos demônios cristãos (Abbagnano, 1962:224; Giles, 1993:32). O demônio era um ser neutro e que não fazia parte de nenhum culto religioso (Burkert, 1977:353).

  • Daimon podia referir, literalmente, a um semideus: um ser intermediário entre os deuses e a gente. Eram esses demônios que faziam a correria de fazer as orações dos seres humanos e os mandamentos dos deuses circularem de um pro outro (Platão, O Banquete; Hesíodo).
  • Em algumas outras circunstâncias, como em Homero, daimon era utilizado pra se referir a um poder, uma força inominável, que só podia significar que uma pessoa tinha um pedaço do divino nela. 
  • Ou então, esse demônio era referido como voz interna que orientava pessoas. Os pupilos do Sócrates, Platão e Xenofonte, escreveram algumas vezes sobre esse “demônio” do Sócrates (δαιμόνιον) que o ajudou a ser tão genial.

Em linhas gerais, ser referido como detentor de um bom demônio era uma coisa bem boa. Era ser detentor de um grande poder, estar bem encaminhado na vida, provavelmente guiado pelos deuses (Chantraine, 1968). 

Apesar de toda essa bagagem da palavra eudaimon, o que mais a gente vê por aí sobre ela é o que o Aristóteles escreveu no livro Ética a Nicômaco (ou melhor, o que Nicômaco escreveu sobre as aulas do Aristóteles). Eudaimon acabou sendo utilizada como palavra mais abrangente pra se referir a melhor vida possível e também retratando ela como um objetivo alcançável. O Aristóteles vai definindo não só a pessoa feliz e a felicidade (eudaimon e eudaimonia), mas também traçando um perímetro que diferencia essa palavra de olbios, makar e eftychía.

Abre aspas pro Aristóteles, logo no início da Ética a Nicômaco:

“Quanto ao nome desse bem, parece haver acordo entre a maioria dos homens. Tanto a maioria como os mais sofisticados dizer ser a felicidade (εὐδαιμονίαν), porque supõem que ser feliz (εὐδαιμονεῖν) é o mesmo que viver bem e passar bem. Contudo, sobre o que possa ser a felicidade (εὐδαιμονίας) estão em desacordo e a maioria não compreende o seu sentido do mesmo modo que o compreende os sábios.” (Aristóteles, EN, 1095a14-25)

Fecha aspas. 

Onde eu falei “felicidade” e “feliz” o Aristóteles usou derivados de eudaimon pra se referir ao maior bem possível de ser almejado.

Vamos passar agora pra palavra Makar. Essa é uma palavra bem curiosa. Eu falei um pouco antes que makar significa algo como divinamente feliz, bem-aventurado, abençoado. Geralmente, na tradução dos clássicos gregos makar acaba virando “abençoado”, mas esse é um entendimento simplista apesar de não ter palavra melhor… (Cornelis, 1969, p.3).

Geralmente makar era utilizada pra se referir a uma vida boa, mas com um tom mais exaltado, mais emotivo, com uma participação divina mais intensa do que no caso de eudaimon (McMahon, 2006, p.3 – 68). Ou como o editor da República de Platão, James Adam, vai escrever, makar (μάκαρες) é como um epiteto dos deuses, um símbolo da conexão de alguém com o divino. E essa conexão era retratada de dois modos diferentes.

O primeiro modo é um pouco, digamos, mais pé no chão.O Platão e os outros filósofos pós-socráticos vão ser bons representantes desse modo de usar makar. Eles usaram makar como uma sinal de que alguém, em carne e osso, vivo, tinha alguma característica muito, muito positiva. Algo que a aproximava dos deuses. 

Abre aspas pro trecho da República do Platão:

“Vamos pegar em armas então” eu disse, “você e eu juntos, se alguém afirmar que Simonides ou Bias ou Pittacus ou qualquer um dos sábios e abençoados (μακαρίων) disseram isso”. (Platão, República 335e) (https://en.wiktionary.org/wiki/)  

Fecha aspas:

Esses sábios e abençoados eram pessoas muito incríveis. Tanto que, se um deles disser tal coisa, não tem conversa, só resta ir pra guerra mesmo. Makar era usada de forma bem geral, mas um pouco mais exaltada, emocional que eudaimon. E a relação entre makar e o divino era obrigatória. Das 18 vezes que “makar” aparece no texto clássico  Ilíada, 16 são pra se referir à alguma característica dos deuses.

Abre aspas de novo pro Cornelis descrevendo parte dessa vida divina:

“Ser makar é ser divino, é ter um lar seguro contra a adversidade, é estar despreocupado com vento e chuva, é desfrutar de eterna luz do sol, é desfrutar de si mesmo durante todo o dia.” (1969, p.4)

Fecha aspas.

Já o segundo modo que makar era utilizado era mais restritivo por ser usado como referência só a quem já havia morrido. A ideia é mais ou menos a seguinte: se makar trata de compartilhar características com os deuses, uma importante é que eles não sofrem com a mortalidade. Bom, enquanto a gente for vivo, a gente não vai compartilhar essa característica com os deuses. É só depois de morrer mesmo, dependendo do que você acreditar, que tem alguma chance de isso acontecer.

Na peça do Ésquilo, “Os persas”(472 a.C.), a palavra “μακαρίτης” (makaritis) foi usada justamente pra se referir de modo positivo aos mortos, de que eles estão em outro plano, universo, dimensão, bom, onde eles estiverem…  e  que, por não se preocuparem mais com coisas terrenas, tipo dor no joelho, se vai chover, se tem pandemia; eles têm a chance de desfrutar de um modo de existência ideal. Por esse motivo eles teriam a chance de ser “makar”.  (https://lsj.gr/wiki/)

Num trecho da Odisséia, o Ulisses lutando pra não se afogar depois de um naufrágio. E sofre por estar prestes a morrer uma morte não heróica. Mas daí ele pensa nos colegas de navio que acabaram de morrer e não estavam mais sofrendo como ele ali, se debatendo, amargurado com o fim trágico. Pro Ulisses, esses colegas eram, agora, makar (μάκαρες), porque não precisariam mais se preocupar (DE HAAR, 1969, p.11).

Ou então, não sei se você lembra do episódio piloto, em que eu falei da conversa entre o rei da Lidia, Croesus e o sábio Sólon. Que o Croseus pergunta pro Sólon se tinham alguém com uma vida melhor do que ele e o Sólon começa a fazer uma lista de gente que tinha morrido. Nessa conversa, além de discordarem sobre o significado da melhor vida possível, os dois também discordavam em relação a qual palavra utilizar. 

A pergunta do Croesus era mais ou menos assim: “quem é a pessoa que tem mais olbios que você já viu?” e na resposta Sólon vai falar de makar e eudaimon.

Então o que era esse “olbios” que o Croesus achou que era suficiente pra se referir à vida boa? Vamos falar dela, olbios e aproveitar pra falar também de eftychía.

Se makar e eudaimon são palavras com um sentido mais abrangente, sendo makar mais emocional e eudaimon mais cognitivo-racional, olbios e eftychía tem um sentido mais concreto, e podiam ser dimensionadas por posses, terras, ouro, família… dimensionadas por coisas em abundância, a ponto de gerar admiração das outras pessoas (DE HAAR, 1969, p.8, p.15). Olbios e eftychía fazem referência a uma sorte tão sortuda, que parecia ou significava que os deuses tinham intervido em favor da pessoa.

Mas apesar de serem parecidas, as duas palavras eram usadas com algumas diferenças. Olbios seria mais o sortudo clássico e era referente a uma característica mais duradoura de alguém: uma pessoa que tem uma vida sortuda, afortunada, abastada e que, por isso, tem alguma coisa nela que os deuses curtem pra dar tanto. O Croesus, até aquele momento, seria mesmo um bom candidato a palavra “olbios”. 

Já eftychía tinha uma referência mais pontual. Ela era usada pra se referir ao momento específico em que a sorte acontecia. Eftychía não envolve necessariamente o mérito da pessoa que teve sorte naquele instante e por isso não dava a entender que alguém tava recebendo as graças do divino.

Era comum que tanto olbios como eftychía fossem utilizadas acompanhando as palavras makar ou eudaimon, como se fossem uma evidência, um sinal de que alguém era makar ou eudaimon. Ou seja, olbios e eftychía eram palavras subordinadas de makar e eudaimon. 

A lógica era mais ou menos a seguinte: ter todo um mundaréu de coisas era uma boa evidência de que os deuses estavam dando uma força pra você e que sua vida era boa de um modo geral. Se sua vida fosse verdadeiramente boa, era comum que você tivesse boa sorte.

Mas o inverso não acontecia. Não necessariamente alguém com sorte seria feliz ou abençoado. Nem todos que eram olbios e eftychía tinham uma vida boa. Que o diga o Croesus.

Resumindo: o que estava rolando na Grécia Antiga é que eles foram usando algumas palavras diferentes pra se referir a uma forma de viver que parecia interessante, seja porque era uma vida sortuda, ética, abençoada, conquistada com o suor do rosto, uma vida com um passado glorioso ou com um futuro próspero e por aí vai. Nesse percurso, makar ficou mais associada ao divino, olbios e eftychía ficaram mais associadas a aspectos concretos da vida, à sorte. Já eudaimon acabou ficando tão abrangente quanto makar, mas no meio do caminho entre o divino e o terreno, com um tom mais avaliativo e racional. E o que fez toda a diferença pra eudaimon foi o uso sistemático que o Aristóteles fez dela pra se referir à melhor forma de se viver.

Mas um tempo depois do Aristóteles, a Grécia Antiga entrou em decadência, foi minguando, perdendo guerra aqui e acolá, a cara da filosofia mudou um bocado com o epicurismo e o estoicismo (muito mais individualistas na sua concepção do que o Aristóteles e o Platão)… até que, entre invasões e mudanças culturais, Roma tomou conta da Europa. E da-lhe choque cultural. Língua, política, religião…. Tudo era muito diferente e vai ser um auê danado acompanhar como todas as palavras e as ideias que elas tratavam (aspectos da melhor forma de se viver), foram transpostas pro latim. 

Mas isso é coisa pro próximo episódio.

Pra fechar, uma frase do filósofo francês Comte-Sponville em um dos meus livros de cabeceira, Bom Dia, Angústia: 

“A vida é curta demais para contentar-se com palavras. E difícil demais, porém, para dispensá-las.”

Compartilha comigo suas reflexões lá no twitter, @lusbricker. Aproveita também pra visitar a página do podcast, avessodafelicidade.com. Lá você vai encontrar sugestões de leitura, a transcrição dos episódios e todos os episódios pra acompanhar.

Espero que tenha gostado e até o próximo episódio.

Referências: 

Abbagnano, N. (1970). Dicionário de filosofia. São Paulo, ed. Martins.

Aeschylus. Aeschylus, with an English translation by Herbert Weir Smyth, Ph. D. in two volumes. 1. Persians. Herbert Weir Smyth, Ph. D. Cambridge, MA. Harvard University Press. 1926

Aristotle. Aristotle in 23 Volumes, Vol. 19, translated by H. Rackham. Cambridge, MA, Harvard University Press; London, William Heinemann Ltd. 1934.

Bakhtin, M.M. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da linguagem. Trad. Michel Lahud & Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec, 2014.

Bíblia Latim – Português: http://bibleglot.com/pair/Vulgate/PorAR/Matt.5/

De Heer, C. (1969). Makar, Eudaimon, Olbios, Eutychia: A Study of the Semantic Field Denoting Happiness in Ancient Greek  to  the  End  of  the  Fifth  Century  B.C., Amsterdam: Adolf M. Hakkert.

Derrida, J. (2016). Of grammatology. JHU Press.

Erkell, H. (1952). Augustus, felicitas, fortuna. Lateinische Wortstudien.

Gloria Novak, M., & Neri, M. L. (1992). Poesia lírica latina. Martins Fontes.

Hub, B. (2004). Search, Read, Study the Bible in Many Languages. Biblehub. com. Accessed.

Karol, L. De Deo Socratis, a demonologia no contexto do império Greco-Romano. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, Programa de Pós Graduação em Letras Clássicas, 2016.

Liddell, Scott, Jones Ancient Greek Lexicon (LSJ): https://lsj.gr/wiki/Main_Page

Nussbaum, M. C. (2001). The fragility of goodness: Luck and ethics in Greek tragedy and philosophy. Cambridge University Press.

Plato. Plato in Twelve Volumes, Vols. 5 & 6 translated by Paul Shorey. Cambridge, MA, Harvard University Press; London, William Heinemann Ltd. 1969.

Salema, V. D. A. G. (2013). ANÁLISE DO EPODO X DE HORÁCIO. PRINCIPIA, (27), 1-11.

Santos, J. A. D. S., Luchi, J. P., Costa, R. L. S. D., & Costa, M. R. N. (2013). Beatitude e Sabedoria em Agostinho: Estudo sobre as fontes pagãs no De Beata Vita a partir do uso do termo philosophia (Master’s thesis, Universidade Federal do Espírito Santo)

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