Episódio 6 – História da palavra Felicidade (Parte 2 de 3) – Felicitate e Beatituto/Roma e Renascimento

Cá estamos mais uma vez pra falar da palavra “felicidade”. No capítulo de hoje a gente vai começar na Roma Antiga, falando das palavras félix e beatus, e vai até o renascimento. 1500 anos em um podcast!

No episódio passado, eu argumentei sobre o porquê vale a pena a gente investir tempo investigando a palavra “felicidade”, que é diferente de falar sobre o significado de “felicidade”. 

E a versão resumida do que eu falei é: quando a gente discute o significado de felicidade, geralmente a gente parte do pressuposto que o Aristóteles, o Platão, o Sêneca, o Santo Agostinho…. Todas essas pessoas falavam de uma mesma coisa. É a felicidade pro Aristóteles, felicidade pro Santo Agostinho, a gente fala das diferenças entre essas felicidades e segue a vida…. O problema é que Aristóteles e Santo Agostinho falavam línguas diferentes e usavam nomes diferentes pra se referir àquilo que a gente tenta comparar como felicidade. Será que são comparáveis? Será que, apesar do nome diferente, eles se referiam a uma mesma coisa? 

O que eu proponho é que a diferença de nome que eles dão pra essa coisa não é à toa. Ela é importante de ser considerada.

Por exemplo, sabe aquela coisa que a gente usa pra mexer a seta do computador? Aquela coisa que cabe na palma da mão, as vezes com fio, as vezes sem fio… você mexe essa coisa e a seta na tela do computador mexe junto. Essa coisa, no Brasil, a gente tende a chamar de mouse. Nome inglês. Já em Portugal, mesmo idioma, eles chamam de rato. Obviamente todos esses nomes se referem a um mesmo objeto. Mas, mesmo nesse caso, essa diferença de nomeação indica uma relação diferente do Brasil com o idioma português e com o inglês. Valorizando menos o primeiro e mais o segundo quando comparado com Portugal. Mais ainda, vai indicar uma relação diferente dos brasileiros com a tecnologia, muito mais americanizada.

A nomeação diferente, então, não é à toa.Nomes diferentes, como rato e mouse, têm relação com um determinado contexto, com certa cultura, com hábitos e que tudo isso também interfere no significado do que é dito. Isso não significa que a gente não possa ou consiga comparar Aristóteles com Santo Agostinho. Super dá pra comparar. Mas a gente precisa fazer isso com cuidado. Mais ainda quando o que a gente tenta comparar é uma coisa que não é tão bem definido quanto mouse e rato. Que é o caso da felicidade. Como a gente viu no episódio passado, por mais que parecessem falar de uma mesma coisa, chamar de makar ou eudaimon interferia bastante no que estava sendo dito.

A gente tem que arregaçar a manga e suar pra dar um contorno comum pra fazer essa comparação, pra entender o que aproxima essas palavras distintas que fazem parte do universo da felicidade. 

Vamos fazer uma breve retomada da Grécia Antiga agora. No episódio anterior, a gente falou sobre um universo de 4 palavras que a galera estava usava pra delimita a vida boa, desejável, para aquilo que eles entendiam ser a melhor forma de se viver. O uso dessas palavras variava, mas é possível encontrar uma certa constância. Olbios e Eftýchia eram palavras mais associadas aos bens materiais, à sorte. Olbios era uma característica mais duradoura de alguém (provavelmente por ter uma vida, de forma mais geral, sortuda). Eftýchia era uma característica mais transitória, referência à alguém que tinha acabado de viver um momento afortunado. Você acha uma nota de R$50 reais esquecida no bolso da calça. Eftýchia. Mas sua vida tá uma desgraça, sua vida é um grande e interminável 2020… você definitivamente não é Olbios.

As outras duas palavras são mais importantes pro episódio de hoje. Makar e Eudaimon. As duas eram uma referência mais ampla à uma vida muito boa, que englobavam sorte, mas não se limitavam a ela. Enquanto Makar tinha uma relação mais forte com o divino, e era uma vida avaliada de um ponto de vista emocional; Eudaimon acabou assumindo um sentido um pouco mais concreto, sendo referência a uma vida muito bem vivida a partir de avaliação mais cognitiva/racional da vida. 

PASSAGEM

Mas esse uso de makar e eudaimon diz respeito ao auge da Grécia Antiga. Platão e Aristóteles produziram a filosofia deles e usaram essas palavras em um momento de paz. Paz que acabou na medida em que as cidades gregas (pólis) passaram a guerrear entre si, o Alexandre, o Grande dominou a região e implantou o projeto dele de uma monarquia universalista.

As guerras e invasões trouxeram um momento mais de escassez do que de fartura e, além disso a monarquia universalista acabou com um dos principais motivos de debates entre os filósofos: a política. Pra que discutir se vai ter uma pessoa que vai tomar uma decisão pra toda a pólis? 

Além das guerras, invasões, mortes, escassez, teve uma nova organização política e social…. dá pra imaginar o bafafá que foi e que esse bafafá influenciou bastante a forma de se pensar sobre a vida e a melhor forma de se viver; sobre Eudaimon e Makar.

O Epicuro, que viveu entre 341 a 270 antes de Cristo, é um excelente exemplo dessa mudança. Diferente do Platão e do Aristóteles, que valorizavam a política e tentavam entender qual era a melhor organização pra Grécia, o Epicuro queria mais é saber como ele, individualmente, conseguiria viver bem no meio daquele caos. O Epicuro propôs, então, um tipo de provocação aos deuses. Na Carta a Meneceu (135), ele escreveu…

Abre aspas:

“Pratique essas coisas dia e noite e você nunca será perturbado, durante o dia ou durante o sono, e viverá como um deus entre os homens”.

Fecha aspas.

O Epicuro propôs uma receita de como viver de modo imune ao acaso, à sorte, de modo imune àquilo que não depende da gente. Por isso ele vai tratar bastante da inevitabilidade da morte, do problema de desejar aquilo que não está no nosso controle, entre outras coisas. O resumo do resumo é: você só deve esperar aquilo que está ao seu alcance. Se a morte não é um problema pra você, se você não tem como ser surpreendido (já que não espera por nada fora do seu controle), cara… você vive como um deus.

Nesse contexto é especialmente importante pra gente o uso que o Epicuro faz das palavras makar e eudaimon. Vamos pra outro trecho da Carta a Meneceu (128-129)

Abre aspas:

“Então, dizemos que o prazer é o começo e o fim da vida feliz [makarios], porque reconhecemos o prazer como o primeiro e imediato bem (…)”

Fecha aspas.

Ou então um trecho de outro livro dele, Doutrinas Principais (27). Abre aspas:

“De todas as coisas que a sabedoria provém para a completa felicidade (makariotes) na vida de alguém, de longe a mais importante é a amizade”. 

Fecha aspas.

A gente tem então dois bons exemplos do Epicuro indo na contramão dos Platão e do Aristóteles e usando makar como referência à essa vida incrível, à felicidade. Não que ele seja tão sistemático e preciosista com isso. Algumas vezes a palavra que ele usa é eudaimon. Como no trecho, abre aspas:

“O corpo clama para não sentir fome, não sentir sede, não sentir frio. Qualquer um que sente essas coisas e está confiante a continuar a senti-las, pode disputar a felicidade (eudaimonia) com os deuses.” 

Fecha aspas. 

Mas no fim das contas, o uso de makar acaba sendo mais constante. O Epicuro, portanto, acaba dando um contorno um pouco diferente pra palavra Makar, deixando ela mais terrena, mais possível, mais possível de ser “raptada” dos deuses… e esse sentido vai se fortalecer com os filósofos estóicos romanos.

Bora então falar dessa passagem da felicidade da Grécia pra Roma Antiga.

No meio do caos todo, Roma acabou por dominar toda a região do mediterrâneo e disseminou uma nova forma de viver: mudança de vocabulário, de crenças religiosas, de práticas políticas…. E tudo isso impactou bastante a história da palavra felicidade. Tento que eu vou dividir esse impacto em três blocos: 

  • Primeiro, um bloco pra falar da origem das palavras felix e felicitas. Raízes do português “felicidade”.
  • Segundo, um bloco pra falar sobre a filosofia romana (marcada pelo estoicismo).
  • E, terceiro, um bloco pra falar desse universo de palavras  na religião judaico-cristão.

Parte I – Felix

Vamos começar falando então de félix, adjetivo, e felicitas, substantivo. Originalmente, a palavra félix tinha relação direta com fertilidade (McMahon, 2006, p.67). Uma fertilidade pensada de modo amplo, como fertilidade da terra, fertilidade no sentido de abundância do que comer ou beber e fertilidade também entre pessoas, de terem muitos filhos e cultivarem uma grande família. Numa sociedade agrária, esses eram elementos super importantes pra uma vida completa. Se você tem o que comer, se você tem uma família ampla… é sinal de que as coisas deram certo pra você, que você cultivou bem suas terras, de que você tem saúde pra fazer um monte de filho e alimentá-los. Consequentemente, felix passou a ter sentido também de “afortunado”, “próspero”, “sortudo”. 

Se a fertilidade faz parte da sua vida, meu caro ou minha cara, você tem tudo que precisa pra ter uma vida excelente. Isso se você vivesse na Roma Antiga.

É importante notar que essas prosperidade e fertilidade de félix tinham uma relação bem concreta: diziam sobre a terra e sobre o corpo. Tanto é que um importante símbolo pra se referir a essa prosperidade de félix era a imagem de um pênis ereto. Quando o vulcão Vesúvio entrou em erupção em 79, ele deixou pra trás, petrificado na parede de uma padaria, a imagem de um pênis ereto e o texto “aqui habita a felicidade” (hic habitat felicitas).

Essa relação entre felicidade e pênis me lembra uma história, bastante reproduzida mas não dá pra saber exatamente se é verdadeira sobre o encontro do General-Presidente Francês Charles de Gaulle e sua mulher, Yvonne, com o embaixador americano e sua mulher. O Charles estava pra se aposentar e a mulher do embaixador perguntou pra Yvonne: “O que você mais anseia com a aposentadoria do seu marido?” E eis que ela responde sem titubear: “Ah! Pênis.” Silêncio mortal na mesa de jantar até que o Charles dá uma tossidinha e intervém: “Meu chuchuzinho, acho que a pronúncia correta é Happiness”. (Brown, 1981)

Anedotas à parte, não é estranho pensar que félix era tão importante que ela era adorada como uma Deusa. A deusa Felicitas tinha templos e estátuas e também era estampada em moedas romanas com o escrito “Felicidade dos tempos” ou “Felicidade pública”. Era, na real, um pedido, um desejo por fartura, abundância financeira. Logicamente que essa adoração à deusa Felicitas viria a ser um problema quando a roma se encaminhou para o monoteísmo cristão.

Um outro problema que acabou rolando com as palavras félix e felicitas é que a abundância e a fertilidade associadas a elas foram justificando a busca de prazeres desmedidos nos centros urbanos. O imperador Caio César, mais conhecido como Calígula, por exemplo, era praticante de excessos sexuais, famoso por atacar sexualmente mulheres (ou seja, estupro), famoso por matar sem razão só porque ele estava afim…. Ou então da história, um tanto polêmica, de que o imperador Nero ficou tocando sua lira, admirando o incêndio de roma (gigante, que atingiu ⅔ da cidade). Por fim, rolavam os incentivos políticos aos excessos dos sentidos do pão e circo.. as disputas no coliseu, as corridas de biga e a prática dos vomitórios, pra onde as pessoas iam vomitar durante um banquete pra poder continuar comendo (essa prática dos vomitórios é um tanto polêmica sobre quão comum era, mas, de todo modo, vale a pena considerar). (McMahon, 2006, p. 66).

Bom, essa vida de excessos associada à felix vai ser oposta pela filosofia estóica, a principal e mais influente na Roma Antiga. Não que os filósofos achassem que felix fosse de todo ruim, mas a melhor vida possível pra eles passava longe disso. E por essa razão ia exigir uma nova palavra.

Vamo então pro nosso segundo bloco, sobre os filósofos romanos.

Parte II – filósofos/poeta: beato e beatitude

O Horácio (65 a.C. – 8 a.C), que não foi exatamente um filósofo, mas um poeta, um poeta muito respeitado e entendedor de Aristóteles e Epicuro, dá o tom do problema em relação a felicitas:

Abre aspas: 

“Quanto mais a riqueza cresce, mais a ganância cresce também” (Horácio, Ode III.16)

Fecha aspas.

O Horácio, então se opunha aos excessos de felix e os problemas morais decorrentes, e defendia (como um poeta, de um jeito não sistematizado) a vida tranquila, a vida simples do campo, valorizando que se aproveite o momento (o famoso “carpe diem” dele). Essa vida almejada, por Horácio, não era então uma vida felix, mas uma vida que ele se referia como beata, usando a palavra beatus ou beatitudo. Um exemplo disso aparece no Epodon (2.1).

Abre aspas pro Horácio:

“Alfius chama de beatus aquele velho agricultor que trabalha nos campos de seu pai com seu próprio gado”.

Fecha aspas. Lembrando que essa vida no campo era muito valorizada por ele.

Ou então, o trecho do livro Epístolas (1.6.1-2) que lembra bastante a filosofia epicurista, abre aspas:

“A única coisa que é capaz de fazer e manter um homem beatum, caro Numicius, é: não deixe nada te surpreender.”

Fecha aspas. 

O adjetivo beatus e o substantivo beatitudo derivam do verbo beo que significa “completar”, “satisfazer”, “encher”, no sentido de nada faltar, de uma absoluta plenitude, em que tudo está em seu lugar, perfeito. O adjetivo beatus vai dar o tom, portanto, de uma vida com a mais completa lista de “bens” satisfeita. Isto é, a vida plena e perfeita.

Essa ideia de vida beata que aparece nos poemas do Horácio estava muito em sintonia com o que rolava na filosofia do Cícero e do Sêneca. 

O Cícero é um pouco anterior ao Horácio. Ele viveu de 106 a 43 antes de Cristo, enquanto o Sêneca viveu de 4 antes de Cristo a 65 depois de Cristo.

Cícero era um filósofo-advogado-político, grande estudioso dos filósofos Gregos, viveu em Atenas um tempo, e se tornou muito influente na política romana. E, bem relacionado como era, ele estava antenado que felix não era a melhor palavra pra falar da melhor vida, da vida que deveria ser almejada pelas pessoas. 

Segue um trecho dele que deixa claro esse lugar de excelência da vida beata, abre aspas:

“Ninguém (…) pode ser algumas vezes beatus e outras miserável; aquele que pensa que pode vir a ser miserável,  já  não é beatus; mas, quando pela sabedoria se alcança a vida beata, ela será tão  permanente quanto a própria sabedoria de que é produto (…)”. (CÍCERO, De finibus bonorum et malorum, II, 87)

Fecha aspas. 

Ou ainda, um trecho em que Cícero diz que felicitas é uma coisa boa, mas não, de forma alguma tão boa quanto a perfeita vida beata. Abre aspas:

“Muitos filósofos das mais variadas escolas concordam com os pupilos de Platão e Aristóteles de que a virtude é suficiente para a vida felicitas, quem sabe ainda, suficiente para a vida beata.” (Cicero, Tusculan Disputations, 5.86) 

Fecha aspas.

A vida associada a felicitas era mais simples de se alcançar, agora a vida beata, meu irmão, essa era suada. 

Para o Sêneca a coisa era mais ou menos parecida. Talvez a principal mudança de Cícero para Sêneca é que as palavras Beatus e Beatitudo se tornaram ainda mais importantes, mais centrais e distintas de felicitas, tanto é que Sêneca escreveu um livro chamado “Sobre a Vida Beata”. O Sêneca começa esse livro assim, abre aspas:

“Talvez, não haja nada nesse mundo que seja mais falado e menos compreendido do que a vida beatam. É a vontade de todos os homens e é de sua natureza; e ainda assim nenhum sabe dizer em quê a vida beatam consiste.” (Sêneca, De Vita Beata, p.1)

Fecha aspas.

Ainda, pra ficar bem claro que a palavra felix também era de um segundo escalão pra ele, Sêneca escreveu uma passagem no livro Sobre os Benefícios em que compara Alexandre, o Grande e Hércules. Sêneca não curtia muito o Alexandre, achava ele ganancioso, que ele desejava poder sem fim, mas, convenhamos o cara conquistou um império, construiu uma “razoável” reputação… rolou muita coisa boa na vida dele. Pro Sêneca, o Alexandre era felix. Já o Hércules era um exemplo de ser humano. Protegia as pessoas, fazia coisas boas e não acumulava nada pra ele, generoso, humilde, virtuoso, fortão. O Hércules era uma pessoa muito melhor do que o Alexandre, o Hércules ele era beatus. (Concerning Benefyting 1.13.3 – obs. Não fala que Hercules é Beato )

Pois é… felix na Roma Antiga, não tinha um lugar muito próximo do uso que a gente faz da felicidade hoje e ficou relegada às paredes de algumas padarias. E não era só na filosofia que isso tava rolando. Roma estava passando por uma mudança, lenta é verdade, em que a religião judaico-cristã começava a influenciar cada vez mais a vida social. E isso interferiu bastante nesse percurso da palavra felicidade. Vamos pro terceiro bloco.

Parte III – Religião e os demônios

O papel da religião é importante aqui na nossa história porque ela conecta as palavras gregas, eudaimon e makar com as palavras romanas felix e beatus. Um primeiro passo disso foi por volta do século dois antes de Cristo quando alguns judeus helenizados foram traduzir o velho testamento do hebraico para o grego. Uma das palavras que eles tiveram que traduzir foi asher, que era usada pra fazer referência àqueles que levavam uma vida nos conformes de Deus, que tinham a graça de Deus. Algo do tipo “asher são aqueles que não seguem os conselhos dos maus”. (McMahon, 2006, p.77). E a escolha que eles fizeram, coerente por sinal, foi traduzir asher por makar, que a gente viu que era a palavra grega que tinha uma relação mais próxima com o divino.

Um tempo depois disso, mais para o final do primeiro século, entre os anos 50 e 90 depois de Cristo, começou a circular o Novo Testamento escrito no dialeto κοινή (koinḗ), que era uma forma mais popular do grego antigo. E mais uma vez aparece lá a palavra makar, mais especificamente makarios (μακάριοϛ) pra mencionar a vida feliz, abençoada ou a vida ideal, que era aquela nos conformes religiosos. 

Abre aspas pro Sermão do Monte, no 5o capítulo de Mateus (Mt.5.1-12):

“Makarios os pobres em espírito, que a estes pertence o reino dos céus; Makarios as pessoas que choram, pois Deus as consolará; Makarios as pessoas humildes, pois receberão o que Deus tem prometido.”

Fecha aspas. 

“Ah! Mas, por que não botaram eudaimon aí? Mô trabalho pro Aristóteles escrever sobre eudaimon e os caras simplesmente ignoraram?”

Pois é. Tinha uma outra coisa rolando nessa passagem do velho pro novo testamento que foi importante pra não falarem em eudaimon. Se no Velho Testamento Deus era responsável por tudo de bom e ruim que rolava no mundo, no Novo Testamento Deus era responsável só pelas coisas boas. As coisas ruins ficavam a cargo dos…. demônios.

O termo que usaram no Novo Testamento, nesse grego popular, foi “daimonion”, um diminutivo de “daimon”, o mesmo daimon da eudaimonia aristotélica…. Nos textos do Novo Testamento os “demônios” se referem sempre a seres espirituais ruins que se contrapõem Deus, sendo que Belzebu é o príncipe dos demônios. Não tinha essa coisa de ter bom ou mal demônio. Pro novo testamento todo demônio era ruim. O que era muito diferente do entendimento Grego, mais neutro. Seguem dois exemplos dos demônios no novo testamento. Abre aspas:

“Pois bem, expressando-se verbalmente, o Espírito declara que nos últimos tempos alguns abandonarão a fé, dando atenção a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios” (I Tm.4.1) 

Fecha aspas. Ou então, em referência aos não praticantes da fé cristã, abre aspas:

“Os sacrifícios dos gentios são oferecidos aos demônios e não a Deus, e não quero que tenhais parte com os demônios. ” (I Co.10.19,20)

Fecha aspas.

Dá pra perceber então que rolou uma ruptura com o uso de eudaimon nessa nossa história da palavra felicidade, porque no cristianismo não fazia sentido falar em “Bom Demônio”. E a palavra que acabou se tornando mais influente foi Makar. Ou a sua tradução para o novo testamento em latim, beatus.

Então, tanto os filósofos, poetas quanto os religiosos estavam falando de Makar ou Beatus. Que era a palavra dominante pra se referir à vida completa, à melhor vida possível. Algumas vezes com sentido religioso algumas vezes despida do sentido divino.

Mais pra frente no tempo, pelo século IV, o Santo Agostinho vai ter um papel muito importante pra unificar esse uso filosófico e religioso de beatus. Antes de mais nada: o cara virou santo… logicamente que ele tem mais pé pro religioso do que qualquer coisa. Mas isso não muda o fato da qualidade da construção dele. 

Vamos começar pela importância de Beatus pra ele. Abre aspas:

“beatus é aquele que vê Deus e não deseja outro bem além deste” (Santo Agostinho, De Musica, 1988, p. 204)

Fecha aspas.

Santo Agostinho era santo e também malandro, ele deu uma repaginada na eudaimonia pra não correr risco de alguém perguntar “Beatitudo? Mas e a eudaimonia do Aristóteles?”. Abre aspas: 

“(…) na Grécia Antiga, os beatus eram chamados de eudaimon por terem uma boa alma” (Cidade de Deus, p.365)

Fecha aspas. 

Santo Agostinho operou o milagre de conversão de demônio em alma no caso da eudaimonia aristotélica.

Uma última observação em relação à vida ideal para o Santo Agostinho, à beatitudo dele: Se uma crítica aos filósofos gregos era o elitismo da eudaimonia, que tinha sido diminuída com felix ou mesmo a vida beata dos epicuristas e estóicos, Santo Agostinho conseguiu deixar a vida ideal mais complicada do que nunca. A vida beata de verdade, a beatitudo dependia de conhecer Deus. O problema é que a gente só conhece Deus pra valer depois que morre. Ou seja, Santo Agostinho deixou a felicidade-beatitude tão complicada que ela ficou impossível de ser alcançada em vida. A vida era pra penitência mesmo, pra espiar o pecado de Adão e Eva. A beatitude tinha um pouco de eudaimonia, mas não tinha nada de felix, não tinha nada dos bens terrenos e do corpo.

E essa forma de pensar a felicidade, como beatitude vinculada à religião, foi dominante até pouco tempo depois da virada do primeiro milênio, quando duas coisas começaram a ferver pela Europa. A primeira delas, na versão do sociólogo Domênico de Masi (2003), é que as pessoas achavam que o mundo ia acabar na virada do ano 999 pro ano 1.000. Tipo o bug do milênio original. Então as pessoas estavam mais preocupadas com o pós vida do que melhorar a vida delas aqui na terra. Já que vai tudo se explodir, por que se dar o trabalho, não é mesmo? As invenções e contribuições filosóficas foram mais pontuais, se espalharam pouco. Mas quando a galera percebeu o mundo não tinha acabado e não dava sinais de que ia acabar, começou a crescer uma postura mais curiosa, questionadora em relação às coisas. Tipo, não explodiu, tá uma porcaria mas é o que a gente tem… vamos fazer uma limonada com esse limão. Essa postura tem muito a ver com o que vai rolar no Renascimento.

A outra coisa que sacudiu a forma de pensar a felicidade foi o retorno de Aristóteles. Até então o Aristóteles era só um pouco conhecido e a maior parte das obras dele estavam em grego ou árabe em monastérios. Mas entre os séculos XII e XIII, começaram a se espalhar novas versões em latim com comentários de influentes filósofos judeus e muçulmanos, como Averróis e Maimônides (McMahon, 2006, p.126). E isso foi importante pra popularizar Aristóteles e porque a obra dele era muito sólida, convincente e… não falava nada de Deus… baita problema pra filosofia cristã.

Quem chegou pra tentar salvar a igreja foi o São Tomás de Aquino. Ele tinha duas opções, ou cancelar o Aristóteles ou converter ele. Ele foi pelo segundo caminho. E olha só que massa. Nessa empreitada de chegar em um meio do caminho entre a filosofia cristã e Aristóteles, Tomás de Aquino mudou também o vocabulário. Abre aspas pra ele:

“Aristóteles disse que a última felicitatem é a contemplação do objeto mais perfeito de todos, ou seja, contemplação de Deus. Contudo, para além dessa felicitatem tem um outro tipo de felicitas, que nós almejamos no futuro, quando não apenas contemplaremos Deus, mas o veremos como ele é. Esse tipo de beatitudinem está além da natureza de qualquer intelecto.” (São Thomas de Aquino, Summa Theologiae Part 1, Question 62 Obj 3)

Fecha aspas.

O Thomas de Aquino reincorpora a felicitas na filosofia e ela passa a se referir àquela vida ideal pra quem tá vivo. É sobre essa felicidade que Aristóteles tratou. É sobre felicitas que eudaimonia tratava. Logicamente que essa felicitas continuou sendo um segundo escalão quando comparado com o ideal do pós-vida. Aquilo que o Santo Agostinho já falava, da beatitude do pós-vida, continuou sendo o ideal, continuou sendo o melhor a se vislumbrar, mas o nome passou a ser beatitudo perfecta.

Mas apesar do esforço do Thomas de Aquino, ele não foi suficiente pra frear a mudança que estava rolando na Europa e quanto mais se avança no Renascimento, mais a beatitude perde importância no retrato da vida ideal e a felicitas emerge como principal referência. Mais e mais as pessoas passaram a se interessar em discutir o que poderia ser alcançado, vivido em vida. Mais e mais as pessoas deram vazão à curiosidade com o universo (vide as grandes navegações, física, astronomia) e com o ser humano (vide os avanços em anatomia, medicina, biologia).

Filósofos como Lorenzo Valla, Giovanni Pico della Mirandola e Benedictus Morandus enfatizaram cada vez mais os bens terrenos, o prazer, a empreitada em direção à felicidade, sempre usando a palavra felicitas como principal referência. 

Começaram a pipocar vários livros com felicidade no título: De Christiana felicitate, De Viri felicitate, De vitae felicitate, De felicitate humana.

Diferente do que o próprio Santo Agostinho defendeu, de que o ser humano não deveria tentar transformar o mundo ou a si mesmo, as pessoas passaram a tomar o mundo como um projeto, como possível de ser sonhado. Isso fica claro em livros como Utopia, do Thomas Morus, e na volta do termo “felicità pubblica” como ideal político. A felicidade pública, inclusive, se tornou tema de obras de arte.

O Orazio Gentileschi pintou o quadro “la felicità pubblica triunfa sobre os perigos” em 1623; e o Agnolo Bronzino pintou “A alegoria da felicità” em 1564.

Na arte ainda, como um rompimento com o ideal apático dos estóicos ou do ideal ascético cristão, os retratos passaram a mostrar pessoas sorrindo, que era raríssimo até então. A Mona Lisa, do Da Vinci em 1500 e pouco, e o Retrato de um Homem Sorrindo do Antonello da Messina em 1470 são marcos importantes disso.

Pois é. Felix e Felicitate deram uma grande volta e acabaram sendo a principal palavra pra retratar a melhor forma de se viver justamente pela sua relação com o terreno, com o corpo, com o possível. Não que a felicitate renascentista se limitasse a isso, mas era um ponto importante de oposição à vida beatus à beatitudo. 

As traduções latinas do Aristóteles, inclusive, traduziam em geral, eudaimonia por felicitate, conectando essas duas palavras na nossa história. Com isso, então, a gente pode dizer que makar se conectou com beatus, enquanto que eudaimon se conectou com felix.

E olha que incrível, porque eudaimon pro Aristóteles tinha um significado elitista, era pra poucos, mas acabou sendo uma palavra importantíssima pra resgatar felix e disseminar uma ideia de vida ideal muito mais abrangente mas, ao mesmo tempo, muito mais filosófica-intelectual do que aquela felix da Roma Antiga. 

Essa mudança de felix faz sentido se a gente pensar no contexto de quem fala e para quem se fala. Se na Roma Antiga felix tratava de uma vida agrícola, no Renascimento tratava de uma vida nas grandes cidades, pólos culturais e artísticos. Prosperidade, sorte e fertilidade na vida urbana é muito diferente daquela na vida no campo. 

No próximo episódio a gente vai continuar essa história e falar sobre a ideia de a felicidade virar um direito e a chegada do termo bem-estar.

Pra fechar, uma frase do escravo romano Publius Syrius: “ninguém é feliz caso assim não se considere.”

E, como sempre, compartilha comigo suas reflexões e aproveita para deixar seu comentário sobre o episódio no twitter, @lusbricker. Aproveita também pra visitar a página do podcast, avessodafelicidade.com. Lá você vai encontrar sugestões de leituras, a transcrição dos episódios e outras coisas mais.

Espero que tenha gostado e até o próximo episódio.

Referências: 

Brown, G. A. (1981). Happiness. The New Yorker, 22 de junho. https://www.newyorker.com/magazine/1981/06/22/happiness-3De Masi, D. (2003). O futuro do trabalho: fadiga e ócio na sociedade pós-industrial. J. Olympio.

Erkell, H. (1952). Augustus, felicitas, fortuna. Lateinische Wortstudien.

Gloria Novak, M., & Neri, M. L. (1992). Poesia lírica latina. Martins Fontes.

Karol, L. (2016). De Deo Socratis, a demonologia no contexto do Império Greco-Romano. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, Programa de Pós Graduação em Letras Clássicas.

Konstan, D. Epicurean Happiness: A Pig’s Life? Journal of Ancient Philosophy Vol. VI 2012 Issue 1.

Liddell, Scott, Jones Ancient Greek Lexicon (LSJ): https://lsj.gr/wiki/Main_Page

McMahon, D. M. (2006). Felicidade: uma história. São Paulo: Globo.Salema, V. D. A. G. (2013). Análise do Epodo X de Horácio. Principia, (27), 1-11.

Beraldi, A. C. R. (2013). Beatitude e Sabedoria em Agostinho: Estudo sobre as fontes pagãs no De Beata Vita a partir do uso do termo philosophia (Master’s thesis, Universidade Federal do Espírito Santo).

Deixe um comentário