Episódio 7 – História da palavra Felicidade 3 de 3: Direito à felicidade e bem-estar

E aí, pessoal, tudo bem? Eu sou o Luciano Sewaybricker e esse é o canal “Avesso da Felicidade”. Esse é nosso terceiro e último episódio sobre a investigação da palavra felicidade.

Se você chegou até esse ponto, muito provavelmente você é uma pessoa que não só quer ser feliz, mas quer também entender o que é essa coisa que você tanto deseja. Você provavelmente não é aquela pessoa que quando está com fome abre o aplicativo e pede no restaurante de sempre, pela facilidade. Você fica olhando dezenas de restaurantes procurando a resposta pra pergunta: “o que é essa fome que eu sinto?”. Até que você se cansa de procurar e daí pede no restaurante de sempre.

Agora imagina que você, diante da frustração, ao invés de pedir no restaurante de sempre, resolve abrir o seu próprio restaurante. Já que nenhuma opção parece se aproximar da sua fome, você mesmo vai produzir o que você entende ser uma melhor alternativa.

Na história da palavra felicidade é praticamente isso que aconteceu. Com exceção do aplicativo, do restaurante e da fome. O resto é igualzinho.

A história da palavra felicidade é feita de um monte de gente como você. Gente que se perguntou essa mesma coisa: “o que é isso que eu tanto desejo, que me move?”. E enquanto eles buscavam respostas (definições e palavras) à disposição na época, eles também se perguntavam: será que isso é tudo? Será que não é possível ter alguma outra explicação melhor? 

E como a gente foi vendo até o episódio passado, até o renascimento, dependendo do que estava contido nesse “pacote” da melhor forma de se viver, a palavra usada como referência foi mudando. 

  • Os gregos antigos do período clássico fizeram uma separação entre a melhor forma de se viver de um ponto de vista racional e objetivo, eudaimon, da melhor forma de se viver agraciada pelos deuses, makarios. 
  • Na passagem para Roma Antiga, makarios e seu correspondente em latim, beatitudo, se tornaram as principais palavras pra falar dessa vida ideal, seja na perspectiva filosófica, seja na religiosa. 
  • Já felicitas, acabou ficando “guardada” como uma expressão muito concreta, que enfatizava demais os prazeres mundanos. Ela funcionava bem pra vida no campo, mas não era bem vista eticamente pra vida nas cidades romanas. 
  • Mas tudo acabou mudando com o “não fim” do mundo dos anos mil. Continuar vivo, ler traduções latinas de Aristóteles, a baixa na popularidade da igreja… tudo isso iria levar a uma ruptura com o ideal de beatitudo. E que jeito melhor de romper com essa palavra do que resgatar uma que apontaria quase que na direção contrária? 
  • Contra a beatitude do pós vida, a beatitude de estar com Deus, a felicitas da vida terrena, dos prazeres, de estar consigo mesmo e em comunidade. Gostar de viver não era mais um pecado. Viver bem, viver feliz não deveria ser mais para poucos, mas deveria ser possível pra todos. Felicitas inunda a Europa como referência à melhor forma de se viver e se torna também uma espécie de objetivo comunitário a se alcançar.

E daqui pra frente começa o nosso sprint final nessa história, dos 1500 até os anos 2000. Mas, antes de qualquer coisa, tem uma complexidade muito particular sobre a qual a gente precisa falar. 

Se até o renascimento a gente tinha um idioma dominante na produção de conhecimento, a partir daqui isso não vale mais. De 1500 em diante, a gente passa a ter uma infinidade de línguas que vão se somar na história da felicidade e produzir caminhos particulares. O lado positivo, pra ajudar um pouco pelo menos, é que a impressão de livros se torna muito mais comum e, por causa disso, a gente passa a ter um volume muito maior de livros, registros e de traduções do latim felicitas para essas línguas. Fica mais fácil comparar.

Curiosamente, uma característica que parece comum em diferentes traduções de felicidade é a relação com a sorte. E se você se lembrar, esse também é um dos principais significados da palavra felicitas, na Roma Antiga. 

Quem vivesse rodeado de fertilidade, félix, na Roma Antiga poderia ser considerada uma pessoa sortuda. E, apesar das transformações pelas quais a palavra felicitas passou até ganhar proeminência na Europa Renascentista, a relação com a sorte continuava rodeando a ideia da melhor vida possível.

  • Em primeiro lugar, porque ainda que a vida estivesse ficando mais fácil com o desenvolvimento tecnológico e a urbanização, viver ainda tinha sua parcela de “caixinha de surpresas”. Até 1600, um terço da população morria de fome, doença ou guerra. Quase 50% das crianças morriam antes dos 5 anos… Ou seja, se perguntar sobre a felicidade já era um sinal de sorte. De ter ganhado na roleta de quem vive e quem morre.
  • Em segundo lugar, como as pessoas não tinham uma definição precisa sobre o que era felicitas, sentí-la, encontrá-la, se sentir confiante pra dizer pra todo mundo que você tinha encontrado a felicitas era em grande partes o resultado da sorte.

Nesse contexto, então, não parece tão estranho que a sorte também tenha se entrelaçado com outras palavras que se referiam à alguma medida da vida desejável.

No caso do inglês “happiness” o ponto de partida pra gente é a palavrahap”, que tem raiz no Old Norse, uma língua que o pessoal que habitava a região da escandinávia falava e que foram disseminando pelo norte da Europa entre os séculos 7 e 15. Existe registro da palavra Hap sendo utilizada como acaso, sorte, chance, já em 1200. Aos poucos ela foi deixando de se referir a um evento pontual e se aproximando do uso contemporâneo de Happiness. Ou seja, não só como sorte, mas como uma referência a um aspecto da vida especialmente bom. Em 1500 essa transformação de Hap em Happiness já era razoavelmente disseminada, a diferença  pro uso mais contemporâneo é que tinham algumas grafias diferentes, como Happinesse, com um “e” no final, ou Happyness com um “y” no lugar do “i”. Além de Happiness, a palavra Felicity, uma tradução direta do latim, se tornou comum também depois de 1500 e foi sendo utilizada como um sinônimo de happiness.

No francês, a raiz de “bonheur” vem do latim augur. Augur era uma referência às previsões feitas pelos augures – uma galera que previa o futuro pelo comportamento dos animais, voo dos pássaros, canto dos pássaros, se o cachorro tinha roubado o chinelo e por aí vai. Augur, no francês, virou “euro” (heur), que, por volta de 1200, era a palavra utilizada pra se referir à sorte. Parecido com o que aconteceu com o inglês Hap, o francês “heur” foi sendo utilizado mais no sentido positivo do que neutro, mais no sentido de boa sorte do que uma sorte que podia ser boa ou ruim, e também sendo utilizada cada vez como uma característica especialmente desejável da vida. Nesse processo, a palavra “bonheur” (ou boa sorte) acabou se tornando mais representativa e, consequentemente, comum.

Além disso, como no caso de felicity, uma transposição do latim felicitas também passou a ser utilizada por volta de 1500, félicité. 

Se a gente pensar bem, essa inclusão de felicity, no inglês, e félicité, no francês, ajudam a entender a sutileza dessa história das palavras. Tanto no inglês como no francês existia uma palavra com sentido de sorte que estava sendo utilizada pra se referir à melhor vida possível. Essas palavras, happiness e bonheur, já tinham uma história, já eram familiares na época que um mundaréu de livros, pinturas, músicas começaram a tratar da palavra latina felicitas. Raiz também relativa à sorte, mas com uma história diferente de happiness e bonheur, menos familiar, mais erudita.

Por essa razão, faz sentido pensar que em 1500 surjam esses derivados de felicitas, mas que, dada a raiz semelhante, logo acabam sendo tratadas como sinônimas. 

Bom, chega de etimologia e vamos tentar retomar o percurso histórico. Eu digo “tentar” porque a gente passa a ter uma mistureba de locais e contextos sociais, políticos tudo rolando ao mesmo tempo e influenciando a palavra felicidade. 

Nosso primeira parada é a reforma protestante. Não se você lembra direito do que trata, então aqui vai um resumo de 10 segundos: rola uma cisão dentro da Igreja especialmente contra a venda (por dinheiro mesmo) da salvação, que eram as indulgências. Com isso uns padres (em especial o alemão Martinho Lutero e o francês João Calvino) passam a reinterpretar a bíblia e começam a defender uma Igreja mais sintonizada com o humor humanista-renascentista. E pra variar, a felicidade ganha uma cara diferente.

O historiador Darrin McMahon (2006, p.172), sintetiza bem essa mudança de humor.

Abre aspas:

“Por que Deus não teria a intenção de que fossemos feliz(es)? Se é essa mesma a intenção, que melhor jeito de serví-lo do que viver como ele intencionou? Para criaturas imperfeitas, que pecam essa não seria uma tarefa qualquer. Mas com a ajuda da graça divina, a felicidade poderia ser alcançada. Celebrar é fazer chacota do diabo. A miséria e a melancolia eram evidência da distância de Deus.”

Fecha aspas.

Diferente do São Tomás de Aquino, que dizia que a felicidade era uma versão imperfeita de estar com Deus, no Protestantismo a felicidade poderia ser vivida aqui e também no pós-vida. Como Lutero escreveu em 1530 no livro “Catecismo Maior” (4o commendment), abre aspas:

“aceitando a sabedoria divina nós aprendemos como obter abundância de alegria, felicidade (glück) e salvação, tanto aqui como na eternidade”. 

Fecha aspas. 

Nessa frase o Lutero utiliza a palavra alemã “Glück”, que significava e ainda significa tanto sorte como felicidade. Ou então, um pouco mais na frente no tempo, em 1642, na pregação do teólogo inglês Richard Holdsworth (1642, 2, p.5-6), abre aspas:

“Happinesse é a linguagem de todos” (…) “Devemos olhar através de todas as coisas para a happinesse e através da happinesse para todas as coisas”.

Fecha aspas.

O protestantismo então igualou a felicidade divina com a felicidade terrena, não haveria uma mais perfeita do que a outra. Mas é importante notar que essa emergência da felicidade na Europa de 1500, 1600, depositava uma importância grande na virtude aristotélica, no bem comunitário, na ética religiosa. E por mais que se falasse do terreno, do corpo e dos prazeres, esses deveriam ser moderados. Inclusive, a ênfase excessiva nos prazeres é retratada negativamente no senso comum, como aparece na peça Macbeth, do Shakespeare, encenada pela primeira vez em 1606. Nessa peça se usa o adjetivo “epicure”, referência ao Epicuro, mas com sentido pejorativo de quem foca excessivamente nos prazeres.

Maravilha. Felicitas, Happiness, Glück, Bonheur estavam já bem difundidas para se referir à melhor forma de se viver e apontar para a direção que as pessoas e as comunidades deveriam apontar. A reflexão sobre a felicidade e o desejo de ser mais feliz já estavam legitimados, inclusive, pela igreja (protestante no caso). Mas o que significava essa felicidade ainda estava pouco claro. 

E é sobre esse desejo de clareza, não só sobre felicidade, mas também sobre o mundo, sobre o conhecimento, que começa a rolar a sistematização do método científico. Lembrando que três importantes personagens pra ciência, o Galileu, o Descartes e o Newton, viveram entre 1550 e 1700

Nesse período começou a rolar uma empolgação: se a gente consegue prever com grande precisão fenômenos naturais, por que não prever a felicidade? Por que não desvendar a felicidade tal qual a gravidade foi desvendada?

O resultado dessa empolgação vai ser a filosofia utilitarista e o projeto de uma política da felicidade e que tem sua primeira versão na filosofia do John Locke. O Locke é importante porque ele torna aceitável a ênfase nos prazeres: aquilo que pode ser precisamente discutido em relação à felicidade é o prazer, mas sem se desamarrar da religião e da virtude. 

O principal trabalho do Locke em que ele fala sobre felicidade é o “Ensaio acerca do entendimento humano”, de 1689. Nele, o Locke vai escrever que aquilo que causa prazer é o que a gente chama de bem e que causa sofrimento, a gente chama de mal. Sendo happiness a maior quantidade de prazeres que a gente é capaz de sentir e imaginar. 

Mas, óbviamente, ele faz uma ressalva contra os excessos dos prazeres (1658, p.269-270), abre aspas:

“Se não houver nenhuma perspectiva para depois da morte, a inferência é certamente correta. Vamos comer e beber, e desfrutar dos prazeres, porque amanhã estaremos mortos.”

Fecha aspas.

Ou seja, pro Locke, o que vai dar um norte ético e levar as pessoas a evitarem os prazeres desvairados vai ser a ética religiosa, a expectativa de haver uma vida após a morte. Já que muitas coisas diferentes geram prazer, há uma pluralidade de caminhos para a felicidade, mas a religião vai garantir que nem todos os caminhos tenham o mesmo valor.

Um último ponto super importante da obra do Locke é o uso que ele faz da expressão “pursuit of happiness”, perseguir a felicidade. E essa expressão é importante, não só porque vai ser imortalizada na Declaração da Independência Americana, mas porque prepara o terreno pra cisão entre felicidade e o divino. O John Locke levantou a bola pra quem viesse depois dele cortar.

A palavra “pursuit”, perseguir em inglês, tem um sentido negativo. Significa ir atrás de algo de forma violenta, agressiva. Sabe aquela pessoa pela qual você tem uma queda? Então, se você perseguir ela provavelmente você vai ganhar um Boletim de Ocorrência, uma medida protetiva…

Mas nesse caso, a “perseguição” agressiva da felicidade dá o tom do movimento iluminista: é o desejo de agarrar o touro pelo chifre. Quer dizer, agarrar a natureza pelo chifre, dominar a natureza, não dar margem para o acaso, não importa quão difícil seja. Saca só a poesia do William Woodsworth, de 1791.

Abre aspas:

Não em Utopias, – terras subterrâneas, –

Ou uma ilha secreta que o Céu conhece!

Mas nesse próprio mundo, que é o mundo

De todos nós, – o lugar onde, no fim das contas,

Vamos encontrar a felicidade, ou então não encontraremos nada!

Fecha aspas.

Com o movimento iluminista a questão em relação à felicidade se torna explicitamente “como podemos ser mais felizes?” (McMahon, 2006, p.209) e a via para respondê-la é o método científico. O que se entende por felicidade continua parecido com o que Locke propôs, principalmente pros utilitaristas, que vão influenciar bastante a filosofia e a política da época.  Jeremy Bentham, Francis Hutcheson, Benjamin Franklin, John Stuart Mill, todos importantes utilitaristas, vão propor, como Locke, que felicidade é o resultado de sentir muito prazer e sofrer pouco. Mas tem uma diferença importante entre Locke e essa galera. Pro Locke, se eu tivesse que escolher entre gastar 10 reais pra comprar um pedaço de bolo ou doar esses 10 reais para alguém que me pede na rua, a decisão seria tomada com base na ética religiosa. Ou seja, eu deveria pensar no pós-vida e em Deus pra guiar minhas ações. Já os utilitaristas tinham uma outra bússola ética. Segue um trecho de 1725 do Francis Hutcheson, abre aspas:

“A melhor ação é aquela que resulta na maior felicidade para o maior número de pessoas; e a pior, aquela que produz, à mesma maneira, a maior miséria”.

Fecha aspas.

O Jeremy Bentham vai chamar essa ideia de “princípio da utilidade”. A melhor decisão sempre vai ser aquela que produza maior quantidade de prazer e menor de sofrimento. Simples assim. Nada de Deus ou pós-vida. Bentham vai defender também que se um governo atuasse segundo esse princípio, teríamos finalmente uma sociedade operando como uma “fabric of felicity”, “fábrica de felicidade”.

O movimento utilitarista então, cortou a bola levantada pelo Locke e, confiantes que eram na capacidade de investigação científica da época, tiraram Deus da equação da felicidade. Logicamente que isso gerou alguns problemas. Deus funciona muito bem pra encerrar discussões, o famoso “porque Deus quis” ou pra educar crianças muito curiosas e agitadas, que não deixam os pais assistirem todos os 3 episódios de Senhor dos Anéis em sequência: “se você não se comportar, Deus vai te castigar…”.

Sem poderem se valer de nenhuma dessas estratégias, os utilitaristas precisavam definir não só um novo norte ético, mas também como eles comparariam os prazeres. Pra eu decidir se compro minha fatia de bolo ou se dou meu dinheiro pra pessoa que me pediu, eu preciso, primeiro, entender quanto de prazer e sofrimento cada uma dessas ações me causa.

Os utilitaristas bem que tentaram comparar, calcular, mas passaram longe de qualquer resultado minimamente útil. E se a precisão não parecia possível, só restava uma outra solução possível e bem polêmica: a melhor forma de viver vai ser aquela que maximiza os prazeres pessoais.  

Lembrando a frase do próprio Locke, se não há uma perspectiva de reino de Deus pra onde ir depois de morrer, se for só essa vida mesmo, por que alguém não se jogaria em busca de prazeres sem fim?

Foi isso que fizeram alguns filósofos barra provocadores barra bon vivants, os mais famosos deles Julien Offray de la Mettrie e o Marquês de Sade. Talvez o fato de serem ambos franceses tenha um significado importante, não sei… Bom, tanto o de la Mettrie quanto o Marquês de Sade valorizavam os prazeres, entendiam que a felicidade, no caso bonheur, era o resultado de muito prazer. E todos que propusessem algo contra os prazeres, como os religiosos, os moralistas, os estóicos, seriam inimigos dos seres humanos. Não dava pra ameaçar nenhum dos dois dizendo que Deus os castigaria…

E tinha uma lógica no que de la Mettrie e Sade estavam defendendo. Por que não levar a felicidade dos prazeres ao extremo? Se não dá pra comparar entre pessoas, só resta aquilo que o corpo indica. 

Mas, obviamente, que essa postura era conflituosa na dimensão social e política. Se todo mundo se guiasse por essa lógica, viraria uma bagunça. Algum tipo de consideração precisava ser feita…. Mas qual consideração? Eis o grande problema.

De la Mettrie morreu jovem, com 41 anos, reza a lenda como consequência de ter comido exageradamente patê de fígado de ganso. O que, se verdade, é irônico, porque os gansos são alimentados exageradamente até morrerem pra fazer esses patês, o foie gras. O Marquês de Sade, por outro lado, se não morreu jovem (ele tinha 74 anos), passou um bom tempo na prisão, cheio de idas e vindas. Coisa de gente muito rica que apronta, mas que consegue um habeas corpus, sabe?

Bom, se essa felicidade baseada nos prazeres não encontrava mais seu limite em Deus, que não combinava com a racionalidade iluminista, se não encontrava seu limite na comparação entre pessoas, pra ver qual prazer valia mais do que outros, e, ao mesmo tempo, também não funcionava sem nenhum limite, como foi a afronta do de la Mettrie e do Marquês de Sade, alguma solução ainda era necessária. 

A história do Marquês de Sade ensina uma coisa bem importante pra gente nesse sentido. O pensamento dele era mais ou menos assim: se eu sinto prazer em jogar uma pedra na janela do meu vizinho, é porque essa ação é boa. Então vou jogar pedra todo dia. Até aí não há nenhum problema no raciocínio numa perspectiva utilitarista. Mas logicamente que o vizinho vai ficar puto e jogar a pedra de volta em mim. A pedrada que eu levo me causa sofrimento e decido parar de jogar pedra na janela do vizinho. Mas e quando aquilo que eu faço não ofender diretamente ninguém? Dirigir acima da velocidade permitida, apostar no jogo do bicho, assaltar um caixa automático na calada da noite… nesses casos o limite viria das leis e da penalidade por descumpri-las. 

Nesse caso, a declaração da independência dos EUA em 1776 e a Revolução Francesa entre 1789 e 1800 são emblemáticas. Se na discussão da época se entendia que a felicidade, seja ela happiness, bonheur, glück, era aquilo que todo ser humano almeja, nada mais justo do que os governos se nortearem por isso. Felicidade passa a ser tratada como um elemento central da política, como um direito. E, ao tratar da felicidade no interior de constituições, leis e objetivos políticos, ela vai ser moldada: o que escapa ao instituído pelos governos não é felicidade.

A principal menção à felicidade na Declaração da Independência dos EUA é clássica no estudo da felicidade. Abre aspas:

“Nós tomamos essas verdades como auto-evidentes: que todos os homens foram criados iguais e que eles são dotados pelo criador de direitos inalienáveis; entre eles estão o direito à vida, à liberdade e à perseguir a felicidade (pursuit of happiness).”

Fecha aspas.

A expressão “pursuit of happiness” é tomada emprestada do Locke pelos “pais fundadores” e ela é bem importante. Em primeiro lugar, vale reforçar que a palavra “perseguir” reforça o desejo de dominação da natureza, da natureza humana no caso, e a pretensão de que os segredos mais profundos vão ser desvendados. Em segundo lugar, eles podiam ter escrito que o direito inalienável era à felicidade ao invés de  à perseguir a felicidade. Mas, caso assim fosse, eles estariam lascados. Iam ter que garantir a felicidade dos Marquês de Sade e de la Mettrie Estados Unidos afora. E eles valorizavam muito as virtudes, como deixou claro o Benjamin Franklin quando afirmou que “virtude e felicidade são mãe e filha” (1746, p.1238). Eles não queriam promover qualquer felicidade…

Os pais fundadores poderiam não ter escrito nada sobre felicidade e deixar só “à vida e à liberdade”, mas daí eles perderiam a chance de indicar que o objetivo do governo deveria estar em sintonia com o objetivo individual, o objetivo de todos os seres humanos: a felicidade. Não trata só de respeitar a individualidade e proteger a vida, mas de garantir que a vida seja vivida da melhor maneira possível.

“Perseguir” então seria um direito. Não que todo mundo conseguiria concretizar o objetivo da perseguição e nem todo mundo receberia apoio nessa perseguição (pelo contrário, alguns seriam constrangidos). Mas diante do caráter indecifrável da felicidade, fica a dúvida quanto ao não-apoio: será que o governo que falharia ao não apoiar certas perseguições à felicidades ou será que as perseguições que não fossem apoiadas, na verdade, não seriam perseguições à felicidade, mas perseguições à alguma outra coisa menos nobre?

A política em torno da felicidade passa também a influenciar seu significado, moldando, junto com os filósofos e os artistas o percurso dessa palavra.

Já a Revolução Francesa tem uma base filosófica bem diferente da da Declaração da Independência dos Estados Unidos. Muito menos utilitaristas e individualista, e bem mais aristotélica e coletivista. Lequino, um dos importantes mobilizadores da Revolução Francesa escreveu, abre aspas:

“Felicidade (bonheur) não consiste nos prazeres pessoais… só em sociedade pode o ser humano ser verdadeiramente feliz (hereux), pois é assim que ele pode satisfazer todas as suas necessidades e superar todos os obstáculos por via das artes e das ciências; pois é assim que ele pode desenvolver todos os gostos que o coração humano possa desejar.”

Fecha aspas.

Mesmo separada do utilitarismo, a felicidade defendida por Lequino é a finalidade do governo que emerge com a Revolução Francesa. No preâmbulo da declaração que é redigida em 1789, está lá, “au bonheur de tous”, à felicidade de todos. E, na constituição de 1793, “o objetivo da sociedade é a felicidade (bonheur) comum”.

Os governos, americano e francês, no caso, iriam garantir, pois está na constituição, que os cidadãos se aproximariam cada vez mais da felicidade: é pra isso que existiria um governo. 

Eu fico imaginando a cena em que um líder político americano ou francês dizendo isso pra um mar de gente e todo mundo vai a loucura! Se abraçam, comemoram… “a felicidade está logo ali, só virar a esquina”!

Mas e se as pessoas não perceberem uma mudança substancial com essa revolução da felicidade na política? E se a felicidade não der sinais que chegou? 

As críticas a esse processo todo não eram raras. O Kant, no meio dessas revoluções, escreveu em 1785 que ser feliz seria completamente diferente de ser bom e por isso os governos não deveriam tomar a felicidade como objeto. Ou mesmo os próprios utilitaristas, como Bentham e John Stuart Mill. O primeiro estava desiludido com a possibilidade de quantificar e comparar felicidades. O segundo estava desiludido com a própria tentativa de desvendar a felicidade. Abra aspas:

“Só são felizes aqueles que têm suas mentes fixadas em algum objeto que não a própria felicidade… se pergunte se você é feliz e você logo deixará de ser”. (Mill, 1883)

Fecha aspas.

Além disso, a decepção com o projeto de felicidade acabou levando ao movimento artístico, político, filosófico do Romantismo, famoso pelo seu pessimismo. Na falta da felicidade, essa galera começou a falar mais da ausência da felicidade e, inclusive, a valorizar essa ausência. O que pode parecer um paradoxo. O Sofrimento do Jovem Werther, escrito por Goethe em 1774, era uma ode ao sofrimento, como se fosse a consequência de um olhar mais fiel do mundo, sem distorções. A felicidade seria apenas resultado de distorções, seria uma ilusão. 

Isso me lembra uma cena do filme Annie Hall do Woody Allen. O Woody Allen fazendo o papel dele mesmo se aproxima de um casal e pergunta: “vocês aí, acho que vocês podem me ajudar. Vocês parecem felizes. Qual é o segredo de vocês” Daí eles respondem “nós somos vazios e superficiais”.

A felicidade do iluminismo era vista como rasa, superficial pelos românticos. 

Mas logicamente que em meio à ode ao sofrimento alguma coisa precisava ser desejada pelas pessoas, nem que fosse a própria fossa. Qual seria então o resultado desse ideal da profundeza romântica se não a felicidade?

A resposta a que eles chegam é a alegria (em inglês, joy, e em alemão, freude). Como o poema do Friedrich Schiller de 1785 e a 9a sinfonia de Beethoven, Ode à alegria, a palavra se torna a referência à melhor vida possível. 

Diferente do tratamento dado à felicidade na época, a alegria se referia à uma sensação passageira, efêmera, que pros românticos era uma visão mais realista do que se desejar um estado de plenitude contínua.

Ainda, diferente do prazer, a alegria era intelectual antes de ser física. A alegria era uma sensação transitória resultante da conduta virtuosa, ética. A alegria, portanto, se diferenciava da felicidade da época por ser menos idealizada, menos projetada e ser mais introspectiva. O olhar sincero em relação à si, por pior que você estivesse, possibilitaria a alegria. A alegria em nada se relacionaria com a sorte.

É importante notar que a emergência da palavra “alegria” no Romantismo foi uma resposta à distância percebida entre a vida vivida e o que era referido como felicidade, à promessa da felicidade. “Já que isso que está sendo prometido não chega nunca e não parece que vai chegar, vamos falar do que a gente tem aqui, do que está disponível e é possível”. De certa forma esse raciocínio é parecido com o que vai rolar na aproximação científica, anos depois com a felicidade e a emergência da palavra bem-estar.

Instaurada a ideia da felicidade como um direito e depois da decepção romântica, a palavra felicidade acabou ficando meio de lado no circuito acadêmico. Ela acabou se tornando muito mais pertencente ao senso comum, à conversa das pessoas em geral, do que um objeto de reflexão de pensadores. Não que nada tenha sido dito sobre ela, mas em geral, não era nada especialmente novo.

O sociólogo Max Weber propôs, por exemplo, que a gente deveria renunciar a felicidade (glücksfuhl) como objetivo dos governos e o Sigmund Freud escreveu que a felicidade nunca seria realizada. Ela era só um reflexo, uma marca deixada pela vivência de plenitude na tenra infância. Depois disso seria só desastre. 

Seguindo nosso percurso histórico, então, a gente começa a ter já no século XX uma aproximação tímida e gradual da ciência com o tema felicidade via palavras ou conceitos “irmãos”digamos assim, como bem-estar, satisfação, contentamento, qualidade de vida, e, por vezes, até mesmo felicidade, mas nunca de forma bem definida. Essa aproximação foi se tornando cada vez mais comum nas pesquisas sociológicas (seja na avaliação de uma cidade, um estado ou um país).

Mas é curioso que todas as tentativas de elaboração desses temas, sempre esbarraram na complexidade histórica da felicidade (no debate dos gregos, nos limites do utilitarismo e por aí vai). Então havia um obstáculo bem claro e aparentemente intransponível.

Já pelas décadas de 70-80, a ciência estava muito mais evoluída em termos de técnicas e instrumentos, e a Psicologia, enquanto ciência da subjetividade humana, estava amadurecida. Como ela poderia, de uma vez por todas, resolver esse problema da felicidade ou, melhor, da história da felicidade?

A solução, então, foi parecida com a dos filósofos românticos: vamos mudar a palavra pra se referir a uma coisa mais possível, mais tangível. Ed Diener, importante psicólogo e referido como pioneiro no estudo do Bem-Estar Subjetivo escreveu. 

Abre aspas:

“Infelizmente, termos como felicidade, que têm sido usados frequentemente nos discursos cotidianos, vão ter significado nebuloso e muitas vezes conflitantes”.

Fecha aspas. 

Anos depois, a Sonya Lyubomirsky (2008, p.316) escreveu sobre essa inauguração do conceito de Bem-Estar Subjetivo pelo Ed Diener, abre aspas:

“Ed Diener, o mais importante e mais reproduzido pesquisador do campo do Bem-Estar Subjetivo, me contou certa vez que ele criou o termo Bem-Estar Subjetivo porque ele achou que não teria credibilidade ou seria promovido se sua pesquisa fosse percebida como tratando de algo tão sem forma e vago quando “felicidade”.”

Fecha aspas.

Mas se essa transposição da palavra Felicidade pra expressão Bem-Estar Subjetivo é questionável, tem um ponto que o Ed Diener acertou em cheio. A palavra Bem-Estar, diferente de Felicidade, se refere muito mais especificamente à uma sensação. Isso é parecido com o que os românticos conseguiram ao utilizar a palavra Alegria. Se, por sua vez, felicidade pode ser um objetivo, uma sensação passageira, um estado permanente, pode ser só intelectual, pode ser perseguida individualmente ou coletivamente… o bem-estar é uma sensação individual e ponto final. 

Muito mais fácil de medir e comparar. 

Na verdade, por um caminho não acadêmico, a própria palavra felicidade já vinha sendo reforçada no sentido de sensações. Isso é observável na aproximação entre publicidade e felicidade desde o início do século XX e na apresentação do verbete “felicidade” em dicionários americanos por volta de 1950.

A dúvida que fica no ar é: será que a Psicologia Positiva está sendo visionária e acelerando um processo natural de transformação da felicidade? Será que eles estão mais confundindo do que qualquer outra coisa ao defender uma palavra que tem significado muito próximo do de felicidade?

O psicólogo neo-utilitarista Ruut Veenhoven, contemporâneo do Ed Diener e muito influente até hoje, é à favor de continuar usando a palavra felicidade. Pro Veenhoven, a necessidade de uma nova palavra surgiu pelo fato de os pesquisadores confundirem a felicidade com as condições para a felicidade. Ou seja, pra ele, felicidade deve ser tratada, na ciência, apenas na medida em que é sentida pontualmente (tal qual a alegria e o bem-estar) e não por aquelas coisas que levam ou causam a felicidade (como a sorte, o amizade, a graça divina etc).

Acho que dá pra dizer que estamos vivendo, em tempo real, uma mudança importante da felicidade nessa tensão entre ela e a palavra bem-estar. É possível inclusive encontrar, tradutores propondo que a palavra eudaimonia usada por Aristóteles seria melhor traduzida por bem-estar (como no caso do Harris Rackham) ou florescer (como no caso do Cornelis de Heer), indicando também o papel importante dessa última, florescer, que é bastante utilizada na Psicologia Positiva atualmente.  

Lembrando do trecho do Mikhail Bakhtin, filósofo russo, que li no primeiro desses três episódios sobre a palavra. Abre aspas:

“A palavra é capaz de registrar as fases transitórias mais íntimas, mais efêmeras das mudanças sociais”  (Bakhtin, 2004, p. 41 – edições minhas)

Fecha aspas.

O que será que essa mudança da palavra felicidade diz sobre o mundo contemporâneo? Será que vivemos, na palavra, a ênfase contemporânea no efêmero, a ênfase na busca individual ao prazer? Ou então, será que a ênfase no aspecto mensurável e observável da felicidade não indica também o descaso com a história e o conhecimento? 

Espero que tenha ficado claro, ao longo desses três episódios, que falar em felicidade implica, necessariamente, em resgatar toda essa história maluca da palavra, das muitas idas e vindas. Falar em felicidade significa falar, ao mesmo tempo de makarios, eudaimon, felicitas, beatitudo, felicity, happiness, tudo junto e misturado. Essas palavras estão conectadas.

Não faz sentido, por exemplo, tratar a felicidade somente pela etimologia, achando que ela tem relação apenas com sorte e fertilidade. Esse é um pedaço pequeno dela. A mesma coisa vale para aquilo que um filósofo, político ou pesquisador propõe ser a felicidade. Cada um apresenta aquilo que entende ser a felicidade, ou a melhor forma de se viver, sempre em um determinado contexto e fazendo uso de palavras que exigem a referência com a história. Falar em bem-estar hoje, só é possível porque há uma história da palavra bem-estar e porque há uma história da palavra felicidade que serve de oposição.

De todo o modo a gente precisa dessa história, mesmo que seja pra se opor a ela. Por isso que eu acho que a história da felicidade e o debate sobre ela valem mais do que a sua mensuração, no sentido que só faz sentido mensurar se houver profundidade naquilo que se mede. Me dá trimilique quando se simplifica a felicidade, porque, no fundo no fundo, significa simplificar aquilo que a gente entende ser a melhor forma de se viver, significa também cristalizar a melhor forma de se viver em uma das milhares de respostas possíveis. A gente simplifica e cristaliza aquilo que a gente acredita que pode ser a nossa vida.

Espero que você tenha gostado dessa sequência de episódios sobre a palavra felicidade. Nos próximos a gente vai se debruçar sobre a ciência da felicidade.

Pra fechar o episódio de hoje, uma frase da Marquise du Chatelet, no livro “Discurso sobre a felicidade” (discours sur le bonheur):

“pra ser feliz, é preciso ser suscetível a ilusões, pois é nas ilusões que encontramos a maioria de nossos prazeres. A infelicidade é própria de alguém que já não se rende às ilusões.” (1997, p.32)

E, como sempre, dá um pulo na página do podcast, avessodafelicidade.com. Lá você vai encontrar o contato pras minhas redes sociais, sugestões de leituras, a transcrição dos episódios e outras coisas mais.

Até o próximo episódio.

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