Eu tentei com todas as forças terminar o bloco de episódios sobre a palavra “felicidade”, mas não consegui. Foi mais forte do que eu. Me entreguei a essa força e resolvi fazer esse adendo, primeiro porque fiquei com a sensação de ter amarrado com muita pressa a ideia de felicidade como um direito e o uso que fazemos hoje em dia da palavra (bom, era isso ou gravar um episódio de uma hora). E em segundo lugar porque um dos ouvintes do canal me mandou o áudio de um grego pronunciando as palavras que o Aristóteles, Platão e outros camaradas da Grécia Antiga usavam! O que seria de mim sem vocês? Sem a rede de contatos internacional chiquérrima de vocês? Ia me restar o Google Tradutor… que tenho que confessar que me decepcionou. Eu bem que tinha achado aquele grego arcaico meio italiano demais.
Vamos lá então, o que eu estava falando Eudaimon, Makar, Eftýchia, Olbios se fala, segundo nosso grego original: “Evdêmon, Mákar, Eftixia, Ólbios”. Vivendo e aprendendo. O desafio vai ser eu conseguir parar de pronunciar errado daqui pra frente.
Vamos agora pras pontas soltas no fechamento do último episódio. Eu senti que acabei não dando muita atenção às transformações mais sutis pelas quais a palavra felicidade passou ao longo dos últimos 150 anos. Na verdade, eu quero dar mais atenção especificamente pra palavra inglesa Happiness, porque é ela acaba sendo a principal referência pra pesquisa científica hoje em dia e é ela que acabou influenciando mais decisivamente outras palavras como o português felicidade.
A linguista polonesa Anna Wierzbicka (2004) tem um trabalho muito bonito sobre emoções e escreveu um pouco sobre a felicidade. Ela notou uma mudança recente, justamente nos últimos 150 anos mais ou menos, no uso das palavras inglesas Happiness e Happy. Pra ela, até os 1800, até a declaração da independência dos EUA, as duas palavras eram utilizadas como algo raro, incomum, que só poucos conseguiriam alcançar. Poucos viveriam a felicidade e poucos se sentiriam verdadeiramente felizes. Isso não era muito diferente do que Platão achava, por exemplo, já que pra ele, só Sócrates havia sido Evdêmon.
Felicidade até por volta de 1800 era raro porque era a expressão de um ideal, filosófico, religioso.. E na declaração da independência se torna um ideal político-social: era o que o Governo dos Estados Unidos almejaria para todos os cidadãos e deixava registrado na declaração. Mas, esse ideal político não seria resultado do acaso, mas resultado da realização de um projeto… o projeto iluminista, o projeto moderno, o projeto de disseminação da ciência. Uma sociedade guiada pela ciência poderia desvendar todo e qualquer mistério.
No caso do mistério da felicidade, isso envolvia 4 pontos:
- Compreender que a felicidade é o maior bem que alguém pode desejar.
- A felicidade é comum a todas as pessoas (há uma universalidade da felicidade).
- É possível medir e se aproximar gradativamente da verdade sobre a felicidade.
- É possível produzir felicidade.
E esse projeto de felicidade vai ter na sensação, no adjetivo “feliz” a sua unidade básica, a sua unidade de medida. A lógica passou a ser mais ou menos a seguinte, quanto mais vezes e mais intensamente feliz, mais completa a felicidade. A dimensão da sensação da felicidade, ou seja, o se perceber feliz, se tornou central. Tanto é que ela que foi explorada intensamente pelo Marquês de Sade, por outros hedonistas extremos e também pelos utilitaristas. Era o se perceber, se sentir feliz que era verificável, era mensurável e parecia mais comparável entre pessoas diferentes.
Com isso foi rolando, então, um distanciamento entre o substantivo Happiness e o adjetivo Happy conforme a Anna Wierzbicka mencionou. Happiness continuou sendo tratada como uma utopia, um ideal, algo intangível, enquanto que Happy foi sendo utilizada como algo cada vez mais ordinário, comum, verificável.
Nos Estados Unidos foi se tornando comum usar a palavra Happy em frases muito corriqueiras, banais como “Estou feliz com meu colchão novo; estou feliz que não choveu; estou feliz com minha conta de luz”. No Brasil a gente até usa feliz com esse sentido ordinário, mas é mais raro.
Abre aspas pra Anna Wierzb icka (2004, p.XX):
“Happy não é somente muito mais frequentemente utilizada do que outras emoções como triste (quase 3 vezes mais) e alegre (36 vezes mais), mas também muito mais frequentemente do que os franceses usam a palavra correspondente, hereux [oe·roe] (quase 2,5 mais).”
Fecha aspas.
Ou seja, é um processo particular da palavra “happy”.
Essa mudança também aparece no estudo liderado pelo Shigehiro Oishi (2013) da Universidade de Virginia. Nesse estudo, os autores resgataram as definições de Happiness no dicionário Webster desde 1850 até hoje. De lá até 1961 as definições do verbete incluiam sensações, mas também a sorte e o fazer o bem. Por exemplo, saca só a primeira definição de Happiness no Webster de 1936.
“A sensação agradável que resulta da apreciação do bem; o estado de desfrutar o prazer na ausência de dor; felicity; abençoado; satisfação.”.
E a segunda definição:
“Boa sorte, afortunado”.
Mas a partir de 1961 a definição muda completamente. A mudança linguística que tem início pelos 1800 parece se sedimentar nessa versão do Webster. A referência à sorte passa a ser apontada como arcaica e em seguida segue a definição atual, girando completamente ao redor da sensação, abre aspas:
“a) Estado de bem-estar caracterizado pela relativa permanência, pela dominância de emoções agradáveis que vão do mero contentamento até a profunda e intensa alegria de viver e por um desejo natural por sua continuidade. b) uma experiência prazerosa ou desejável.”
Fecha aspas.
Uma curiosidade resultante dessa forma de se referir à felicidade e ao “se perceber feliz” é que passa a ser possível/coerente falar em uma gradação de felicidade. Dá pra falar em se sentir um pouco, médio ou muito feliz, por exemplo (Wierzicka, 2004). Isso é próprio do desejo de medir e comparar e que se expressa com muita intensidade no inglês.
E isso acabou gerando um problema de tradução. Se em 1800 as palavras de diferentes idiomas estavam próximas do significado de “felicitas”, de lá pra cá o inglês se desgarrou.
Comentando sobre perguntas como “Quão feliz você está?”, muito utilizadas em pesquisas internacionais sobre felicidade, Anna Wierzbicka escreveu (2004).
Abre aspas:
“A razão pela qual essas perguntas são infelizes é porque, diferentemente da palavra “Happy”, as palavras francesa hereux [oe·roe], italiana felice e russa schastlivyy [xisliui] não são graduáveis. Elas todas se referem a algo absoluto, a uma experiência completa ou condição que não é considerada em termos de gradação. Ser questionado sobre a medida de bonheur [bo·neurr] ou schastie [chéstiê] em uma escala de 1 a 10 é como ser questionado sobre a quantidade de êxtase que sentiu em uma mesma escala.”
Fecha aspas.
De certa forma, essa percepção da Anna Wierzbicka já deve ter mudado desde 2004, que foi quando ela escreveu esse livro. As palavras Happy e Happiness passaram a ser muito mais estudadas de lá pra cá, principalmente com a institucionalização da Psicologia Positiva na virada pros anos 2000. E essas palavras acabaram influenciando pesquisas sobre o tema ao redor de todo o mundo. Trocentos eventos, publicações, pesquisas, programas de tevê, livros, ted talks…
De qualquer forma, faz todo sentido que cientistas americanos, pelas décadas de 60, 70 e 80, desejando medir a felicidade, forçassem a palavra na direção da sensação ordinária, comum, graduável de Happy e se distanciassem da idealização, do raro, do abstrato do substantivo Happiness. Faz sentido que, diante disso, tenha se tornado mais comum utilizar a expressão Bem-Estar, já que ela trata especificamente de uma sensação boa, de se sentir bem. Ela é um substantivo genérico o suficiente, tal qual o adjetivo feliz, que cabe em uma gradação. Não que o bem-estar resolva todos os problemas da pesquisa sobre felicidade. Na verdade resolve alguns (como tomar uma aparente distância da polêmica história filosófica), mas cria alguns novos problemas (como a dificuldade de definir precisamente o que significa bem-estar… competindo na ciência, hoje, temos conceitos como bem-estar subjetivo, psicológico, eudaimônico, hedônico, emocional, social e existencial….) (Goodman et al. 2020, p.1).
De todo o modo, bem-estar é um conceito adaptado para o projeto da felicidade como um direito. A gradativa substituição do conceito felicidade pelo conceito bem-estar é mais um passo nesse projeto que se inaugura ali pelos 1800, principalmente com a Declaração da Independência dos EUA e numa versão mais leve na Constituição Francesa. É o desejo do controle, da previsão, da mensuração, da produção da Felicidade ou daquilo que parecer mais possível, como Bem-Estar, como o ser feliz.
No século XX, esse projeto vai influenciar e ser influenciado pela aproximação da publicidade com a felicidade; pelo interesse sociológico em medir a felicidade da população. E tanto a publicidade como a sociologia vão reforçar o ser feliz como uma coisa comum, uma sensação possível: “estou feliz com a minha conta”, “71% dos americanos se consideram muito felizes”, “compre este produto e seja mais feliz”.
Maravilha! O projeto segue em curso, as pesquisas seguem sendo feitas, massssss não significa que alguém descobriu de fato os segredos da felicidade… ou não significa que isso que a gente sente, aquilo que a gente nomeia como se sentir feliz, é tudo aquilo que a gente esperava sentir… Parece faltar algo… Parece que esse se sentir feliz não combina com as queimadas no Pantanal e na Amazônia, o aumento do adoecimento mental etc.
O fracasso dos utilitaristas e o pessimismo dos românticos estão aí pra mostrar que essa sensação estranha, de falta não é exclusiva da contemporaneidade.
No fim das contas a felicidade como um direito é tipo você ganhar uma promoção que te promete a viagem dos seus sonhos, mas você tem que escolher entre Nova Iorque, Paris ou Berlim.
Nenhuma das três cidades parece com o meu sonho do que seria a viagem mais incrível de todos os tempos. Acho que a viagem dos meus sonhos envolveria natureza, ganhar um monte de brindes, conversas filosóficas com grandes intelectuais, comida à vontade, café à vontade, esportes radicais, surpresas inimagináveis e uma cama king size com um edredom bem fofinho. Logicamente que tudo isso nunca vai se enquadrar em uma única viagem. Mas nem por isso deixa de ser a viagem dos meus sonhos e com certeza não é a viagem para Nova Iorque, Paris ou Berlim. Mas, fazer o quê… eu tenho direito a uma viagem, então vou escolher dentre as opções que me deram.
Disseram que eu tenho direito à felicidade e eu vou cobrar o que dá pra ser cobrado: sentir coisas boas, sentir prazer, me sentir bem…é o que dá; é o que tem pra hoje.
Mas viver esse projeto tem um preço. Tem um preço escolher Nova Iorque, Paris ou Berlim. Sentir coisas boas, sentir prazer, me sentir bem custa alguns reais, custa o valor de uma máquina de café espresso, custa o valor de uma cadeira ergonômica, custa o valor de um jantar chique, um carro, uma viagem pro exterior… e pra ter capacidade de custear essas coisas eu preciso trabalhar muitas horas. E trabalhar como um pedágio pros prazeres dificilmente te fará feliz.
E resgatar o caminho de volta, para fora desse projeto, para fora desse custo que a gente se impôs, não é tão simples. A felicidade como bem-estar nos deixa alheios a história. Para felicidade como bem-estar, não importa o que os infinitos filósofos já disseram sobre o tema; importa o que a ciência está medindo; importa o último artigo publicado; o último experimento realizado com a mais nova tecnologia. A gente vai ignorando a história da felicidade e se contentando, restringindo com o que dá pra medir….
No fim das contas a familiaridade do adjetivo happy e a substituição de felicidade por bem-estar juntam a decepção romântica com o utilitarismo. Decepção romântica porque a gente sofre mais do que nunca, a gente se decepciona mais do que nunca, e utilitarismo porque é o que nos resta pra cobrar o nosso direito à felicidade, cobrar a dívida.
Pra fechar o episódio de hoje, duas frases. Primeiro uma frase do livro-diário da Laura Klos Sokol, americana que casou com um polones e passou a morar em Varsóvia.
“Quando americanos dizem que foi ótimo, eu sei que foi bom. Quando eles dizem que foi bom, eu sei que foi okay. Quando eles dizem que foi okay, eu sei que foi ruim”.
E outra frase do livro do Lame Deer, um indígena Sioux americano (1972, p.42), sobre uma batalha vencida por indígenas contra alguns homens brancos que haviam recebido pagamento para lutarem:
“A luta corpo a corpo e os mais de mil cavalos correndo por todos os lados levantaram uma enorme nuvem de poeira no campo de batalha, e no meio dela as peles de sapo verde dos soldados voavam como flocos de neve em uma tempestade. Agora, o que os indígenas fizeram com todo esse dinheiro que se espalhou pelo terreno? Eles deram para as crianças brincarem, para dobrarem aqueles estranhos pedaços de papel colorido nas mais diferentes formas, fazendo búfalos e cavalos de papel. Alguém estava aproveitando o dinheiro no fim das contas.”
E, como sempre, dá um pulo na página do podcast, avessodafelicidade.com. Lá você vai encontrar o contato pras minhas redes sociais, sugestões de leituras, a transcrição dos episódios e outras coisas mais.
Espero que você tenha gostado desse adendo. Até o próximo episódio!
Referências:
Goodman, F., Disabato, D., & Kashdan, T. (2020): Reflections on unspoken problems and potential solutions for the well-being juggernaut in positive psychology, The Journal of Positive Psychology, DOI: 10.1080/17439760.2020.1818815
Fire, J., Deer, L., & Erdoes, R. (1972). Lame Deer, Seeker Of Visions: The Life Of A Sioux Medicine Man. Simon and Schuster.
Sokol, L. K. (1997). Shortcuts to Poland. Warsaw: Wydawnictwo IPS.
Wierzbicka, A. (2004). ‘Happiness’ in cross-linguistic & cross-cultural perspective. Daedalus, 133(2), 34-43.
