Episódio 9 – A Psicologia Positiva: o que é isso?

O tema de hoje é a ciência da felicidade. Mas falar assim, tão amplo, da ciência da felicidade não é um bom primeiro passo, talvez nem um segundo, terceiro… Enfim, porque não existe um campo claramente definido com esse nome, então, tem gente fazendo muita coisa diferente em diferentes campos e que poderia ser classificado como parte da “ciência da felicidade”. 

Melhor então começar falando da Psicologia Positiva, que no meio desse bololô da ciência da felicidade é mais mencionada e que tem uma delimitação mais clara do que ela estuda, de quem faz parte dela e afins. E, o melhor de tudo, ainda assim rola uma polêmica! (que faz esse monólogo meu ser mais interessante).

Um dos mistérios da Psicologia Positiva é o que ela é: será uma área da Psicologia? Será um movimento? Uma disciplina, uma ciência…. será que é só moda? Pode parecer estranho que algo com uma delimitação mais clara do que “ciência da felicidade” tenha esse tipo de dúvida. Mas ao longo do episódio vai ficar claro que esse mistério é intencional. 

Mas deixa eu dar uma amostra dessa confusão. 

  1. No principal marco da PP, que é o discurso do então presidente da American Psychological Association (conhecida por APA), Martin Seligman em 21 de agosto de 1999, ele diz sobre: “encorajar e fomentar o crescimento da nova ciência e profissão da Psicologia Positiva”. PP é, então uma ciência e uma profissão.
  2. Já no segundo mais importante marco pra PP, que é um artigo chamado “Introdução à Psicologia Positiva” publicado em 2000 pelo mesmo Seligman e seu parceiro Mihaly Csikszentmihalyi (2000), eles dizem terem criado um novo “campo”.
  3. Dois anos depois, Seligman (2002, p.3) chama a PP de um movimento, que é uma expressão que ressoa em outros autores, como o Alex Linley (2006, p.3).
  4. Um pouco mais pra frente no tempo, em 2009, o próprio Seligman (2009 – foreword do Enciclopedia of PP) chama a PP de uma disciplina.

Chamar de ciência é bem amplo e não ajuda tanto; chamar de campo já é mais específico, diz sobre um perímetro particular seja de método e/ou objeto que investiga; disciplina não é tão diferente disso, mas reforça o método; já chamar de movimento é algo bem peculiar… é uma referência muito maior ao que move as pessoas (crenças, expectativas) do que aos critérios científicos. Além disso, chama a atenção que, embora a PP tenha a Psicologia em seu nome, é raro encontrar alguma menção de que a primeira seja parte da segunda. Ou seja, de que dentro do campo maior da P, a PP tenha algumas especificidades.

No meio dessa dúvida, eu prefiro pensar que, antes de mais nada, a Psicologia Positiva é uma história que contam. Chamando de uma história fica mais difícil de alguém protestar ou reclamar. 

Eu já falei do discurso do Seligman em 1999 e do artigo que ele escreveu com o Csikszentmihalyi nos anos 2000. Esses dois eventos dão o tom dessa história que eu vou tentar reproduzir aqui com alguns acréscimo.

Tudo começa no jardim da casa do Martin Seligman em 1997. Seligman aí já era o presidente da APA, e tinha construído uma carreira sólida investigando o desamparo. Nesse dia específico, ele tava amargurado, ele queria mudar a psicologia e não sabia muito bem como. Aparentemente elegeram ele pra presidencia da APA sem perguntar o que ele queria fazer… parece eleição no Brasil. Mas eis que a filha dele, Nikki, de 5 anos, chegou correndo pegou umas flores e jogou elas pro ar fazendo criancice. O Seligman que tava limpando o jardim ficou puto, gritou com a filha que, mais madura do que o normal, disse algo do tipo: “sabe, papai, dos 3 aos 5 anos eu era muito chorona, mas quando fiz 5 anos eu decidi parar de choramingar… se eu consegui parar, você também pode parar de ser rabugento”. Nesse instante o Seligman foi atingido pelo raio da sapiência e compreendeu o que ele precisava fazer: direcionar a psicologia pra ajudar as pessoas a viverem melhor, cuidar dos aspectos mais mundanos e práticos da vida.

Confrontado pela sabedoria da Nikki, o Seligman percebeu que havia algo “errado” com a Psicologia, faltava algo… ela não se dirigia para o bem-estar, a felicidade, a alegria, a vida boa e por aí vai… Mas por que a psicologia só se debruçava sobre a doença ou o comportamento desajustado? Tai uma parte importante dessa história que contam, principalmente o Seligman.

Abre aspas para o Seligman e o Csikszentmihalyi (2000, p.6):

“Antes da Segunda Guerra Mundial, a psicologia tinha três missões distintas: curar doenças mentais, fazer da vida das pessoas mais produtiva e realizada, e identificar e nutrir talentos.”

Fecha aspas.

O problema (se é que dá pra chamar de problema) é que depois da Guerra, a Psicologia recebeu muito financiamento para se desenvolver em torno da cura de doenças mentais: o Veterans Administration, fundado em 1946, que era uma instituição que financiava e apoiava o cuidado aos veteranos de Guerra (que na real só foram ficando mais numerosos e traumatizados com as trocentas guerras que os EUA foram criando); e o National Institute of Mental Health, fundado em 1947, que tinha um papel mais abrangente de cuidar do adoecimento mental e do desajustamento social nos EUA. (Maddux, 2002, p.13).

Como o próprio Seligman (2002, p.3) conta, abre aspas:

“Logo depois da guerra, dois eventos – ambos econômicos – mudaram a cara da psicologia (…) Em 1946 o Veterans Administration foi fundado e milhares de psicólogos descobriram que podiam ganhar a vida tratando o adoecimento mental. É nesse momento que a profissão do psicólogo clínico se consolidou. (…) Em 1947, o National Institute of Mental Health (que se fundamentava na ideia de adoecimento da Associação Americana de Psiquiatria) foi fundada e acadêmicos descobriram que eles poderiam conseguir financiamentos caso suas pesquisas fossem sobre patologias.”

Fecha aspas.

Mas, na real, isso não seria um problema caso outros campos do conhecimento tivessem avançado igualmente sobre a questão da vida boa, da vida plenamente realizável. Mas, a filosofia e a religião não conseguiram atender ao chamado. Elas tratavam dos temas-chave de um jeito muito abstrato, subjetivo. Era preciso ter fé pra se convencer do que diziam. Os filósofos ou religiosos não tinham o olhar cristalino e cético da ciência, a busca paciente de acumular conhecimento em passos de formiga. O pior é que até mesmo as tentativas da ciência, como no caso da Psicologia Humanista, pecaram nesse sentido e não foram bem sucedidas…. nesses casos o método científico não tinha sido bem empregado. Faltava a replicabilidade do método, o rigor estatístico nas pesquisas do Abraham Maslow, Carl Rogers e outros importantes psicólogos humanistas (Seligman, 2009, foreword do dicionário de PP).

Por isso que na psicologia, pelas décadas de 80 e 90, eram publicados 17 artigos sobre patologias para cada 1 sobre potencialidades humana. Mas a Psicologia Positiva perdoa a Psicologia. Perdoa porque, no fundo no fundo, parece ser uma questão evolutiva da gente (seres humanos) olhar primeiro pro negativo ao invés do positivo (Seligman, 2002, p.13; Seligman e Csi, 2000, p.8). Uma pessoa quebra a perna na sua frente, fratura exposta… você não vai pedir pra ela pensar positivo, fazer um exercício pra se tornar mais feliz… mas tratar a perna quebrada, tratar o problema. Eu, no caso, desmaiaria provavelmente.

Abre aspas pro Seligman (2002):

“Isso parece fazer sentido do ponto de vista evolutivo. Porque emoções negativas comumente refletem problemas imediatos ou perigos objetivos, elas devem ser fortes o suficientes pra nos fazer parar, aumentar a vigilância, refletir sobre nosso comportamento e mudar nossa ação se necessário (…) Em contraste, quando estamos bem adaptados ao mundo, nenhum desses alarmes é necessário. Experiências que promovem felicidade parecem acontecer sem esforço. Por isso, de certa forma, o foco da psicologia no negativo parece refletir a diferença entre emoções negativas e positivas do ponto de vista da sobrevivência”.

Fecha aspas.

Não é à toa, pra essa galera da PP que está inventando essa história, que no auge da civilização grega, que na Florença Renascentista e na Inglaterra Vitoriana, momentos de grande prosperidade, foi dada especial atenção à criatividade, virtude, qualidade da vida que se levava e coisas belíssimas tenham sido produzidas, da filosofia à arte.

Então é isso. A Psicologia estava rendida ao impulso primitivo, evolutivo do ser humano de olhar para o negativo, de cuidar das pernas quebradas por aí. Os escassos movimentos na história pra tentar fazer diferente, que aconteceram em momentos de estabilidade das civilizações, acabaram sendo pouco potentes porque não foram científicos (no caso da filosofia e arte) ou rigorosamente científicos (no caso da Psicologia Humanista). Pra piorar, desde o pós segunda guerra o dinheiro acabou fluindo na direção do tratamento da doença, que acabou caracterizando a psicologia como justamente tratamento de doenças ou do negativo. E isso era muito pouco para o que a Psicologia poderia fazer. Era preciso redirecionar a Psicologia. Pro Alex Linley (2006, p.3), é justamente por querer redirecionar a Psicologia como um todo que ele chama a PP de movimento. No fundo no fundo, a Psicologia como um todo deveria se tornar uma PP. 

Bom, vamos retomar o fluxo da história.

Atingido pelo raio da sapiência, percebendo num lampejo que a Psicologia tinha se perdido, o Seligman partiu pra ação. E daí em diante a coisa fica parecendo enredo de 11 homens e um segredo, sendo que o segredo só pode ser que a Nikki é a grande mente brilhante por trás de tudo isso. O que se fala é que o Seligman tinha dois desafios, convencer outros pesquisadores brilhantes a comprar a ideia dele e convencer gente com dinheiro a financiar pesquisas nessa nova direção.

Em relação às mentes brilhantes, ele começou chamando o Csikszentmihalyi, amigo dele que estava num momento da carreira parecido, e o Ray Fowler, CEO da APA e mais ou menos um mentor para o Seligman, pra passarem o réveillon de 97 em Yucatan, no México. Tomaram tequila, pularam ondinha, fizeram reuniões de brainstorm com a Nikki e batizaram isso que eles estavam querendo fazer, essa guinada na Psicologia, de Psicologia Positiva (Seligman, 2019, p.3; Linley, 2006, p.4). Na real, eles dizem não terem curtido muito o nome que escolheram, mas não acharam nada melhor. E fico imaginando a dificuldade mesmo. Eu sofri pra dar o nome pra esse podcast quando ele tinha menos de 10 ouvintes, imagina encontrar o nome pra, sei lá, um novo campo científico que pode impactar milhões de pessoas? 

O réveillon foi tão bom, que eles repetiram a dose em 1998, mas chamando a turma toda. O Csikszentmihalyi e o Ray Fowler tavam lá, mas também Ed Diener, Kathleen Hall Jamieson, Robert Nozick, Christopher Peterson, George Vaillant, Peter Schulman. Essa galera acabou ficando conhecida como o comitê de direção da PP (Schulman, 2009, p.747 – dicionario de PP) e se estruturaram estrategicamente em diferentes frentes de ação pra fazer avançar essa nova linha de pesquisa.

Beleza, o Seligman conseguiu juntar uma galera importante que estava no auge da produção acadêmica, faltava, então, a grana….

Pra pagar pelas reuniões no México, o Seligman usou uma verba que tinha da APA, de $35.000. Mas era preciso muitos milhões a mais… pra isso, a primeira investida do Seligman foi com a velha guarda da APA, uma galera mais conservadora e que não era muito afeita a ele. Ou seja, tinha tudo pra dar errado e deu. Eles não curtiram a ideia da PP. A grana tinha que vir de outro lugar. Seligman abordou e foi abordado por algumas instituições filantrópicas que resolveram o problema. Dentre elas, as principais são a John Templeton Foundation, uma instituição que busca conciliar religião e ciência – que é bem polêmico, digamos de passagem- e deu $5.8 milhões de dólares pra montar o que foi chamado primeiro de Positive Psychology Network e depois mudou para Positive Psychology Center na Universidade da Pensilvânia, aonde o Seligman dá aula até hoje. Outra instituição importante foi a Atlantic Philantropies, liderada pelo dono da maior parte dos free shops em aeroportos, que deu singelos 1.4 milhões de dólares. E, por fim, a Gallup Corporation, que financiou a criação do Clifton Strenghts, importante teste que viria a orientar muitas das pesquisas iniciais da PP já na virada pros anos 2000. Eu não consegui achar exatamente quantos milhões vieram da Gallup, mas chutaria que foi entre os 1.4 e os 5.8. De todo o modo, até 2002 a Psicologia Positiva já tinha conseguido financiamento de ao menos 37 milhões de dólares (Illouz & Cabanas, 2019, p.28).

Bom, é com essa grana armada que o Seligman discursa na reunião de 21 de agosto de 1999. E aí ele aproveitou pra contar o que seria financiado, o que seria construído, o maior prêmio da história da psicologia, de 100 mil dólares, que seria dado ao principal pesquisador da PP e por aí vai. 

Desse início até hoje, só dá pra dizer que o plano mirabolante do Seligman deu muito certo. Do discurso de 1999 em diante começaram a rolar encontros anuais de pesquisadores da PP, sendo o primeiro logo menos de um mês depois do discurso; começava a rolar os preparativos para edição especial do milênio da importante revista American Psychologist, especificamente sobre a PP…. e hoje em dia é fácil encontrar importantes revistas dedicadas exclusivamente à PP, como a Journal of Happiness Studies, o Journal of PP e o International Journal of Applied Positive Psychology; tem uma série de eventos, conferências, associações, livros e afins…

Só pra ter uma ideia, de 2004 até 2020, a popularidade da Psicologia Positiva no Google quase quadriplicou.

Olhando pra esse pedaço da história que eu reproduzi aqui, não à toa o Seligman é retratado como o “fundador” da PP, o principal defensor, ou, conforme Alex Linley escreve (2006, p.4), abre aspas:

“(…) o desenvolvimento da PP foi claramente moldado e energizada pelos grandes esforços do Seligman (…).”

Fecha aspas.

Ou então, como Schulman (em Lopes, 2009, p.746) escreve, abre aspas:

“O nascimento e crescimento rápido da PP ocorreu muito em parte graças à visão, às habilidades organizacionais, às palestras públicas e capacidade de levantar fundos do Martin Seligman.”

Fecha aspas.

Seligman é foda… Mas também, essa é a história que ele contou primeiro! Não que ele não tenha sido tipo o George Clonney no Onze homens e um segredo, mas quando te deixam contar a tua história a coisa fica mais fácil. Não que seja mentira… mas também não é exatamente verdade. Em alguns momentos, inclusive, o Seligman faz umas comparações meio estranhas entre ele e o Cosimo de’ Medici, que financiou/investiu pesado nas artes na Florença do século XV. Essa comparação é mais sutil, mas dá a entender que ele é tipo o Cosimo com o financiamento da PP. Ou então, uma comparação mais explícita entre ele e Moisés. Abre aspas pro Seligman (2012, p.75):

“Eu não escolhi a PP. Ela me escolheu (…). Eu não tenho jeito melhor de dizer isso (…). A PP me chamou do mesmo jeito que a sarça ardente chamou Moisés.” 

Fecha aspas.

Estranho, mas isso não desabona a PP, nem a história até aqui. Eu acho…

De todo o modo, a história tem um marco importante no discurso do Seligman, que, pra além do que vão contando, é um momento importante de formalização da PP, seja ela um movimento, área ou o que for… é como se fosse o momento de cortar a faixa de inauguração. Por essa razão, a PP não é só uma história, mas é também um jeito de fazer ciência institucionalizado. Ela tem uma missão, tem objetivos, tem método que delimitam aquilo que faz parte daquilo que não faz parte da PP. E vale a pena a gente falar um pouco mais especificamente sobre isso.

Um primeiro objetivo que já falamos é o de salvar a Psicologia do buraco, desse lugar em que só se estuda o negativo, a doença e que limita o ser humano. Como o Seligman escreveu (2002), abra aspas:

“A psicologia se tornou uma mera subárea da saúde, e se tornou uma vitimologia (…). Nós, da psicologia, víamos o ser humano como passivo”.

Fecha aspas.

A PP seria então o “Projeto Manhattan” das ciências sociais (Seligman, discurso de 1999), se bem que eu não sei o que, nessa metáfora, seria a bomba atômica e o que seria bombardeado. A PP é a promessa científica de compreender e intervir pelo desenvolvimento próspero de indivíduos, famílias e comunidades (Seligman e Csz, 2000, p.13). 

E é pra alcançar isso que se estudaria os objetos positivos, ou como o Seligman escreve com o Czsi (2000, p.5). Abre aspas: 

“O campo da PP, no nível subjetivo trata de experiências subjetivas que são valorizadas (…) no nível individual, trata dos traços individuais positivos (…). No nível grupal, trata das virtudes cívicas e de instituições que movem os indivíduos a se tornarem melhores cidadãos (…).”

Fecha aspas.

Mas se o pessoal não direcionasse o método, ficaria difícil separar PP da filosofia ou da auto-ajuda. Por essa razão que há um esforço de definição do método particular adotado pela PP. Há uma grande preocupação em encontrar e acumular evidências, ou seja, é um método científico e, mais especificamente, experimental, já que parte da missão é intervir concretamente na vida das pessoas.

Em alguns momentos isso aparece de um jeito meio ambíguo, dizendo que a PP é uma ciência descritiva e não prescritiva. Mas na real aparecem diversos planos de prescrever aquilo que é o melhor pras pessoas fazerem (Seligman & Csz, 2000, p.12). 

Nesse sentido, o método aponta sobretudo pra valorização de pesquisas quantitativas, com grande número de participantes e que envolvam qualquer coisa que evite a treta das discussões como “O que é felicidade?”. De fato essa é uma pergunta muito besta… por que alguém perguntaria isso? Se der pra medir com tecnologia ao invés de perguntar pras pessoas, melhor ainda. Se der pra quantificar, medir… melhor. Por exemplo, nas revistas que eu mencionei, Journal of Happiness Studies, o Journal of PP e o International Journal of Applied Positive Psychology é bem raro encontrar algum artigo de discussão teórica. 

Beleza então. PP é uma história que contam, PP é um jeito de fazer ciência com certa delimitação. Mas qual a definição ou melhor forma de responder a pergunta, o que é a PP? Talvez a resposta não precise ser única ou excludente. Quer dizer, parece claro que dá pra dizer que a PP é um movimento no sentido de ter  uma história e uma missão fortes o suficiente pra angariar seguidores e gerar mudanças (formação de grupos, mudanças na vida das pessoas e por aí vai). Mas ao mesmo tempo, também é claro que a PP é uma área ou um campo da ciência. Se a gente imaginar a ciência como um terreno, um espaço, a PP ocupa uma determinada área, ela tem fronteiras razoavelmente bem delimitadas. 

Talvez um tanto polêmico seja a pergunta sobre a PP ser parte ou não da Psicologia. Mas essa polêmica só existe porque trata de um ponto de colisão entre a história contada e a delimitação do campo. Na história, se fala nesse papel abrangente da PP, que é maior que a Psicologia e vai transformar, no futuro, toda a Psicologia em uma PP. Mas como delimitação da área, essa história não faz sentido algum. A Psicologia engloba muitos objetos, muitos métodos e reduzir tudo ao que a PP propõe é no mínimo absurdo. Institucionalmente e em termos de método e objeto a PP é um pedaço da Psicologia, ou seja, uma sub área.

Por exemplo, na apresentação da página da IPPA (International Positive Psychology Association) a gente pode encontrar uma raridade, abre aspas:

“Psicologia Positiva é um campo de investigação entusiasmador que tem capturado o interesse de milhares de pesquisadores, praticantes e estudantes ao redor do mundo. Essa crescente área da Psicologia focaliza no estudo e prática de emoções positivas, forças e virtudes que fazem indivíduos e instituições prosperarem.”

Fecha aspas.

Muito mais comum é encontrar trechos neutros nessa relação entre Psicologia e PP, como o de Linley (2006, p.8): “PP é o estudo científico do ótimo funcionamento humano.”. De Peterson (2008): “PP é o estudo científico daquilo que faz a vida valer a pena ser vivida”. De Gable e colegas (2005): “PP é o estudo das condições e processos que contribuem para o florescer ou funcionamento ótimo de pessoas, grupos e instituições.”. Ou, por fim, Seligman e colegas (2005, p.410): “a ciência emergente da PP: o estudo das emoções positivas, do caráter positivo e de instituições positivas”.

Esses trechos falam mais do objeto do que desse pareamento ou organização dentro de um campo maior. Com certeza, esse pareamento acabaria enfraquecendo a história que é contada da PP, seu propósito e a importância do chamado que Seligman recebeu…. Deus não se ocuparia de dar uma mensagem pra alguém pra fundar uma subárea da Psicologia, que, na ciência, nem está no top 5 das que tem mais credibilidade na sociedade.

Diante de tudo isso, deixa eu fazer uma análise geral da PP, uma análise muito complexa em que se pega uma folha de papel, faz uma linha no meio e coloca um sinal de mais de um lado e menos do outro. Vamos começar pelos pontos positivos.

  1. É muito claro que há uma grande demanda pelos temas tratados pela PP. A efervescência dela indica que esse campo não era suficientemente explorado e dialoga com uma necessidade contemporânea. Por exemplo, bizarramente, em 2018 ¼ dos estudantes de graduação de Yale se matricularam no curso de felicidade deles, conduzido pela Laurie Santos (que, inclusive, tem um podcast sobre felicidade, o The Happiness Lab). Ou então, o congresso mundial de PP de 2019, organizado pela IPPA, contou com 1.600 participantes de mais de 70 países. Que é muita gente pra época que os eventos eram presenciais!
  2. A PP trouxe muito dinheiro pra Psicologia, o que eu, enquanto Psicólogo só posso agradecer. Só no princípio o Seligman já conseguiu $10 milhões, rolou oferecer o maior prêmio já oferecido a um pesquisador da psicologia, de $100 mil.
  3. As críticas feitas pela PP à Psicologia obrigaram a Psicologia como um todo a fazer uma auto-crítica e, ao menos, justificar o porquê priorizar as patologias.
  4. Por fim, não dá pra negar que os resultados da PP podem ajudar as pessoas. Eu, por exemplo, por mais cri cri que eu seja, li os livros e eles me ajudaram. O que não significa que ajuda todo mundo ou que esse material não tenha problemas…. mas, confesso, eu já fiz por um tempo o diário da gratidão, escrevendo todos os dias as coisas pelas quais eu era grato e…. foi legal. Me fez bem. Não estou afirmando que fiquei mais feliz nem nada, daí seria querer demais de mim. De todo o modo, em alguma medida as pesquisas da PP podem ajudar e parece claro que além de tratar a doença a Psicologia pode sim se beneficiar da reflexão e pesquisa sobre a vida saudável, feliz, realizada. 

Vamos agora pro outro lado da folha de papel, onde tá o sinal de menos.

  1. Primeiro, a oposição que a PP faz à Psicologia é meio mequetrefe. A oposição em relação ao objeto até vai bem, é significativa, mas quanto ao método, a PP é bem tradicional, bem conservadora e já rola na psicologia comportamental, cognitiva e outras. Tem um artigo do fim de 2019 da revista Vox que descreve bem isso, sobretudo na figura do Martin Seligman, abre aspas:

“Ele se classifica como dissidente/independente (Seligman, 2012, p.103), batendo cabeça com o establishment acadêmico, e, contudo, ele é o símbolo desse establishment: é provavelmente o mais conhecido, mais financiado e mais influente psicólogo vivo.”

Fecha aspas.

  1. O caráter tradicional do método, do como se faz pesquisa na PP tem a ver também com uma aproximação da Psicologia com outras ciências mais consolidadas, como a medicina, por exemplo, que tem objetos de investigação claros. Por exemplo, é pouco polêmico o que significa um coração funcional; bem diferente do que significa uma pessoa funcional… Mas a psicologia positiva trata a segunda tal qual a primeira. Ela visa encerrar essa polêmica teórica. Dá pra gente dizer que a PP sacrifica o rigor conceitual, a complexidade de seu objeto, em prol do método, em prol de conduzir esse tipo de pesquisa científica tradicional. O que é felicidade, bem-estar ou que significa “positivo” não é claro nas pesquisas do campo. Mas ignorar isso é crucial pro método da PP e pra missão do campo.

Em uma entrevista com alguns importantes pesquisadores da PP, a pesquisadora Acacia Parks definiu a Psicologia Positiva como, abre aspas “é a oportunidade de mudar a felicidade do mundo”. Fecha aspas. Então tá.

  1. Outro ponto polêmico é a fronteira borrada entre a PP e a auto-ajuda. De fato, importantes pesquisadores do campo não parecem ter problemas com essa aproximação, falando de uma auto-ajuda científica (Schuller & Parks, 2014). Nada contra auto-ajuda… Mentira, muita coisa contra. A auto-ajuda tradicionalmente conta com conteúdos que não são rigorosamente examinados se fazem sentido ou não, se funcionam ou não. A auto-ajuda depende de crença, tipo O Segredo. 

“O meu vizinho, que tava trocando pneu do carro, me disse que se eu pensar positivo a molécula de água fica com formato de um coração. Ele disse que isso é Física Quântica. Então é só eu pensar positivo que tudo dará certo”. Hum… melhor não.

Por essa aproximação, a PP acaba atraindo gente que precisa de ajuda, garfando o dinheiro delas e podendo leva-las mais ainda pro buraco. Por exemplo, eu não sei se a pessoa que vai pegar um livro sobre como ser mais feliz está de boa, bem com a vida e decidiu ver se consegue ser um pouco mais feliz. Se não conseguir, sem grandes problemas. Ou se a pessoa que compra o livro está desesperada, frustrada, tentou um monte de coisa pra se perceber feliz e não conseguiu. Se sente no fundo do poço e ao olhar o livro que diz “a sua felicidade depende de você” enxerga uma última tentativa. Bem drástica essa diferença, mas o drama é só pra deixar claro que não dá pra saber quem está em contato com essa auto-ajuda. 

Embora também seja comum encontrar algumas ressalvas sobre como utilizar o conhecimento da Psicologia Positiva, como no caso do livro da Sonja Lyubomirky (2008), algo parecido com “persistindo os sintomas, procure o seu médico”, a principal ênfase da Psicologia Positiva é a ideia de que temos controle sobre como nos sentimos e podemos usar isso de forma corriqueira, simples a nosso favor. Abre aspas pra Lyubomirsky (2008, p.285 e 303):

“Eu devo reforçar, contudo, que apesar de um programa para se tornar mais feliz poder efetivamente ser praticado por alguém em depressão, diminuir os efeitos da depressão não é parte do que esse livro trata”. 

Fecha aspas. Mas algumas páginas adiante, ela acrescenta. Abre aspas:

“Pesquisas conduzidas por Seligman têm aumentando nossa confiança no valor das atividades de felicidade (…) para começar a aliviar depressões leves, moderadas e até severas.”

Fecha aspas.

Não à toa o nome do livro da Sonja Lyubomirksy é “A ciência da felicidade, como atingir a felicidade real e duradoura”, ou então o nome de um dos livros do Martin Seligman, “Felicidade Autêntica, use a psicologia positiva para alcançar todo seu potencial.”

Importante que essas críticas que eu amontoei aqui não são exclusivas de quem está fora da Psicologia Positiva, há um movimento interno a ela, chamado de “Segunda Onda da Psicologia Positiva”, que busca dar uma repaginada na forma como pesquisam. Agora sim, dá pra falar que é movimento, porque é a tentativa de mudar alguns pressupostos da Psicologia Positiva sem interferir substanciais no método ou objeto. A ideia orientadora da Segunda Onda é que não há uma divisão clara entre temas que são positivos e os que são negativos. Por exemplo, ser otimista pode levar alguém a ser passivo diante de injustiças, o que é ruim (talvez não pra um ditador); ou então que liberdade de mais pode gerar muita angústia, e por aí vai (Lomas & Ivtzan, 2016).

O problema é que essa Segunda Onda é tímida e, além de não ter tido um impacto significativo ainda na PP, não se dirigem aos principais pontos negativos (como a falta de definição dos conceitos). A gente continua com o problema de não saber muito bem o que é otimismo e pessimismo, o que é negativa ou positivo, o que é felicidade, bem-estar e por aí vai. De todo o modo, mostra uma certa insatisfação interna à PP que pode ganhar novas formas.

Chegamos então ao desfecho dessa nossa apresentação geral da Psicologia Positiva. E a conclusão é que a PP é uma área, com objetos e método específicos. Mas, além disso, é uma área com a particularidade de ter uma história muito apelativa, forte, que nos convoca para essa área de um jeito diferente do de outras áreas. Não consigo pensar em alguma outra área da Psicologia que se coloca essa missão de transformar o mundo nessa escala. Sei lá… qual a missão da psicanálise? O Freud é idolatrado, tá certo, mas a área não tem um propósito mobilizador… rumo à transformar todo inconsciente em consciente? Bora sublimar tudo que der? A psicologia comportamental até teve um vislumbre disso com a utopia Walden II escrita pelo Skinner em 1948, mas que não influenciou decisivamente a prática científica.

Já na PP, por exemplo, em 2011, o Martin Seligman criou a iniciativa Florescer 51, em que estabelecia (não dá pra saber exatamente pra quem) a meta de ter 51% da população mundial florescendo até 2051. Abre aspas (Chamberlin, 2011, p.56):

“Está em nossas mãos não apenas observar, mas tomar partido em fazer isso acontecer.”

Fecha aspas.

O problema é que essa crença, esse propósito acaba muitas vezes ofuscando a prática científica “laica” digamos assim. A PP acaba extrapolando a prática científica e sendo mencionada em lugares duvidosos… nos Estados Unidos existe o Positive Psychology Coaching; ou seja, vários importantes pesquisadores da PP também são também coaches… dão várias palestras, têm cargos como o de Chief Happiness Officer em grandes empresas… ou seja, há uma influência considerável do dinheiro e interesses privados nas pesquisas conduzidas. 

Isso acaba fazendo com que algumas pessoas procurem distância do nome Psicologia Positiva. O Ed Diener, por exemplo, principal referência sobre Bem-Estar, não menciona a Psicologia Positiva nos seus trabalhos, buscando se enquadrar, antes como pesquisador da psicologia. 

Com essa apresentação, espero que tenha dado pra entender a importância da Psicologia Positiva e porque ela, ao mesmo tempo, é uma área polêmica. Mas ainda vamos falar bastante sobre ela e algumas teorias dela.

Pra fechar o episódio de hoje, duas frases. Primeiro do David Cooperrider , professor de empreendedorismo social na Case Western, abre aspas: “A Psicologia Positiva é na minha opinião a mais potente desenvolvimento das ciências humanas dos últimos 50 anos”. Fecha aspas. E, claro, do Martin Seligman (2018, chapter 4 – 60) sobre a missão da PP, abre aspas: “Pra direcionar a Psicologia para longe da escuridão e rumo à luz”. Fecha aspas.

E, como sempre, dá um pulo na página do podcast, avessodafelicidade.com. Lá você vai encontrar o contato pras minhas redes sociais, sugestões de leituras, a transcrição dos episódios e outras coisas mais.

Espero que você tenha gostado e até o próximo episódio!

*****************

Twitter: @lusbricker

Referências: 

Bains, S. (2006).The Templeton Foundation I: Buying science. Dr Sunny Bains blog. 12 de Novembro. https://www.sunnybains.com/the-templeton-foundation-i-buying-science/

Cabanas, E.; Illouz, E. (2019). Against Happiness. Jacobin Magazine, 29 de Agosto,  https://www.jacobinmag.com/2019/08/happiness-self-help-positive-psychology-eva-illouz-edgar-cabanas

Cabanas, E., & Illouz, E. (2019). Happycracia. Cómo la ciencia y la industria de la felicidad.

Chamberlin, J. (2011). Flourish 2051. Martin EP Seligman’sa new initiative calls for a global boost in well-being for 2051. Monitor on Psychology, 42(9), 56.

Haidt, J. (2011). What is Happiness. Aspen Ideas Festival.  August 17. 

Lomas, T., Ivtzan, I. (2016). Second Wave Positive Psychology: Exploring the Positive–Negative Dialectics of Wellbeing. J Happiness Stud 17, 1753–1768. https://doi.org/10.1007/s10902-015-9668-y

Maslow, A. H. (1954). Motivation and personality. New York: Harper

Positive Psychology People. (2016). What is Positive Psychology. 3 de Março. https://www.youtube.com/watch?v=j78AjMIIHLo

Schueller, S. M., & Parks, A. C. (2014). The science of self-help. European Psychologist.

Seligman, M. E. (2018). The hope circuit: A psychologist’s journey from helplessness to optimism.

Hachette UK.Smith, J. (2019). Is positive psychology all it’s cracked up to be? Vox.com, 20 de Novembro. https://www.vox.com/the-highlight/2019/11/13/20955328/positive-psychology-martin-seligman-happiness-religion-secularism

Deixe um comentário