Episódio 11 – O que é positivo na psicologia positiva?

Você já reparou que eu gravo todos os episódios desse podcast tentando delimitar o que é felicidade? No fundo no fundo eu não sei muito bem o que é isso, mas sigo tentando. E por que eu faço isso? 

Porque a felicidade delimita o campo temático desse podcast. Não é o avesso do maracatu, não é o avesso da política… é o avesso da felicidade. E por você saber disso, já rola uma certa expectativa do que vai ser tratado aqui e como os diferentes temas de cada episódio se relacionam com a felicidade.

O que eu estou querendo dizer é que o nome de uma coisa é sempre importante. Diz muito sobre essa coisa. Por exemplo, é importante você saber o que significa “vegano” antes de ir em um restaurante vegano. Mesma coisa vale pra ciência e seus vários compartimentos: história da infância? É importante entender que infância é aquilo que acontece antes de aparecer a primeira espinha na cara… Eu não espero que hérnia de disco seja um tema especialmente tratado na história da infância….

E eu estou dando essa volta toda pra dizer que o título desse episódio não é à toa. “O que significa o “positivo” da Psicologia Positiva?” é uma pergunta bem relevante.

Mas talvez você ache que essa pergunta já tenha sido respondida: sei lá, tipo, positivo diz sobre alguma coisa boa; alguma coisa que a gente gosta que aconteça. Por exemplo, acordei e percebi que tive uma excelente noite de sono: é positivo. Ajudei uma velhinha a atravessar a rua: é positivo. Café com uma fatia de cheesecake? É positivo.

Mas essa ideia tão geral e abstrata não funciona bem pra Psicologia Positiva… O Kennon Sheldon (2011), professor da Universidade de Missouri, escreveu, abre aspas:

“…todos os campos da psicologia são ciências positivas na medida que o conhecimento derivado pode ser usado para resolver problemas e melhorar aquilo que pode ser melhorado… Obviamente, contudo, que a expressão “psicologia positiva” não é muito útil se ela se aplica a todas as psicologias.”

Fecha aspas.

Nesse trecho, o Sheldon dá um sinal de que não dá pra esse “positivo” ser uma referência a qualquer coisa que vá ajudar o ser humano a se desenvolver ou melhorar. Uma ideia genérica de Positivo como aquilo que faz parte da vida boa e que acaba servindo também pras outras Psicologias. Afinal, não se espera que alguém pratique qualquer Psicologia querendo prejudicar outras pessoas. Por essa razão, a Psicologia Positiva depende, pra sua identidade, de alguma delimitação melhor, mas ainda assim, chama a atenção a dificuldade pra encontrar alguma formalização sobre o que significa esse “positivo”. 

Na real, lembrando do episódio passado, quando o Seligman e o Csikszentmihalyi deram o nome de Psicologia Positiva, eles não estavam muito preocupados com o conceito “Positivo”. O importante mesmo era marcar a direção dessa nova área: a psicologia positiva estuda aquilo que a Psicologia tradicional deixa de lado: as coisas boas da vida. Então não é pra ajudar, mas tem a ver com o tipo de tema estudado. Mas o que exatamente está contemplado aí? Ou o que são essas coisas boas da vida? Pro Seligman e o Csikszentmihalyi esse era um problema pra depois. Um depois que já chegou, na verdade.

Essa ideia geralzona até consegue dar um norte do que a PP trata (dormir bem, café, cheesecake, ajudar velhinhas a atravessar a rua), mas não funciona muito bem quando a gente vai testando com outras coisas…. Por exemplo, “subir escada”. Teu médico pode dizer que é positivo. Mas quando você voltar da academia, imagino que você não vai achar a escada positiva, menos ainda se você for cadeirante. Chamar algo (um objeto, uma ação, um acontecimento, um sentimento) de positivo ou negativo não é tão simples como parece. 

Então, bora lá. O objetivo desse episódio é dar uma navegada por essa complexidade e apresentar pra você algumas alternativas pra tentar dar um encaminhamento pra essa pergunta: o que é o positivo da Psicologia Positiva?

Uma primeira forma de lidar com a complexidade do que significa Positivo é uma que eu gosto muito: ignorar. O seu chuveiro está gotejando? É só encostar a porta do banheiro. Depois de um tempo você até esquece que esse problema existe. 

O ponto aqui é que não seria exatamente um problema não ter uma definição clara desde que as pessoas do campo, ou seja, da Psicologia Positiva, consigam se entender. O Christopher Peterson e o Martin Seligman (2004, p.5) deixam claro essa forma de lidar quando escrevem, em 2004, que a PP precisava ter “um vocabulário compartilhado para falar do positivo. Igual ao que o Manual de Diagnósticos e Estatísticas de Doenças Mentais padronizou” pra falar das doenças. 

Não precisa definir, só precisa repetir bastante até padronizar. Ou até chegar no ponto, como hoje em dia, que a gente raramente estranha essa palavra, “Positivo”. Dá até a impressão de que a pergunta desse episódio é idiota de se fazer.

Beleza, mas vou dar o braço a torcer aqui. Talvez essa vaguidão na definição de “Positivo” não seja muito problemática para a maioria dos casos mesmo: se você perguntar pros seus amigos “se eu te dar 100 reais você vai achar positivo ou negativo?”. Aposto que todos vão responder positivo. Mas com a Psicologia Positiva se espalhando por todo o mundo, se torna cada vez mais importante entender se essa ideia de “dar 100 reais ser positiva” é vista mesmo como positiva em um país comunista ou em uma comunidade indígena isolada…

Bom, essa é a primeira dessas formas de tratar a complexidade do que significa Positivo. A segunda foi resultado de um artigo duplo escrito em 2016 pelo James Pawelski (2016), psicólogo que pesquisa com o Martin Seligman na Universidade da Pensilvânia. Ele resolveu investigar como a ideia de Positivo havia sido apresentada ao longo da história da Psicologia Positiva e, tchararan…. concluiu que não tinha uma boa definição. Por isso ele construiu a definição dele mesmo, que tem a ver com o conceito de Preferência. Ou seja, o que chamamos de Positivo tem a ver com aquilo que a gente prefere.

A terceira forma de tratar Positivo tem uma origem um pouco diferente, porque não foi uma tentativa direta de definir ele.

Se a Psicologia Positiva não tem uma definição clara do que significa Positivo, não faltam, por outro lado, expressões com o sobrenome positivo. Por exemplo, na Enciclopédia da Psicologia Positiva (Lopez, 2009), de 2009, não há um verbete “Positivo”, mas tem mais de 10 verbetes que possuem o sobrenome “Positivo”, como “Afetos Positivos”, “Educação Positiva”, “Desenvolvimento Positivo”. Ou seja, Positivo vai sendo definido meio sem querer querendo, meio que por tabela…. Dessas expressões com o sobrenome “Positivo”, talvez a mais bem desenvolvida e que poderia funcionar como um delimitador do campo é a ideia de “Emoção Positiva ou Afeto Positivo”.

Já a quarta e última forma de explicar Positivo é menos explicitada nas pesquisas da Psicologia Positiva, mas faz parte do senso comum. É a ideia de que Positivo é aquilo em acordo com a ética. 

Bom, a primeira dessas formas não tem muito o que aprofundar. Ela implica em esperar por uma unidade léxica, às vezes por carteirada dos pesquisadores mais renomados, às vezes por consenso… Já as ideias de Preferência, Emoção Positiva e Ética dão pano pra manga e valem a pena serem melhor explorados. 

E de partida já peço desculpa porque essa introdução deu três páginas de roteiro… sinal de que vai ser um episódio longo.

Vamos começar falando da ideia de preferência. Resumidamente, ela propõe que quanto mais a gente prefere alguma coisa, mais positiva a consideramos. E essa ideia faz bastante sentido. Sorvete de creme ou chuchu no vapor? Receber um abraço ou um chute na canela?

O conceito de preferência foi bastante explorado na economia clássica como uma ideia que ajuda a explicar e antecipar o comportamento das pessoas no mercado, comprando ou consumindo algo. As pessoas compram e consomem aquilo que elas preferem.

Mas aí a gente tem dois problemas dessa transposição do que funcionou bem na economia para a Psicologia.

O primeiro problema é o dos casos desviantes: na economia clássica não é um problema generalizar e ignorar alguns casos desviantes. Eu não preciso prever toda e qualquer escolha econômica, só o comportamento de consumo geral. Você era a única pessoa que usava a rede social da Google, o Google Plus? Você é uma pessoa rara demais, digamos assim, pros agentes econômicos se importarem. Já no caso da Psicologia, que tem como objeto central de investigação o indivíduo e não a previsibilidade do mercado, não é muito coerente ou rigoroso desconsiderar aqueles que fogem do normal. 

O segundo problema é o do universo de objetos investigados. Se a Economia vai acompanhar a preferência dentro de um universo restrito de produtos e serviços, que são aqueles que estão disponíveis no mercado, a Psicologia Positiva vai lidar, potencialmente, com qualquer coisa! Se um ser humano é capaz, então é uma potencial preferência pra ser considerada pela Psicologia Positiva. A Psicologia Positiva pode eventualmente estudar a preferência por dobrar o dedo mindinho, de pentear o cabelo de manhã… qualquer coisa…. A coisa fica ainda mais complexa: ninguém dobra o dedo mindinho da mesma maneira. Alguns dobram mais rápido, outros mais devagar, alguns por mais tempo, outros por menos. Se algo é possível para um ser humano (de ser vivido, pensado, sentido) é algo que pode ser preferível.

Essas duas diferenças-problemas fazem a ideia de preferências ser consideravelmente complicada na Psicologia Positiva. Ainda que no dia-a-dia a gente encontre consenso razoável, isso não significa que esse consenso seja rigoroso o suficiente pra orientar um campo da ciência, nem que haja consenso estável nas preferências das pessoas.

E exemplos do problema dos casos desviantes não faltam. Todo mundo já conheceu alguém com alguma preferência estranha. Uma pessoa que não gosta de feijão, outra que não gosta de pão de queijo, outra que não gosta de jogar videogame, outra que não gosta de ler Saramago. 

Mas dá pra ser ainda mais drástico nessa falta de consenso: ainda que soe óbvio dizer que “viver” é positivo, é possível pensar em casos de pessoas que não vão preferir a vida diante da morte… ou mais drástico ainda, só pensar que 35% dos cariocas votaram no Crivela pra um segundo mandato. 

Se a gente pensar no mundo real, nas situações do dia-a-dia, talvez a ideia de preferências comece a parecer simplista demais. Pensa em um sorvete de creme. Será que é positivo ou negativo? O problema é que o sorvete de creme nunca é um sorvete de creme genérico. Ele sempre vem numa certa quantidade, numa certa temperatura, servido em um recipiente, tomado em um certo contexto…  

Sorvete de creme é positivo? O que acha então de 10 kilos de sorvete de creme goela abaixo? De sorvete de creme sendo arremessado na sua cara, de uma surra de sorvete de creme? Não é o sorvete de creme que é preferido ou positivo, mas uma certa experiência com o sorvete de creme. Não é qualquer quantidade. Não é de qualquer jeito… não quero sorvete de creme na minha orelha. Não é em qualquer contexto ou em qualquer companhia.

Por conta disso, inclusive, alguns temas supostamente super positivos, como gratidão, otimismo, significado, podem ser negativos em certas circunstâncias (Pawelski, 2016, p.348). Minha gratidão pode me fazer passivo enquanto sou feito de trouxa, meu otimismo pode me levar a não calcular os riscos que estou assumindo quando resolvo virar day trader, a construção de significado em uma relação pode fazer com que eu sofra especialmente mais se essa relação terminar….

Bom, então qual a definição do Pawelski? Como ele tenta resolver o problema? 

Um passo importante do Pawelski foi definir que a preferência seria aquilo que é preferido à sua ausência. Ou, seja, se eu digo que sorvete de creme é positivo, é porque aquilo que eu entendo ser a experiência de tomar sorvete é preferível a não ter essa experiência. E o inverso seria verdadeiro para o caso do negativo. Prefiro não levar um beliscão a levá-lo, logo, o beliscão é negativo. Esse é um jeito simples de definir. E eu não preciso ficar comparando se algo é mais preferível do que outras coisas. Só preciso comparar a coisa com ela mesma, quer dizer, com a ausência dela. Ele chama isso de uma “preferência simples”.

Abre aspas para o Pawelski (2016, p.362):

“Eu sugiro, então, que o positivo na Psicologia Positiva deva ser definido como aquilo para o qual existe uma preferência simples, e que esse positivo admite graus diferentes a partir de quanto determinada coisa é preferida recorrentemente ao longo do tempo, por pessoas diferentes, em diferentes modos e em diferentes contextos.”

Fecha aspas.

O que o Pawelski está dizendo aí, no fundo no fundo, é que não dá pra parar nessa preferência simples. Ela não ajuda a gente a resolver todo o problema da Psicologia Positiva. Quer dizer, não adianta saber que eu prefiro sorvete de creme a não tomar sorvete de creme, porque isso só permitiria delimitar a Psicologia Positiva específica do Luciano . A gente teria que ficar checando com cada pessoa a todo instante pra saber o que é positivo ou não. 

Pra tentar resolver esse outro problema o Pawelski estabeleceu cinco categorias que vão permitir estabelecer a intensidade da preferência e ao mesmo generalizar essas preferências entre pessoas. As categorias são:

  1. Preferência relativa: quanto essa coisa é preferível em comparação a outras.
  2. Sustentabilidade ao longo do tempo: quanto essa coisa continua sendo preferível no tempo.
  3. Sustentabilidade entre pessoas: qual o consenso na preferência dessa coisa.
  4. Sustentabilidade de efeitos: qual a intensidade das consequências (positivas e negativas) que essa coisa gera.
  5. Sustentabilidade entre estruturas: qual o consenso na preferência dessa coisa em diferentes contextos sociais ou organizacionais.

Mérito pro Pawelski por sistematizar o que seria Positivo. Estrelinha pra ele. Mas é importante notar que essa sistematização tem algumas fragilidades consideráveis. O enigma do Positivo não foi resolvido. Ainda continua necessário generalizar as preferências individuais e ignorar casos desviantes, ainda continua necessário simplificar o universo de possibilidades do ser humano…

Eu preciso ignorar que a nossa preferência vai naturalmente mudando de acordo com a dimensão do tempo que consideramos. Pode ser que algo seja preferido hoje, mas não amanhã. 

Eu preciso ignorar o dilema de até que ponto eu devo calcular essa positividade/negatividade de algo? Eu devo pensar só no meu umbigo (e que se lasquem os outros) ou devo considerar igualmente o impacto de algo pras pessoas ao meu redor? Talvez no caso do sorvete de creme a coisa não seja tão polêmica quanto minha preferência por um recurso escasso, como a vacina de COVID, ou no caso da minha preferência por entrar em guerra.

Bom, então a ideia de preferência ajuda um pouco, mas não resolve de vez o problema. Vamos agora para a próxima forma de definir Positivo, presente no conceito de Afeto Positivo ou Emoção Positiva.

Para esse tipo de entendimento, a Barbara Fredrickson, professora da Universidade da Carolina do Norte, é a referência principal. A teoria mais famosa dela é a da Broaden-and-Build, em portugues, Teoria do Ampliar e Construir. Você lembra da Fundação Templeton, que financiou o início da PP e o maior prêmio para psicólogos? Então, a Fredrickson foi a primeira ganhadora desse prêmio de 100 mil dólares. E em 2017 ela ganhou um outro prêmio de 100 mil dólares, o Prêmio Tang. “ele não merece”. Desculpa a piada ruim. 

Com isso já dá pra ter uma ideia da importância da teoria Broaden-and-Build da Fredrickson. Se alguém quiser saber um pouco mais sobre essa teoria, além dos artigos, tem um curso dela no Coursera chamado Positive Psychology e dá pra fazer de graça. 

A Fredrickson criou uma lista de emoções positivas e outra de emoções negativas, a partir daí ela começou a notar algumas constâncias na forma como a gente vive cada uma delas. Abre aspas:

“Alegria, por exemplo, cria o impulso para brincar, superar limites, para ser criativo, impulso evidente não só no comportamento social e físico, mas também no intelectual e artístico. Interesse, uma emoção positiva fenomenologicamente diferente, cria o impulso para explorar, buscar novas informações e experiências, e expandir a identidade no processo. Contentamento, uma terceira e distinta emoção positiva, cria o impulso para dar um passo para trás e saborear as circunstâncias da vida e integrar essas circunstâncias em novas visões de si e do mundo.” (Fredrickson, 2002, p.122)

Fecha aspas. 

A ideia então é que se as emoções positivas ampliam a percepção do mundo e promovem o desenvolvimento da identidade; já as emoções negativas fomentam uma relação com o mundo restrita e imediata. Sabe quando você tá com tanta raiva de alguém que você não consegue deixar de viver essa raiva em tudo que você faz? Tipo aquela pessoa que fez bullying com você na infância e até hoje você segura o garfo como se estivesse enforcando a pessoa? Pra Fredrickson, o fato de a gente reagir assim com emoções negativas teria uma importante função evolutiva. Ficar encasquetado com as coisas ruins não te faz viver melhor, mas te faz viver mais, ter mais chance de se reproduzir e espalhar seus genes por aí. Afinal, é importante que você não pare de pensar na pessoa que te fez mal, porque tem mais chance de ela tentar entrar na sua caverna no meio da noite com um tacape e te acertar na cabeça. Ou algo mais ou menos assim.

Já as emoções positivas como as citadas no trecho anterior têm tanto uma função imediata como uma futura. Imediatamente, as emoções positivas ampliam as possibilidades de ação da pessoa em oposição ao caráter extremamente específico das emoções negativas. Se a raiva te deixa pensando sem parar na pessoa que você sente raiva, na alegria, por exemplo, você sai fazendo coisas novas, se joga no mundo, faz um piercing, tatuagem de borboleta, se inscreve em um curso online… fica mais disposto a experimentar coisas diferentes.

Pela expansão de horizontes que as emoções positivas promovem (a Fredrickson usa a metáfora de que as emoções positivas tiram a “viseira do cavalo”), elas têm uma relação com a construção e transformação de si no longo prazo. Pra ela é um sinal de um “funcionamento ótimo” que promove também mais funcionamento ótimo (Frederickson, 2002, p.120). 

Para entender a teoria da Fredrickson, é importante entender qual a definição dela de emoção, que é um conceito também muito complexo. Para ela, a emoção é, abre aspas:

“resultado da relação entre pessoa e ambiente, ou do encontro adaptativo. Tanto consciente quanto inconsciente, um processo avaliativo dispara uma sequência de tendências de respostas que são manifestadas e se influenciam ao longo de algumas partes do sistema corporal, como as experiências subjetivas, a expressão facial e as mudanças fisiológicas.”(Fredrickson, 2002, p.121).

Fecha aspas.

Ou seja, a emoção envolve um universo grande de fenômenos, desde a avaliação do contexto, passando pelas respostas fisiológicas, até as tendências comportamentais do indivíduo. E essa definição é importante porque ajuda a diferenciar a emoção do prazer e do humor. 

Por exemplo, o prazer ou a dor não depende de uma avaliação. Eu posso estar com muita, muita raiva de alguém, mas se essa pessoa fizer cafuné em mim, vai ser uma delícia. O que talvez me dê mais raiva ainda… Isso ajuda a Fredrickson a diferenciar a alegria (emoção positiva) do êxtase ou da excitação, que seriam mais do campo da sensação. E essa separação é importante, pois nem o êxtase nem a excitação tendem a ampliar nosso espectro de ações. Pelo contrário, o mundo diminui de tamanho. Como padrão, a Fredrickson vai dizer que as emoções negativas são mais intensas do que as positivas, que seriam mais sutis. 

Já na diferença entre emoção e humor, a diferença é que esse último não tem um objeto definido, claro, e tende a perdurar por mais tempo do que a emoção. Básico, né? Você fica mal-humorado o dia inteiro e não sabe bem o porquê….

Uma vantagem de tratar o Positivo como Emoção Positiva ao invés de Preferência é que a Emoção Positiva passa a ser um objeto inteiramente subjetivo. Não importa se a quantidade de objetos e situações potencialmente vividas por alguém são infinitas. O que importa é aquilo que a pessoa está sentindo. Diferente das Preferências, que é sempre o ato de alguém preferir alguma coisa, podendo ser tanto uma coisa interna (preferir se sentir assim ou assado) quanto uma coisa externa (prefiro tênis preto a tênis branco), no caso da Emoção Positiva interessa só o universo interno.

Por outro lado, a coisa não é tão simples. Como a própria Fredrickson (2002, p.121) diz, na prática, emoção, sensação e humor se misturam e, inclusive, tendem a ser estudados com os mesmos instrumentos. Ou seja, essa separação entre eles é teórica antes de mais nada. 

Problematizando a ideia de uma emoção positiva, o Joar Vittersø, psicólogo social da Universidade de Tromsø  na Noruega, escreveu, abre aspas:

“Para esse ponto de vista, Emoção Positiva é um termo que não refere a um sentimento particular ou um subsistema emocional, mas a um grupo de diferentes sistemas emocionais que constituem uma ideia semântica. Tem sido argumentado que esse tipo de positividade é uma cola que agrupa um apanhado de emoções distintas que são percebidas como boas.” (Vittersø,in Michalos 2014 – p. 4909).

Fecha aspas.

O Vittersø apresenta a emoção positiva de um jeito um tanto diferente da Fredrickson. Para ele é muito complicado se referir linguisticamente à emoção. Se você pensar, a gente sofre muitas vezes para dar nome ao que sente… por isso que a gente paga pra fazer terapia…. Entendendo isso começa a ficar mais claro o que o Vittersø tá querendo dizer. O nome que a gente dá pra, por exemplo, “alegria” é a tentativa de organizar uma cacetada de coisa que a gente sente e percebe dentro e também fora da gente.

Tem um livro infantil chamado o Monstro das Cores (da Anna Llenas) que é belíssimo pra tratar disso. Vou ler um pedaço dele aqui:

“Hoje ele acordou se sentindo estranho, confuso, aturdido… não sabe muito bem o que lhe passa”. Daí uma menininha pega o monstro pela mão e diz “quanta bagunça você fez com suas emoções! Assim, todas emboladas, não funcionam. Você tem que separá-las e colocá-las cada uma em seu pote. Se quiser te ajudo a organizar.” Daí ela faz uma descrição de algumas emoções: “A alegria é contagiante. Brilha como o sol, pisca como as estrelas… A tristeza está sempre sentindo falta de algo. É suave como o mar, doce como os dias de chuva.”

Ou seja, a menina ajuda o monstro a organizar semanticamente (ou em potes) as emoções. Mas sendo uma organização posterior, ou seja, primeiro a gente sente alguma coisa e depois a gente vai tentando dar nome e organizar, a gente tá sujeito a sentir as emoções de formas diferentes. A minha alegria não é igual a sua alegria, ainda que a gente use a mesma palavra.

Na medida em que qualquer emoção é sempre frágil na sua delimitação, não é estranho que a gente consiga pensar em vivências que escapam à teoria Broaden and Build e que comece a parecer que essa teoria direciona demais, normatiza, algumas formas de se relacionar com o mundo, como valorizando demais a extroversão.

Quem nunca sentiu que, na tristeza, conseguia ver as coisas com uma nova e melhor perspectiva? A Adélia Prado escreveu, nesse sentido, que “Por prazer da tristeza eu vivo alegre” (2000). O Rubem Alvez (2005), citando de memória Fernando Pessoa, escreveu “Ah! A imensa felicidade de não precisar estar alegre”, ou então na Bíblia, em Eclesiastes (7:3-4): “Melhor é a tristeza que o riso. Porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração”.

Bom, querer sistematizar o campo a partir da emoção também tem suas fragilidades.

Dando uma breve recapitulada, a gente falou então da ideia de positivo enquanto preferência: aquilo que eu prefiro à sua ausência, é positivo. Nesse caso, positivo seria sempre referente ao universo de objetos e situações. Mas falar do positivo enquanto preferência exige a generalização. Caso contrário, trataria da preferência específica de cada pessoa… que não é a intenção da Psicologia Positiva. Mas o custo disso é acabar se distanciando daquilo que as pessoas vão vivenciar especificamente no dia-a-dia delas.

Uma alternativa é tratar do positivo como relativo ao que a gente sente. Algumas sensações são positivas, outras negativas. Essa investigação ganhou o nome de Emoções Positivas. Se por um lado essa abordagem se beneficia de não lidar com as infinitas possibilidades de situações, por outro lida com nossa limitação em nomear o que se passa dentro da gente. Como o Monstro das Cores ensinou pra gente, e o Vittersø também, nomear uma emoção é algo complicado, arbitrário… e como as poesias da Adélia Prado, do Rubem Alves e do Fernando Pessoa mostram bem, as emoções são difusas por natureza. Nem todo mundo vai concordar com a definição de emoção da Fredrickson, muito menos na organização que ela faz entre positivo e negativo.

Com isso chegamos na Ética, próxima forma de explicar aquilo que é positivo, e que abraça o que para o caso das emoções é um problema: a construção semântica.

Pra começar, a relação entre ética e positivo é familiar à etimologia dessa palavra. Pausa então pra você tomar um café e não dormir com essa explicação.

Positivo vem do latim Positivus. Isso pode parecer besta, eu sei, mas esse sufixo “tivus” aí é relevante e diz sobre uma capacidade de algo. Por exemplo, “tal pessoa é cansativa”, que é a capacidade dela de cansar os outros; “tal pessoa é prestativa”, é a capacidade de ajudar… Então, Positivus é a capacidade de “Positus”, particípio passado de “Ponere” (que é o nosso verbo “pôr”). Ou seja, “Positus” seria o equivalente a “posto”.

Longo caminho pra chegar no entendimento de que o latim Positivus indicava, na sua raiz, a capacidade de pôr algo, de fazer algo posto; mais especificamente, de fazer algo presente a partir do acordo entre pessoas. Esse “Positivus” era uma referência importante àquilo que os humanos podiam colocar no mundo: as regras sociais, os combinados entre seres humanos. Positivus fazia referência ao esforço humano de organização do mundo e de como as pessoas se organizavam nesse mundo. “Não matarás” não é algo dado pela natureza, mas é “posto” por pessoas. A gente combina que não é uma coisa muito bacana sair por aí matando.

A relação que a gente pode fazer entre a etimologia e essa forma de entender positivo é que “agir de acordo com isso que é posto” é positivo; agir, pensar, desejar nos conformes do combinado entre pessoas é positivo. E note que essa relação nos leva pra perto da ideia de certo e errado, pra ideia do dever.

Bom, pensar positivo como adequação aos combinados sociais simplifica algumas coisas:

Roubar é negativo. Isso não significa que roubar não pode te fazer bem. Na real não importa se te faz bem ou não. Você pode ser cleptomaníaco, roubar só por brincadeira; não importa que você roubou para alimentar sua família que passa fome. Roubar é negativo. Você pode até acumular justificativas para atenuar o peso disso, mas roubar não vai se tornar positivo por causa dessas justificativas.

Está aí uma simplificação: a questão do quão negativo ou quão positivo é algo não importa pra esse entendimento ético. O que está definido é que desrespeitar o “não roubar” é negativo. E respeitar é positivo. Roubar um milionário? Continua negativo. Roubar uma pessoa pobre? Continua negativo. Mas qual é mais negativo? Não importa.

Positivo enquanto Ética tem a vantagem de não sofrer com a variabilidade dos atos e com a temporalidade: “roubei remédio e daí pude cuidar de minha filha doente”. A gente tem dois momentos aí e que devem ser avaliados separadamente: “roubei remédio” é negativo, “cuidar da filha doente” é positivo. Mas um não transforma o outro… 

Uma outra simplificação, essa em comparação com a ideia de preferências ou emoções, é que o Positivo no caso da Ética pode se referir tanto ao externo quanto ao interno: há muitas regras de como a gente deve se sentir tanto quanto do que a gente deve fazer. Talvez algumas regras sejam menos formalizadas, não estejam lá nos 10 mandamentos, mas ainda assim são vividas pela gente como regras. Quem nunca se sentiu culpado por algo que pensou ou sentiu? Por exemplo, algo próximo disso e muito alimentado pela Psicologia Positiva é que a gente deve se sentir feliz o tempo todo… 

Positivo enquanto Ética! Que ótimo, não? Simplifica um monte de coisa.

Mas o problema é que essa mesma simplificação, embora ela interfira naquilo que a gente chama de positivo no dia a dia principalmente, não permite responder algumas perguntas básicas da Psicologia Positiva. Por exemplo: das coisas positivas, qual é melhor fazer? Eu devo ensinar a pescar ou dar o peixe?

As escolhas do dia-a-dia nos obrigam a considerações mais complexas do que simplesmente perceber algo como respeitando ou não a ética. A gente lida sempre com casos particulares, a gente busca entender a gradação do quão positivo ou negativo é algo…

Mas, ainda que a Psicologia Positiva não consiga delimitar seu método de pesquisa por essa ideia de positivo, será que não daria para delimitar os objetos do campo a partir dessa definição? “A Psicologia Positiva estuda aquilo que é combinado socialmente como sendo o correto.”

Só de falar em voz alta isso já me dá trimilique. Seria um terror isso daí. Seria a Psicologia da família tradicional brasileira, conservadora até o tutano. Isso ia dar infinitas discussões, a maioria delas ligadas à questão do limite:

  • Quem é o porta-voz desses combinados sociais? 
  • Até onde isso que está posto vale? 
  • Quais pessoas vivem sob esse entendimento de positivo? 
  • Será que é possível a gente viver sob propostas conflitantes daquilo que é positivo? Tipo, na minha igreja são uns combinados, no meu grupo do churrasco são outros…
  • Qual o lugar das preferências, dos prazeres, dos sentimentos nesse campo? Serão ignorados?

O problema, portanto, é que se essas perguntas não forem respondidas vira uma ditadura do Positivo. 

Agora deixa eu tentar concluir alguma coisa desse mundaréu de ideias. 

Pensa na afirmação: “uma vida boa é repleta de aspectos positivos”. Essa é uma frase que todo mundo concordaria, mas que a gente concorda por definição e não porque a gente sabe o que é “uma vida boa” ou o que são “aspectos positivos”. A gente só sabe que uma vida boa tem coisas positivas, que coisas positivas fazem parte da vida boa… É do campo das coisas que a gente consegue falar mesmo sem conhecer, por exemplo: Deus, buraco negro, o nada, a morte….

E nesse sentido, cada um dos esforços de definição que a gente viu aqui ajuda em algumas coisas, mas não dá conta do recado sozinho.

A ideia de preferências é um esforço interessante por dar margem para que cada um categorize como Positivo aquilo que lhe parece positivo. Contudo, essa mesma flexibilidade dá espaço pra problemas de comparação dos critérios utilizados entre pessoas e principalmente o problema da temporalidade.

Tanto a ideia das emoções positivas quanto a da ética são menos flexíveis: as emoções positivas, pra Fredricksen, são as que alargam e constroem; o positivo na ética é aquilo em acordo com os combinados…. isso compensa certos problemas das preferências, mas gera outros sérios: e quem não se enquadra nesses critérios?

Bom, nenhum desses esforços dá conta de delimitar, portanto, aquilo que vai sendo tratado como perímetro da Psicologia Positiva. No fundo, no fundo, o uso que se faz de Positivo é mais solto, menos preocupado cientificamente. Retomando o que o Pawelski percebeu na pesquisa dele, se usa Positivo mais pra falar do propósito da Psicologia Positiva; daquilo que ela NÃO é. 

Saca só o que o Joar Vittersø escreveu sobre o verbete “Positivo” na Enciclopédia de Pesquisa em Bem-Estar e Qualidade de Vida ajuda (2014), abre aspas:

“O termo “positivo” pode ser usado para denotar um bem subjetivo ou ético, um valor, uma afirmação, uma certeza, ou como uma entidade abstrata que inclui os processos por trás dos impulsos motivacionais e suas decorrências.” (2014, p.4909).

Fecha aspas. 

O Vitterso apresenta pra gente, nessa definição, o espectro gigante do termo “positivo”. No dia-a-dia, a gente vai falando de positivo como sendo óbvio… numa mistureba de preferências, de emoções, de ética e de outras perspectivas que compõem semanticamente a ideia de Positivo. No dia a dia a gente fala sobre Positivo sem presunção de incluir todos esses significados. Até porque eles se contradizem muitas vezes.

Eu prefiro coisas que socialmente não são positivas…

Eu sinto coisas que me parecem positivas e depois me envergonho de tê-las sentidas….

Mas, de todo o modo, isso não justifica que a Psicologia Positiva siga como um bêbado cambaleando, sem se posicionar quanto ao seu principal delimitador. É muito importante o esforço do Pawelski de buscar dar um rigor científico, um norte mais bem definido para aquilo que faz parte ou não do campo, apesar das fragilidades da definição. Sem essa direção tem uma chance grande desse bêbado levar a gente pra uma vida assombrada por temas positivos: a ditadura da gratidão, a ditadura da felicidade, a ditadura do otimismo… 

Pra fechar o episódio de hoje, vou ler um trecho do já citado “Ensinar a Tristeza” do Rubem Alves, abre aspas:

“O alegrinho é aquela pessoa que está o tempo todo esbanjando alegria, dizendo coisas engraçadas, e querendo que os outros riam. Ele é um flagelo. Perto dele ninguém tem a liberdade de estar triste. Perto dele todo mundo precisa estar alegre… Porque ele não consegue estar triste, o alegrinho não consegue ouvir a beleza dos noturnos de Chopin, nem sentir as sutilezas da poesia da Cecília Meireles, nem gozar o silêncio triste da beleza do crepúsculo. Sempre alegrinho, na sua alma não há espaço para sentir a compaixão. Para haver compaixão, é preciso saber estar triste. Porque compaixão é sentir a tristeza de um outro.”

Fecha aspas.

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Espero que você tenha gostado e até o próximo episódio!

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Referências: 

Alves, R. (2005). Ensinar a Tristeza. Folha de São Paulo, terça-feira, 25 de outubro de 2005, disponível em https://www1.folha.uol.com.br/fsp/sinapse/sa2510200513.htm 

Llenas, A. (2012). O Monstro das Cores. Belo Horizonte: Aletria

Pawelski, J. (2016) Defining the ‘positive’ in positive psychology: Part I. A descriptive analysis, The Journal of Positive Psychology, 11:4, 339-356, DOI: 10.1080/17439760.2015.1137627

Prado, A. (2000). Bagagem. Universidad Iberoamericana.

http://etimologias.dechile.net/?positivo

https://www.coursera.org/learn/positive-psychology

Créditos Musicais:

Abertura:

“Flutey Funk” Kevin MacLeod (incompetech.com)

Licensed under Creative Commons: By Attribution 4.0 License

http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

https://incompetech.com/music/royalty-free/music.html

Fechamento: 

“Protofunk” Kevin MacLeod (incompetech.com)

Licensed under Creative Commons: By Attribution 4.0 License

http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

https://incompetech.com/music/royalty-free/music.html

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