Parte 3 de 3 sobre a possibilidade de medir a felicidade. Depois de dois episódios mais conceituais, esse aqui vai ser sobre causos específicos sobre o furdúncio que é esse negócio de tentar medir felicidade. Você vai perceber que eu acabei não me atendo “especificamente” à felicidade, e englobei umas outras coisas como resiliência, virtudes e positividade. Mas tem um bom motivo. Nos outros episódios eu contei que a felicidade não é bem delimitada, não tem um conceito muito claro pra ciência da felicidade e isso acaba fazendo com que a felicidade entre num pacotão de temas ou objetos avaliados meio bagunçadamente pela Psicologia Positiva.
De todo o modo, o objetivo aqui é mostrar que a mensuração dos objetos que fazem parte desse campo semântico da felicidade tem fôlego curto.
Happiness Pie
Vamos começar, então, pela história da torta da felicidade.
Em 2005 (Lyubomirsky et al., 2005), a importante pesquisadora da Psicologia Positiva, Sonya Lyubomirsky, que hoje é professora e pesquisadora na Universidade da Califórnia, publicou um artigo com dois colegas, o Kenny Sheldon e o David Schkade, em que eles apresentaram essa ideia da Torta da Felicidade. Aí a gente tem um problema muito sério a ser resolvido, porque a referência aí é ao gráfico de pizza, que, obviamente, nós brasileiros usamos a pizza como referência e não uma torta. Pessoalmente, eu acho mais fácil cortar uma pizza do que uma torta, que sempre esmigalha inteira… ponto pra pizza.
Mas, por outro lado, os pesquisadores queriam fazer uma referência também a uma expressão comum nos Estados Unidos que é “easy as a pie”, fácil como uma torta. (só não sei se é fazer ou comer uma torta). Aqui no Brasil, a gente teria que usar a expressão “tudo acaba em pizza”… que não parece muito a ver com a felicidade, a não ser que fosse a pizza literal. Ponto pra torta.
Deixando a treta entre torta e pizza de lado, que é um problema pros tradutores, o ponto, no fim das contas, era dizer que havia uma proporção da felicidade que poderia ser controlada pela gente, e que, focando nisso, seria fácil bombar a própria felicidade.
A Lyubomirksy e colegas, olhando uma série de pesquisas anteriores sobre felicidade, das mais variadas, propuseram: felicidade depende de 50% da carga genética, 10% de circunstâncias da vida e 40% depende das nossas escolhas e ações. 40% no nosso controle. Bastante coisa, né? Essa proposta ficou muuuuuito famosa e é referida por tudo quanto é canto. Seja como Torta da Felicidade, seja como Modelo da Felicidade Sustentável.
Tem um livro da Lyubomirsky, o “The How of Happiness” que tem, na capa, a imagem de uma torta faltando um pedaço. Inclusive, vi uma live no instagram na semana passada em que um coach chamou essa proposta de “equação matemática da felicidade”. Essa aí já é neologismo contemporâneo. Mas o que interessa pra gente nesse episódio é que essa proposta do “modelo da felicidade sustentável” tem um monte de furo.
- Em primeiro lugar, as pesquisas que a Lyubomirsky e colegas olharam eram muito antigas (dos anos 70) e enviesadas (com amostra de 87% de pessoas brancas)… além do viés racial óbvio, vale destacar que nos anos 70, os instrumentos de avaliação da felicidade eram mais vagos e variáveis do que hoje.
- Essa vaguidão leva para um segundo problema. Os pesquisadores agruparam objetos não equivalentes… trataram, por exemplo, avaliações de 1a 7 sobre “quão satisfeito com a vida está?” como semelhantes de “você se considera, nada feliz, pouco feliz, feliz, muito feliz ou extremamente feliz?”
- Em terceiro lugar, tem um problema na escolha de separação entre o que faz parte dos 10% de circunstâncias da vida e o que faz parte dos 40% que estão sob nosso controle. Ser demitido do emprego, seria circunstância da vida ou resultado de minhas ações? Mudar de casa seria circunstância da vida ou resultado de minhas ações? Eu ser diagnosticado com uma certa doença, como uma gastrite, é circunstância da vida ou resultado de minhas ações e escolhas de vida?
- Quarto ponto: Também é confusa a separação entre genética (responsável por 50% da felicidade) e contexto social (considerado parte das circunstâncias da vida). Por exemplo: uma pessoa é ansiosa por questões genéticas ou por questões de criação ou mesmo de escolhas ativas da vida? Sei lá, pode ter sido criada por pais repreendedores, briguentos… Juntando esse ponto com o anterior, dá pra perceber que tem uma compartimentação grosseira de aspectos humanos em genética, circunstâncias da vida e escolhas… ignorando claramente as dimensões histórica e social.
- Por fim, o quinto e último ponto tem a ver com tratamento de dados. As estimativas percentuais que os pesquisadores foram encontrando para o que eles chamaram de “genética” e “circunstâncias da vida” variavam muito nas pesquisas consultadas. No caso da genética, a variação sobre o impacto dessa dimensão na felicidade era “coisa pouca”… entre 30 e 80%. Diante disso, o que uma pessoa preocupada com o rigor da pesquisa faz? Vai lá e escolhe um ponto médio. 55%! Mas, bom, 55% não é um número redondo… 50% é muito mais vendível. Agora sim. Ciência sendo feita em sua melhor forma.
Bom, essa é só uma “fatia” (som de bateria) dos problemas com esse modelo da felicidade sustentável e o gráfico da torta. Daria para retomar outras questões, como dos problemas do método em si. Mas já falei bastante disso nos outros episódios. Minha ênfase, nesse caso específico, é no tratamento grosseiro de dados para que ele seja bonito para ser divulgado.
Em 2019, o Nicholas Brown e a Julia Rohrer, ele pequisador da Universidade de Groningen na Holanda e ela no Instituto Max Plank na Alemanha, escreveram um artigo crítico a essa ideia da torta da felicidade. Foi tipo uma voadora. Pouco tempo depois, a Lyubomirksy e o Sheldon escreveram um artigo de resposta à crítica. E essa resposta, meio retratação, meio defesa é bem curiosa. Os dois vão dizer que a ideia da torta da felicidade era especulativa e não uma teoria e, por isso, não tinha problema ficar arredondando número aleatoriamente… (o que não parecia ser o caso no artigo de 2005 e nada perto do que os livros e palestras mundo afora da Lyubomirsky evidenciaram). Além disso, eles escreveram que sim, eles aproximaram valores e superestimaram qualquer evidência do nosso controle na felicidade, mas erraram por pouco. Pois, segundo eles, pesquisas recentes têm fortalecido a ideia de que as pessoas controlam sim parte de sua felicidade, de que as pessoas podem sim viver uma felicidade longa e sustentável… Hum… basicamente eles continuaram juntando pesquisas desconectadas, que tratam de objetos diferentes e usam instrumentos diferentes.
Abre aspas para a retratação pouco retratadora de Lyubomirsky e Sheldon (2021, p.145):
“Essas críticas, com as quais nós concordamos de um modo geral, nos deram a oportunidade de articular nosso pensamento atual. Contudo, ao invés de tratar dessas críticas em detalhes, nesse artigo nós tomaremos uma perspectiva mais ampla (…) Hoje, nós sabemos que a ideia original estava correta.”
Fecha aspas.
Parece que eles tavam respondendo uma pergunta de qual era o maior defeito deles em uma entrevista de trabalho. “Ah, o defeito da nossa pesquisa foi ter tido o dom premonitório, sabe? A gente olhou dados enviesados e incompletos e a gente viu coisas… coisas que só seriam fundamentadas décadas depois pelos nossos seguidores.”
É a pior retratação de todos os tempos. Basicamente falaram que as críticas são válidas, mas não tem impacto nenhum. E com isso eles ignoram o fato de terem sido desonestos na conclusão da pesquisa de 2005; ignoram o fato de que as pesquisas atuais, que eles dizem comprovar o que haviam dito, terem se acumulado sobre um “pitaco”; ignoram também que tenha uma cacetada de publicações e informações que continuam disseminando que a “torta da felicidade” é uma verdade absoluta; ignoram a profecia auto realizadora… que o estudo de 2005 moldou a ideia de felicidade…. e, por fim, ignoram o impacto emocional que aquela coach, aquela que falou da equação da felicidade, vai ter quando souber que essa equação é uma furada. (oh no) . Acho que ela não vai dar a mínima.
Critical Positive Ratio
Se a torta da felicidade parecia boa demais para ser verdade, tem outra melhor ainda: a “Razão Crítica da Positividade” apresentada em um artigo de 2005 (Fredrickson & Losada, 2005). Quem desenvolveu essa ideia foi outra famosa pupila do Martin Seligman e famosíssima pesquisadora da Psicologia Positiva, a Barbara Fredrickson (eu já falei dela em outros episódios). Ela liderou a pesquisa, fez o experimento e deu todo o respaldo teórico, enquanto que o psicólogo organizacional chileno Marcial Losada ficou responsável pela análise estatística.
A ideia que eles defenderam é mais ou menos a seguinte: a proporção entre emoções positivas e negativas teria um efeito universal, comum a todas as pessoas. A partir de um determinado ponto muito específico nessa proporção, a gente passaria da vida miserável para a vida feliz, da míngua para o florescer. Mais ainda, essa relação universal seria verificada ao longo da história, entre diferentes povos e contextos. Quando você conseguisse passar essa quantidade específica de emoções positivas, proporcionalmente às negativas, você alcançaria a felicidade. Um grãozinho a mais de emoção positiva e voilá.
Pra pessoa sentada no escritório da Google? Rola. Pra pessoa sendo praticamente escravizada numa indústria têxtil em Bangladesh? Rola também. E pra você? Lógico que rola (Singal, 2021, p.110).
Essa história toda me lembra aquele trecho do filme “o guia do mochileiro das galáxias”, sobre o número 42 que era a resposta para todas as dúvidas do universo.
Qual então é número que a Fredrickson e o Losada encontraram? O resultado estatisticamente comprovado (comprovado entre aspas) foi….. “2.9013”, que é um número baseado na famosa (não pra mim, mas talvez para os matemáticos, físicos e pro Losada) equação matemática do Max Lorenz. (Frideman & Brown, 2018, p.241). Ou seja, se você tiver mais do que 2.9013 vezes de emoções positivas do que negativas, você terá felicidade. Agora, como aplicar isso na sua vida é um mistério… sei lá como você vai contar… e com a precisão de 4 casas decimais… De todo o modo, quatro anos depois a Fredrickson lançou um livro que virou bestseller: “Positividade: pesquisas de ponta revelam a razão de 3 para 1 que vai transformar a sua vida” (2009). Pra esse livro, a Fredrickson já deu uma arredondada no número, porque, se pra ciência 2.9013 passava credibilidade, pro público amplo só ia gerar confusão. 3 era mais fácil de processar. Lembra a Lyubomirsky arredondando os 50% da genética na torta da felicidade..,
Isso tudo parece estranho, né? Mas, é crucial lembrar da importância da Fredrickson. Ela tinha sido uma importante pupila do Seligman no início da Psicologia Positiva e até ganhou o primeiro daqueles prêmios de US$100,000.00 dados ao “pesquisador ou pesquisadora destaque do ano” da PP. A Fredrickson era vista como “A” referência no campo das emoções positivas e tinha contatinhos quentes pra ajudar. Saca só o que o Seligman e o Csikszentmihalyi escreveram no site oficial de divulgação do livro da Fredrickson.
Abre aspas para o Seligman:
“Na primeira vez que eu ouvi a Barb Fredrickson falar, um famoso psicólogo sentado ao meu lado disse “Isso é incrível!”. Esse livro, como a Barb, é “incrível”: é a combinação perfeita de ciência rigorosa com conselhos sábios sobre como ser mais feliz. Barbara Fredrickson é uma gênia do movimento da Psicologia Positiva.”
Fecha aspas e abre para o Csikszentmihalyi:
“Escrito por uma das pessoas mais influentes que contribuem com essa nova perspectiva científica, “Positividade” provê uma maravilhosa síntese do que a PP conquistou nessa primeira década de existência. Ele está recheado de insights sobre o comportamento humano, bem como sugestões úteis sobre como aplicá-los no dia a dia.”
Fecha aspas.
Não dá pra dizer que esses caras aí não estavam por dentro das pesquisas da Fredrickson. Com certeza eles tinham lido o artigo de 2005 com o Losada e “espero” que eles tivessem lido o livro antes de atrelarem o nome deles a essa “Razão Crítica da Positividade”.
Tudo lindo e maravilhoso no mundo da Psicologia Positiva até que, em 2013 começaram a rolar artigos que esmiuçaram essa ideia e, obviamente, indicaram muitas falhas na pesquisa de 2005. Só pra dar um trailer do problema apontado: o tratamento estatístico do Losada não faz sentido algum e, por consequência, as afirmações de proporcionalidade não param de pé.
E, parando para pensar, o problema estatístico não é uma surpresa. Transpor uma equação matemática pro mundo da psicologia não faz muito sentido. Pensar em equações e números aplicados ao mundo abstrato da matemática ou até mesmo ao mundo dos objetos da física é muito diferente de tentar aplicar aos objetos psicológicos… às pessoas (Frideman & Brown, 2018, p.242). E essa complicação é fácil de perceber, como o O Frideman e o Brown (2021, p.243) escreveram, abre aspas:
“[A Razão Crítica da Positividade] exige que todas as experiências emocionais tenham a mesma magnitude e duração entre pessoas diferentes para serem comparáveis, o que é absurdo.”
Fecha aspas.
Ou seja, como se conta uma emoção? Ou dou um valor a partir da frequência ou da intensidade? De ambos? Como vou saber se o que senti é uma emoção positiva ou negativa? Será que elas aparecem bem separadas ou misturadas? Ou então, exatamente quando sei que uma emoção começa e termina?…. E por aí vai.
No fim das contas, o número de 2.9013 é tão absurdo que não teve problema a Fredrickson arredondar para 3 no livro de 2009 ou então quando, em 2007, o Larsen e a Prizmic, propuseram em outro artigo que 2.9013 era muito simples. Seria muito melhor um número com infinitas casas decimais…. Os efeitos da relação entre emoções positivas e negativas seriam melhor representados pelo número pi. 3.14159265358979323846…. É interessante, né, esse esquema de uma teoria self-service? Você pega o que quiser da teoria, do jeito que quiser e tá tudo bem.
Ainda em 2013 rolou uma primeira retratação, só da Fredrickson (2013) e um pouco depois outra da Fredrickson com o Losada (2013). E essas retratações são curiosas. Na primeira, a Fredrickson dá uma empurradinha no Losada pra debaixo do ônibus, de leve. Ela diz que o que foi criticado foi a análise dele e que pode ter problemas mesmo, mas a conclusão geral da Razão Crítica da Positividade para de pé. É que o valor que varia mais do que eles supunham… artigos desde de 2005 vão evidenciando isso. Isso parece bastante o jeito que a Lyubomirsky se posicionou diante das críticas.
Já no artigo de retratação junto com o Losada, não contente com ele esmilinguido no meio da rua, ela pegou um pedaço de pau e deu nele. Sei lá que treta que aconteceu ali, mas um trechinho do resumo dá bem o tom. Abre aspas, em tese para os dois… mas acho que foi mais a Fredrickson que escreveu:
“Losada escolheu não defender seu modelo de dinâmica não-linear diante das críticas de Brown e colegas. Já Fredrickson publicou uma resposta para essas críticas em outro artigo assumindo que, apesar de ter considerado o modelo do Losada como válido no passado, ela tem, desde então, questionado seu rigor. Assim, os trechos do artigo relativos ao modelo são retirados como inválidos.”
Fecha aspas.
Depois dessa retratação algumas coisas bem massa rolaram. A primeira é que a Fredrickson e o Losada seguiram caminhos separados. A segunda é que, tanto na retratação só da Fredrickson quanto dela com o Losada eles assumem que 2.9013 não é válido, mas algo por aí, perto de 3 é. Mas mesmo essa nova aproximação numérica é desmascarada. Em 2014a, o Nicholas Brown (o mesmo ali que desmascarou a torta da felicidade) e colegas tentaram dar mais um toque: “galera, os cálculos não fazem sentido. Essa análise estatística tá toda furada… para com isso que tá dando vergonha”. A terceira coisa massa é que, mesmo com toda essa sequência de críticas, a pesquisa de 2005 e o livro da Fredrickson seguem sendo reproduzidos. O Eric Prichard (2015, p.48) escreveu o seguinte sobre isso. Abre aspas:
“Ainda que não haja razão para acreditar que os autores usaram a matemática de forma equivocada intencionalmente, ficou claro que eles não tinham ideia do que estavam fazendo e nem os pareceristas e os editores da revista American Psychologist. Infelizmente… a taxa com que o artigo de Fredrickson e Losada continua sendo citado é muito maior do que a do artigo de crítica.”
Fecha aspas.
E como evidência, tem esse artigo de 2015 (p.12) do Paolo Terni, um ano depois de toda essa novela. Ele escreveu isso aqui, ó, abre aspas:
“Fredrickson descobriu que a proporção entre emoções positivas e negativas maior do que 3 para 1 leva ao florescer, uma descoberta que se mantém de pé até hoje apesar das recentes críticas.”
Fecha aspas.
Mas, tudo bem, tem gente que acha que a história da mamadeira de piroca é verdadeira. Até dá pra entender que continuem divulgando o artigo de 2005.
A quarta coisa bem massa… e só agora eu percebi que meu uso de “massa” talvez esteja meio alargado de mais. Não é que eu ache massa-massa, mas um massa de curioso. Enfim, a quarta coisa é que o Losada segue vivo divulgando a pesquisa furada dele. Ele é tipo vilão do Dragon Ball Z, sabe? Que explode inteiro, mas sempre aparece depois… Bom, o Losada segue firme divulgando a Razão Crítica da Positividade no site da sua consultoria, a Losada Line Consulting. No site tem uma seção sobre artigos que fundamentam seu trabalho com empresas. Um desses é, óbvio, o artigo de 2005, mas tem também um de 2014, escrito por ele e publicado só no site dele mesmo (ou seja, não é examinado por pares), em que ele responde às críticas que recebeu.
Esse artigo é divertido de ler. Ele foi chutado pra baixo do ônibus, e lá está ele, dizendo que não respondeu oficialmente porque não gosta do mundo acadêmico porque prefere dedicar o tempo dele ajudando equipes a alcançar alto desempenho. E daí ele começa a criticar aqueles que o criticaram com uma lista com itens como: o Al Gore visitou meu laboratório. Alguém famoso visitou o seu? O artigo de crítica gera algum impacto positivo em equipes? Não? O meu artigo de 2005 gera incremento de 27% na produtividade de equipes. E por aí vai. E o mais interessante é que, no meio dessa lista de méritos que ele mesmo se atribui, que não tem lé com cré em termos de dizer da credibilidade do artigo de 2005, o Losada arremessa do nada o nome do brasileiro Artur Avila. E até botou uma foto do Artur Avila.. Numa pose de galã.. Sei lá, estranho. Bom, mas o importante é que o Artur Avila ganhou um tipo de nobel da matemática em 2014… e o Losada dá um enrolation master pra tentar dizer a pesquisa dele influenciou o Artur Avila.
Mas daí vem a parte mais massa. Quando questionaram o Artur Ávila sobre isso, ele que nunca tinha sido contatado pelo Losada e nunca tinha ouvido falar desse nome antes e emenda o seguinte trecho, abre aspas:
“… ele parece não ter ideia do meu objeto de trabalho. (…) De todo o modo, me parece que ele só jogou meu nome sem qualquer entendimento do que a noção matemática que ele fala significa, de verdade, para matemáticos.”
Fecha aspas.
Só pra fechar essa novela. A Fredrickson tem tido vários artigos questionados e convocados para retratação. Vou deixar uma lista dessas críticas na bio desse episódio.
Quando perguntaram para o Martin Seligman sobre o apoio que deu a ideia da Razão Crítica da Positividade ele respondeu dizendo que nunca disse que era verdadeira… só apoiou a Fredrickson. Mas ele já usou bastante essa ideia em aulas e palestras mundo afora.
Falta de preocupação com rigor…
O próprio Seligman não parece se preocupar muito com rigor das pesquisas e tem um quê de Marcial Losada. Ou o Losada tem um quê de Seligman… sei lá: é um excelente vendedor da psicologia positiva para o público amplo, um verdadeiro contador de histórias sobre os impactos das pesquisas na vida das pessoas mesmo que isso exija inflar os resultados, distorcer números.
Uma ideia chave para a PP é a ideia de que devemos focar nas nossas fortalezas, nas nossas boas características ao invés de na doença ou em tentar melhorar o que não está legal na gente. Lembrando que a PP nasceu como uma alternativa à tradicional prática da psicologia clínica. Um importante marco teórico desse posicionamento foram as Forças de Caráter que o Seligman e o Christopher Peterson desenvolveram. Eles se propuseram a sintetizar e organizar tudo aquilo que havia sido tratado como virtude ao longo da história em uma versão universal e definitiva. Todo mundo, todo mundo mesmo, teria algumas dessas virtudes como suas principais forças de caráter. Bastaria, então, identificar quais seriam essas pra usar e abusar delas para alcançar a vida feliz.
Bom, em 2005, o Seligman resolveu testar essa ideia na prática na escola de Strath Haven na Philadelphia. Os objetivos (Seligman et al. 2009) da pesquisa eram ajudar os estudantes a identificarem suas forças de caráter e aumentar o uso que os estudantes fazem dessas forças. A expectativa era que, uma vez identificadas as forças e intensificado o seu uso, os estudantes seriam mais resilientes, sentiriam mais emoções positivas e teriam maior senso de propósito.
347 alunos do nono ano participariam da pesquisa. Metade faria parte do grupo controle e a outra metade participariam em 20 a 25 aulas de 80 minutos sobre forças de caráter ao longo do ano. Esses 347 alunos seriam acompanhados por dois anos após o experimento.
Era só um testezinho pra ver se a teoria fazia sentido, mas o Seligman já recebeu US$2.8mi do departamento da educação dos EUA pra conduzir a pesquisa. Curiosamente, esse experimento nunca teve dados publicados em revistas científicas avaliadas por pares. O jornalista Jesse Singal (2021, p.114), acessando a coletânea de migalhas de dados já apresentados sintetiza, abre aspas:
“Os autores fazem afirmações vagas sobre o aumento nas notas em um dos subgrupos (o que dá para presumir que não acontece para os outros), mas não apresentam nenhuma análise estatística para suportar essas afirmações. Está claro, de todo o modo, que os resultados gerais foram decepcionantes.”
Fecha aspas.
E o próprio Seligman assume em certo ponto (2009, p.304), se referindo ao experimento como o conteúdo programático da psicologia positiva, abre aspas:
“O conteúdo programático da Psicologia Positiva não melhorou outros indicadores que medimos, como o relatório dos alunos sobre depressão e sintomas de ansiedade, forças de caráter e participação em atividades extracurriculares.”
Fecha aspas.
Ainda assim, na página da internet da Universidade da Pensilvânia, mais especificamente no Centro de Psicologia Positiva coordenado pelo Seligman se vende o “Treinamento de Resiliência para Educadores” (Resilience Training for Educators) como tendo suporte científico; afirmando que ele ajuda a “construir caráter, relacionamentos, significado e aumenta as emoções positivas e diminui as negativas”. Não tem nenhuma meta análise de pesquisas que suportem essas afirmações… Pelo contrário.
Outra ação bastante alardeada e mais complicada ainda é o Programa de Resiliência (Penn Resilience Program). Mais complicada porque tem mais grana envolvida e tão pouca ou até menos sustentação do que as forças de caráter. Se o outro treinamento era mais voltado para a educação, esse aqui é voltado para parcela da população que sofre mais emocionalmente. No caso, voltado para grupos marginalizados e para combatentes do exército.
Mas isso não é a Psicologia Positiva olhando para o adoecimento? Parece que sim, mas não. A ênfase toda é nos pontos fortes das pessoas. E o formato também é muito tentador, quando se compara com uma psicoterapia. As pessoas que dão o Programa de Resiliência são treinadas em 5 dias. Daí já estão habilitadas para conduzir 20 horas de treinamento com grupos de até 15 pessoas (Singal, 2021, p.116). Convenhamos, se isso desse certo seria a prova da genialidade do Seligman e da estupidez dos psicólogos em geral.
Abre aspas para o Seligman em discurso para a American Psychological Association em 2009:
“Baseado na avaliação de estudantes sobre seus sentimentos, pesquisadores descobriram que o Programa de Resiliência aumentou o otimismo e reduziu sintomas de depressão por até um ano. O Programa também reduziu a desesperança e níveis clínicos de depressão e ansiedade. Ainda, o Programa de Resiliência funcionou igualmente bem para crianças de diferentes raças e etnias.” (Seligman, APA, 2009).
Fecha aspas.
Vou te pegar de surpresa agora: essa pesquisa com esses resultados nunca foi publicada em lugar algum. Por outro lado, artigos de meta análise sobre o desenvolvimento da resiliência nesses Programas encontraram resultados contrários… Brunswasser & Gilham (2009) examinaram 17 estudos e concluíram que, ainda que sintomas depressivos tenham tido uma redução, ela era insignificante do ponto de vista estatístico. Recomendando que novos estudos mais rigorosos seriam recomendados antes de qualquer investimento financeiro no Programa.
Outra meta análise, de 2016, foi ainda mais dura, com os autores escrevendo, abre aspas:
“Nenhuma evidência do Programa de Resilência reduzir depressão ou ansiedade e melhorar os estilos explicativos de alguém foi encontrada (…). Uma aplicação em larga escala do Programa não pode ser recomendada. O conteúdo e a estrutura supostamente universal do Programa de Resiliência deve ser reconsiderada.”
Fecha aspas.
Isso é especialmente importante porque o dinheiro segue fluindo para esses programas coordenados pelo Seligman. Em 2018 o Departamento de Justiça dos EUA financiou a adaptação do Programa para os policiais do país e algumas Universidades, como Yale, contrataram para aumentar a resiliência de estudantes de medicina (Singal, 2021, p.121). O próprio Seligman anuncia em um relatório de 2018 que desde 2007 mais de 50.000 pessoas já tinham passado pelo treinamento sem fundamentação científica alguma.
Mais bizarro é quando a gente pensa nesse programa sendo usado pra treinar combatentes do exército antes de serem enviados pra guerra… no Iraque, Afeganistão e outros cantos, com o intuito de prevenir Transtorno de Stress Pós Traumático. Essa ideia é tão bizarra que merece uma aspas para o Nicholas Brown (2015):
“A ideia de que essas técnicas, que mostraram, no melhor dos casos, efeitos irrisórios em reduzir sintomas depressivos em crianças, possam também prevenir uma condição associada com as mais extremas situações que um ser humano pode ser confrontado é surpreendente e não parece ser suportada por nenhuma evidência empírica.” (Brown, 2015)
Fecha aspas.
Imagina você, prestes a ser enviado pra zona de guerra. Você sabe que vai vivenciar os limites da humanidade, gente explodindo, tortura… daí vem uma pessoa pra te dar um treinamento de que você deve se lembrar das coisas boas da vida(Singal, 2021, p.130). Parece simplório de mais, não?
Outros especialistas em resiliência, como o George Bonanno da Universidade de Columbia, e especialistas em Transtorno de Stress Pós Traumático, como o Richard McNally de Harvard, desconhecem qualquer dado empírico que suporte o Treinamento proposto pelo Seligman. (Singal, 2021 p.134-135).
Então por que diabos o exército americano investiu cerca de US$500mi nisso??? (até 2020 – Singal, 2021, p.138). Sei lá… mas pra eu ser educado, vou limitar minhas hipóteses aqui.
Primeiro, porque o Seligman é bom vendedor; segundo, porque a PP é toda confusa e cheia de lacunas (sejam lacunas teóricas, estatísticas e de instituições de credibilidade) que dificultam a verificação das pesquisas; terceiro porque o próprio exército americano tá envolvido agora na mutreta… investiu demais pro programa ser um fracasso. Só pra ter uma ideia, o exército americano publicou alguns relatórios com análises estatísticas com erros grosseiros, como agrupando militares mandados pra zonas de guerra com aqueles que ficam pintando meio fio. Nesse caso é lógico que vai parecer que o treinamento preveniu 100% de Transtorno de Stress Pós Traumático em quem ficou pintando meio fio, né? Isso lembra a história toda do sucesso do kit covid.
Quarto, porque a gente quer acreditar na Psicologia Positiva. É um recado tão bonito, né? A Psicologia Positiva diz fazer acontecer aquilo que a gente sempre quis que fosse verdade… Dá pra militares irem pra guerra curar o mundo de todo o mal do comunismo e terrorismo e voltarem mais fortes do que nunca (aqueles que voltarem, claro). Retornarão verdadeiros heróis e não umas pessoas todas fodidas física e emocionalmente.
Não é à toa que as críticas sejam tão pouco reproduzidas quando comparadas com as pesquisas capengas. As críticas interessam só àqueles que são pessimistas e já não vão com a cara da Psicologia Positiva (também deveria interessar a quem quer fazer ciência rigorosa, mas daí é outra história). Agora, as pesquisas tão bonitas interessam a muita gente. E dão dinheiro pacas. O Losada, mesmo esmagado na rua, faz dinheiro com essas pesquisas. O Seligman também. A Fredrickson e a Lyubomirsky também. Agora vai ver quanto que o Nicholas Brown ganha de dinheiro criticando a Psicologia Positiva. Nada. Essa semana ele tava falando no twitter (@sTeamTraen) que apareceu uma barata na casa dele e ele teve que se trancar no outro quarto.
Bom, talvez esse seja o futuro reservado pra mim. Com as baratas voadoras que atacam aqueles que criticam a Psicologia, encerro esses três episódios sobre “Se dá pra medir a felicidade”. Espero que você tenha gostado.
Quando tiver um tempo, dá um pulo na página do podcast, avessodafelicidade.com, lá você vai encontrar o contato pras minhas redes sociais, sugestões de leituras, a transcrição dos episódios e outras coisas mais.
Até o próximo episódio!
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Twitter: @lusbricker
Referências:
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Brown, N. J. L., Sokal, A. D., & Friedman, H. L. (2014a). The persistence of wishful thinking. American Psychologist, 69, 629-632. http://dx.doi.org/10.1037/a0037050
Brown, N. J. L., Sokal, A. D., & Friedman, H. L. (2014b). Positive psychology and romantic scientism. American Psychologist, 69, 636–637. http://dx.doi.org/10.1037/a0037390
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Losada Line Consulting – https://www.losadalineconsulting.net/
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Créditos Musicais:
Abertura:
“Flutey Funk” Kevin MacLeod (incompetech.com)
Licensed under Creative Commons: By Attribution 4.0 License
http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
https://incompetech.com/music/royalty-free/music.html
Fechamento:
“Protofunk” Kevin MacLeod (incompetech.com)
Licensed under Creative Commons: By Attribution 4.0 License
http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
https://incompetech.com/music/royalty-free/music.html
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