E aí, pessoal, tudo bem? Eu sou o Luciano Sewaybricker e esse é o canal “Avesso da Felicidade”. Esse episódio aqui é um pedaço da conversa que tive com a pós graduação da Fiocruz no dia 2 de Julho. O tema da conversa foi “Além dos limites da Saúde: cuidado em perspectiva interdisciplinar” que me levou pro desafio de discutir a relação entre cuidado e felicidade em tempos de pandemia. No canal do youtube deles, que o link está no descritivo desse episódio, você vai encontrar toda a conversa.
(https://youtu.be/joGJuFNLA8I)
Espero que você goste! E aproveita pra dar um pulo na página do podcast, avessodafelicidade.com, lá você vai encontrar o contato pras minhas redes sociais, sugestões de leituras, a transcrição dos episódios e outras coisas mais sobre esse enigmático tema da felicidade.
Então, vamos lá: como cuidar da felicidade na pandemia?
Falar de felicidade dá um calorzinho no coração, né? É uma coisa que todo mundo deseja e muitas vezes é aquela coisa que as pessoas MAIS desejam. Nas décadas de 80 e 90 era comum que algumas pesquisas interessadas em valores pedissem para as pessoas hierarquizarem diferentes palavras, entre aquilo que elas mais queriam e aquilo que elas menos queriam. A felicidade aparecia em primeiro lugar maciçamente. Será que alguém negaria a possibilidade de ser mais feliz ou de ser feliz? Acho que não. Ou soaria estranho se negasse.
A felicidade é tão, tão importante que ela tá na ponta da língua. A gente deseja ela nos votos de aniversário, a gente ouve dela nos jingles dos supermercados, propagandas da tevê, na música do Pharrel Willians, nos artigos nos portais, livros de auto ajuda, palestras do Ted Talk… Felicidade por tudo quanto é canto.
Mas, curiosamente, a gente não sabe definir o que é felicidade. Se eu perguntar pra cada um de vocês o que é felicidade, vocês vão me dizer, muito provavelmente, algo diferente.
Então, a felicidade tem esse quê de enigmática: a gente deseja a felicidade, a gente fala dela de monte, mas a gente não sabe dizer bem o que é essa coisa que a gente deseja e da qual a gente fala…parece até absurdo a gente querer tanto uma coisa que a gente não sabe o que é…
Bom, é dessa felicidade, portanto, que eu quero conversar com vocês aqui hoje. Qual o lugar dessa felicidade em meio à pandemia? Faz sentido a gente falar dela em um momento tão caótico quanto o atual? E, caso faça sentido, qual a relação entre cuidado e felicidade?
Então vamos lá.
E pra começar essa conversa, deixa eu reforçar essa ideia de que a felicidade já recebeu as mais diversas definições. No fundo no fundo, se vocês pesquisarem na internet, vocês vão conseguir achar que felicidade é qualquer coisa. Só jogar no google, “felicidade é….” que já vão ter uma bela amostra.
Mas essa confusão não é de hoje, ela é histórica. Deixa eu citar alguns casos aqui.
No livro do grego antigo Heródoto, chamado A História, que é muitas vezes referido como o primeiro registro histórico dessa ideia da felicidade, é relatado o encontro entre o sábio peregrino Sólon e o tirano rei da Lydia Croesus. O Croesus tinha um poderoso exército, tinha conquistado todas as regiões ao redor da Lydia, tinha uma castelo belíssimo e riqueza até não aguentar mais. O Croesus tinha certeza que ele era feliz. E mandou trazerem o Sólon até ele pra confirmar essa hipótese. Mas o Sólon não concordou. Pro Sólon a felicidade não podia ser avaliada a partir de posses. Mais ainda, a felicidade tinha a ver com uma vida virtuosa e abençoada. E essa benção só poderia ser avaliada ao fim da vida de alguém. Pro Sólon não adiantava nada eu fazer minha parte e ser justo, honesto, mas daí eu ser acometido por uma doença e sofrer muito ou levar sofrimento pras pessoas ao meu redor. Não faria sentido dizer, pro Sólon, que essa pessoa era feliz. Lógico que o Croesus não curtiu a resposta e tentou matar o Sólon, que teve que sair fugido ali da Lydia.
Um pouco depois, no auge da Grécia Antiga, o Aristóteles escreveu o que provavelmente é a primeira sistematização teórica sobre a felicidade. O livro Ética a Nicômaco tinha essa função. E, voilá, o Aristóteles escreveu sobre uma felicidade diferente daquela do Sólon e do Croesus. Pro Aristóteles, felicidade tinha relação com viver a vida conforme a natureza humana, que seria basicamente viver em comunidade guiado da melhor maneira possível pela razão. Resumo da ópera: você filosofar, contemplar o mundo e usar essa reflexão pra exercitar cotidianamente a ação virtuosa levaria à felicidade: que é uma atividade em acordo com a alma. A felicidade pro Aristóteles seria, portanto, uma atividade. Exigia esforço e não tinha uma fórmula correta de como se expressaria. Por exemplo, não faz sentido falar pura e simplesmente em generosidade enquanto virtude. É preciso prática e reflexão pra entender o momento correto de ser generoso, em relação à quem, em qual quantidade… Por isso que a filosofia era crucial.
Já na Roma Antiga, a gente tem uma outra ideia de felicidade proposta pelo Santo Agostinho. Felicidade para ele consistia em estar com Deus. Mas aí a gente tem um problema: em vida a gente tem só umas migalhas de Deus, umas pistas dele… a gente só vai ter a chance de estar com Deus mesmo depois que a gente morrer, na pós-vida. Lá que a gente vai ser verdadeiramente feliz!
Avançando bastante no tempo, a gente tem uma outra distinta forma de felicidade proposta pelos utilitaristas ali pelos séculos XVIII e XIX. Pros utilitaristas, muito interessados em aplicações políticas, a felicidade era o resultado simples da soma dos prazeres, menos a soma dos sofrimentos. Se você tem um histórico de mais prazer do que sofrimento, meus parabéns, você é feliz. (como de fato fazer essa equação, são outros quinhentos que ninguém conseguiu resolver, mas não é isso que importa aqui). O importante é que a felicidade para os utilitaristas era individual: só eu sinto o meu prazer, ninguém senti ele por mim… a felicidade também se tornava graduável: você pode ser um pouco, médio ou muito feliz…. a felicidade era comparável: o cálculo da felicidade de um podia ser comparado com o de outra pessoa.
Essa ideia utilitarista, apesar de não ter sido realizada plenamente, influenciou muito a política da época, na constituição escrita pós Revolução Francesa e na Declaração da Independência dos Estados Unidos. E também influenciou muito a ciência da felicidade. Daqui a pouco eu falo mais sobre ela, mas só pra dar uma pitada, o entendimento geral é que felicidade consiste em uma experiência psicológica. O que isso significa? Uma versão utilitarista com um pouco mais de complexidade. A felicidade é também individual, comparável e graduável, sendo algum tipo de balanço entre o lado afetivo (dos prazeres, digamos assim) e a avaliação racional da vida (que vão chamar de satisfação com a vida).
Então a gente tem uma histórica polêmica… mas dá pra dizer que chegamos em um consenso com a ciência da felicidade? De forma alguma. Só pra ter uma ideia, três dos mais influentes pesquisadores do campo têm definições muito diferentes.
O Ed Diener, recentemente falecido, preferiu substituir felicidade por Bem Estar Subjetivo (pelo simples motivo de ter mais credibilidade na comunidade científica). Esse Bem-Estar é medido como sendo 50% afetos e 50% avaliação cognitiva da vida.
Já a Carol Ryff, propôs uma variação: Bem Estar Psicológico. Que seria avaliado a partir de 6 pilares como autonomia, maestria, propósito na vida e outros.
Já o holandês Ruut Veenhoven, propôs que felicidade seria simplesmente a avaliação cognitiva da vida como um todo, a satisfação com a vida.
Bom, essa é só uma pitada. Hoje existem mais de 2.800 instrumentos diferentes de avaliação da felicidade….
Então vamos lá, nessa pequena amostra de autores, deu pra ver a pluralidade da felicidade: felicidade avaliada por outros ou por si mesmo; felicidade avaliada pontualmente ou só ao fim da vida; avaliada racionalmente ou abstratamente; felicidade relativa ao divino, às virtudes, aos prazeres, à política…
Como se isso não bastasse, dá pra complicar ainda mais se a gente considerar que cada uma dessas pessoas falou de felicidade usando palavras distintas… eudaimonia, makarios, eftýchia, felicitas, beatitudo, happiness, felicity, bem estar, satisfação, prazeres…
A felicidade é um baita nó.
Mas deixa eu fazer uma pausa agora para responder uma das perguntas que eu levantei antes. Faz sentido falar de felicidade na pandemia?
Lógico que vai depender de como você entende a felicidade… mas de alguma maneira parece que a gente consegue encontrar formas de ir ajustando a ideia de felicidade ao contexto que a gente vive. O Epicuro e o Zenôn de Cítia, dois importantes filósofos gregos, propuseram suas ideias de felicidade justamente no momento em que a civilização grega estava ruindo. Período de desmoronamento político (desgoverno), muitas guerras, escassez de recursos… e curiosamente a felicidade que ambos propuseram eram felicidades que se pretendiam ser “imunes” ao acaso/à sorte. Pro Epicuro, a felicidade seria você conseguir, racionalmente, filosofando muito, sofrer o mínimo possível e potencializar a experiência prazerosa. Não seria todo e qualquer prazer que interessa, porque alguns acabam gerando sofrimento depois, alguns prazeres que a gente deseja viver (como ganhar na mega sena) não dependem da gente… nem sofrer por qualquer coisa, pois tem medos que, pro Epicuro, são criações nossas, como o medo da morte: como posso ter medo de uma coisa que eu nunca vivi? e quando ela chegar, já não estarei vivo? Como o filósofo francês Comte-Sponville sintetiza muito bem, a proteção contra o caos dessa filosofia do Epicuro é a desesperança: deixar de esperar por aquilo que não está ao nosso controle e potencializar aquilo que controlamos.
Algo muito parecido rola com a filosofia estóica proposta pelo Zenôn de Cítia, mas ao invés de se basear nos prazeres, ele se baseia na verdade. A felicidade, pros estóicos, consiste em conhecer o logus, a verdade do mundo. Se você sabe como o mundo funciona, você não vai ser perturbado pelas coisas que acontecem. Tem uma famosa passagem e meio perturbadora sobre o sábio pros estóicos, que é a pessoa feliz: o verdadeiro sábio, vendo sua casa em chamas, com sua família lá dentro, sabendo que nada pode fazer, dá meia volta e se distancia imperturbado. Afinal, casas pegam fogo e pessoas morrem. Nada ele pode fazer contra isso.
O importante aqui é notar que a ideia de felicidade dialoga com o contexto em que se vive… e também pode se moldar aos piores cenários. E, olha, talvez a gente seja especialista nisso aqui no Brasil. Tem uma passagem curiosa do filósofo francês, Clément Rosset (1989, p.7), no livro A Lógica do Pior, em que ele escreva algo mais ou menos assim:
“Os meus amigos que passaram um tempo no Brasil retornaram todos com uma impressão comum: de uma excepcional animação e alegria de viver, junto a um sentido agudo do desastre e da catástrofe iminentes.”
O Carnaval é meio que isso né?
Agora, deixa eu me aprofundar um pouco na ciência da felicidade, porque ela se aproxima da ideia do desastre, do apocalipse de um jeito particular.
Eu falei sobre o Ed Diener, a Carol Ryff e o Ruut Veenhoven, mas eles produziram suas pesquisas em uma época que o campo ainda estava em formação, difuso. Essa unidade vai rolar pra valer em 1999, quando Martin Seligman, que era presidente da American Psychological Association na época, discursou e institucionalizou a Psicologia Positiva. E o objetivo dela, anunciado pelo Seligman, era, basicamente, acabar com essa bagunça e incompetência filosófica e finalmente medir e produzir felicidade. E o empreendimento decolou. Em menos de 3 anos, a Psicologia Positiva já tinha angariado quase US$40 milhões, já tinha importantes revistas científicas, congressos e conferências, já distribuía o maior prêmio anual a um pesquisador do campo, de US$100 mil… Então, em um certo sentido, a gente precisa assumir que a Psicologia Positiva deu certo…
Bom, duas coisas que você pode estar se perguntando: Psicologia Positiva e Ciência da Felicidade são sinônimos? Não são. Mas dada a força e a presença da primeira, dá pra dizer que muito do que rola na ciência da felicidade acontece como Psicologia Positiva, compartilham dessa missão da Psicologia Positiva.
Outra pergunta: como é possível medir essa coisa que a gente não sabe bem o que é? Essa pergunta merece um pouco mais de atenção, porque ela trata da principal fragilidade da Psicologia Positiva.
Primeira coisa: notem que o debate histórico sobre a felicidade trata, de um jeito ou de outro, de uma determinada ideia sobre a “melhor forma de se viver”. O Sólon e o Croesus diziam sobre isso, o Croesus entendendo que a melhor vida era a de posses, o Sólon entendendo que era a vida virtuosa e sem infortúnios. O Aristóteles, que era a vida da prática rigorosa e cotidiana da filosofia e das virtudes. O Santo Agostinho, que era a vida fiel a Deus que encontraria sua melhor versão depois da morte…
Encerrar esse debate, tal qual a Psicologia Positiva pretende, exige que a gente tenha desvendado, em definitivo, o que significa ser humano e qual, dentre as infinitas maneiras da gente viver, que é a melhor. Bom, como os filósofos existencialistas já diziam: primeiro a gente existe e só depois que a gente vai tentar dar um sentido pra isso… ou seja “ser humano” é um enigma, pra fazer uma referência ao Heidegger, é algo que a gente atribui sentido, que a gente inventa enquanto vive.
Imagina então, uma hipótese, de que a Psicologia Positiva desvende completamente a felicidade e possa produzi-la… a gente vai ter então um manual de como viver. Quer vida mais chata do que a vivida segundo um manual?
O que eu quero dizer com isso? Que a tentativa da Psicologia Positiva de encerrar o debate da felicidade, no fundo no fundo, só está adicionando mais uma versão do que é felicidade no pacotão da história. Na verdade, não uma mas milhares de versões, já que não tem consenso dentro da área sobre o que é felicidade, bem-estar e afins.
Mas, de todo modo eu não sou de outro planeta, eu sei que tem uma monte de pesquisa que se propõe a medir felicidade, que apresentam resultados, que dizem que praticar gratidão aumenta a felicidade, que o otimismo aumenta a felicidade…. e por aí vai.
O que então essas pesquisas estão medindo? Boa pergunta…
Os instrumentos de avaliação da felicidade não tem validade conceitual (que é a ideia de garantir que estão medindo aquilo que se propõem). O que faz muito sentido, já que a gente não sabe dizer bem o que ela é, não tem consenso sobre o que é felicidade.
Então como pode ter algum instrumento que se pretende medir felicidade? Os pesquisadores vão se contentar com a ideia de validade de face, ou seja, “parece que o instrumento avalia aquilo que se propõe?” ou ainda, quando a gente pergunta pra alguém “de 0 a 10, quão feliz você é?” essa pessoa entende a pergunta? Em geral as pessoas respondem numa boa, quando você deseja felicidade no aniversário de alguém, essa pessoa entende o que você quer dizer.
Mas eu quero chamar a atenção pro fato de que entender o que quer dizer ou entender a pergunta não significa que eu tenho um conceito sobre felicidade. Por exemplo, eu sei que em um velório não é um lugar adequado para eu falar de felicidade, eu sei que a ideia de alguém sorrindo está associada com a felicidade, que a ideia de alguém bem sucedido no trabalho, na vida social está associada com a felicidade… mas isso não significa que eu consigo juntar tudo isso em um conceito adequado de felicidade ou avaliar a minha vida de forma completa em relação a essas “ideias”. O que um instrumento de avaliação da felicidade vai acabar avaliando, ao contrário, é o quanto alguém entende essas regras sociais de uso da palavra “felicidade”… se avalia o senso comum, mas que muitos pesquisadores da Psicologia Positiva entendem ser prova cabal de que existe uma coisa bem delimitada aí dentro de cada um, a felicidade.
No fundo, no fundo, a Psicologia Positiva vive um grande dilema que inviabiliza seu próprio objetivo de medir e produzir felicidade: se ela considerar toda a complexidade dessa ideia da felicidade, de toda a complexidade da “melhor forma de se viver”, ela não vai conseguir construir instrumentos de avaliação graduáveis, comparáveis… e, por consequência, produzir felicidade. Agora, se ela simplificar bastante a felicidade pra conseguir medir com precisão, por exemplo, considerando a felicidade equivalente ao assinalar um “X” em uma pergunta “de 0-10 quão feliz é?” ou ser equivalente à imagem de uma ressonância magnética do cérebro, ou ao tempo que você passa sorrindo…. parabéns, você agora mede e pode produzir! Mas não é, nem de perto, aquela coisa que movimenta a todos nós, que dá o calorzinho no coração…
Se o objetivo da Psicologia Positiva, anunciado lá em 1999, é medir e produzir, já dá pra imaginar a escolha que tem sido feita.
Mas e a gente com isso tudo? O que eu faço com a felicidade em meio à pandemia?
Os resultados das pesquisas da Psicologia Positiva, como “você controla 40% de sua felicidade!”, “exercite o otimismo”, “maximize os sentimentos positivos”, “pratique gratidão” dizem sobre um tipo de felicidade que é a da ignorância: da necessidade de eu ignorar ou manter distância daquilo que pode abalar os meus sentimentos “positivos”… e a ignorância em relação à própria complexidade do que significa viver.
O Rubem Alves, no conto “Ensinando a Tristeza”, chama isso de felicidade do “alegrinho”. Pro alegrinho, a vida ideal é a do sorriso sem fim, da vontade de saltitar, de desejar somente as emoções positivas. Não devo pensar nos mortos, mas nos curados; não devo estar próximo de pessoas tristes, só daquelas que me contagiam com alegria; se estou ficando meio pra baixo, vou ignorar a pandemia e vou promover sentimentos positivos indo em uma festa! …
Se a Psicologia Positiva, super financiada e com a credibilidade de grandes instituições de educação, está dizendo que já desvendou pelo menos parte da felicidade, por que eu devo me dar o trabalho de questionar?
Mas essa ignorância tem fôlego curto. Porque a vida é inevitavelmente muito mais do que isso. O Freud escreveu que o mal-estar nos acompanhará pelo simples fato de sermos humanos em um mundo e entre pessoas que a gente não controla. As coisas acontecem à nossa revelia e a gente sofre, a gente se sente desajustado…. Achar que isso pode ser superado vai levar a uma dupla infelicidade: a do sofrimento inerente e a da incompetência de não ser feliz mesmo com um “manual”, um “passo a passo”… não à toa o adoecimento mental tem aumentado mesmo com a ciência da felicidade se dizendo cada vez mais avançada…
Só pra ter uma dimensão, no Brasil, entre 2019 e 2020, a venda de antidepressivos e estabilizantes de humor cresceu 5.75%, chegando no consumo de 3.76 bilhões de comprimidos. Se a gente colocar todos esses comprimidos enfileirados, dá pra dar a volta na Terra… Não sei se vocês viram, mas o último episódio do Greg News foi sobre a incidência alarmante do adoecimento mental. Ou seja, essa ignorância em relação à felicidade tem fôlego curto.
Agora, se a gente entender que a felicidade é um enigma… que é o resultado de uma busca sempre parcial sobre qual é a melhor de se viver, a gente pode muito bem entender que a tristeza, o luto, a raiva, que gritar pela janela podem sim caber na felicidade. Viver, ser humano, inclui tudo isso é são partes de experiências riquíssimas. Estar próximo de quem sofre e está triste, faz parte de uma vida em comunidade; ser pessimista faz parte de uma reflexão profunda sobre o mundo e as coisas…. medir e produzir felicidade é estreitar o que significa ser humano.
Tem uma frase belíssima do Valter Hugo Mãe no livro O Filho de Mil Homens que é assim “Ser o que se pode é a felicidade”. Se a felicidade diz sobre a melhor forma de se viver, a gente vai sempre viver o mais próximo possível dessa ideia da felicidade (muitas vezes carregada de um ideal). Isso porque ninguém faz nada pensando que é a “pior forma de se viver”, a gente só age em função daquilo que acha ser a “melhor forma”…. ainda que o resultado muitas vezes dê bem errado… mas o que sempre nos move é a “melhor forma”.
Se você discordar de mim e pensar como a Psicologia Positiva, daí talvez seja impossível a felicidade na pandemia ou como mencionei, só seja possível dentro de uma bolha. Agora, se você concordar (pelo menos um pouco) comigo, daí a questão importante talvez nem seja “ser possível ou não a felicidade”, porque a gente nunca vai ter uma resposta fatídica pra isso. A questão importante é “como eu cuido da felicidade?”. A felicidade não faz parte do modo de cuidar, não é o meio, mas é o próprio objeto a ser cuidado.
Cuidar da felicidade consiste em preservar essa abertura, esse enigma do que é a “melhor forma de se viver”. E esse viver nunca acontece isolado do mundo. É sempre um viver com outros. Portanto, não é só a reflexão e abertura pra cuidar da minha “melhor forma de se viver”, mas da dos outros também.
Esse cuidado à felicidade se faz importante sobretudo em meio à pandemia que vivemos, quando a vida de muitas pessoas é tratada de modo muito estreito… parece ter se tornado um número, as pessoas se tornaram coisas… “abre o comércio porque vale a pena que alguns morram pra economia se manter aquecida”, “bora deixar gente morrer pra ter imunidade de rebanho”, “bora aproveitar o caos pra passar a boiada”… é nesse momento que cuidar da felicidade se mostra crucial, porque é uma das formas de mantermos ou resgatarmos a humanidade em meio ao apocalipse.
