Episódio 19 – Utopia e a invenção de mundos

E aí, pessoal, beleza? meu nome é Luciano Sewaybricker e esse é o avesso da felicidade. Olha eu aqui tentando fingir que tá tudo normal, que não faz, o quê?, uns 6 meses que eu não dou sinal de vida… eu adoraria viver uma vida com um pouco mais de horas. 30 já ajudaria bastante. Um mundo que minhas ideias de episódios se concretizam sem precisar que eu sente a bunda na frente do computador… Bom, podia estar matando, roubando, mas não, tô aqui na humildade só querendo gravar um episodinho de boa, atrasado, mas de boa. Então vamo lá. 

Deixa eu contar para você sobre a Cocanha. A Cocanha é um país sobre o qual se falava na Idade Média, e que virou um babado só na França do século XI,  com canções e poesias que falavam sobre ela. 

 Na Cocanha ninguém trabalha, o sexo rola livremente, sem pudores, tem alimento de sobra, existem lojas, mas nenhum produto é cobrado (afinal, ninguém pode ter o trabalho de ficar no caixa), o clima é sempre bom. Até aqui não tá tão longe do carnaval, com a diferença que no carnaval não só te cobram pelas coisas, como também te assaltam vez por outra. Mas não é só isso, na Cocanha ninguém envelhece, os rios são feitos de leite ou de vinho, as montanhas são feitas de queijo, a chuva também é de queijo… é o terror dos intolerantes a lactose ou de todo mundo se esse queijo for gorgonzola.

Bom, A Cocanha é um país inventado. E inventar mundos é uma coisa que todo munda já fez e continua fazendo. A gente inventa mundos desde criança, enquanto brinca, quando a gente assiste um desenho que se passa em um lugar fantástico… quando a gente fica mais velho, em geral, nossa imaginação fica menos rica, mas ainda assim a gente inventa mundos… Talvez isso se mostre, como num lampejo, em época de eleição. Quando a gente escolhe votar em x ou y, a gente imagina que aquela pessoa, x ou y, vai nos conduzir para um mundo melhor.

Bom, o ponto é que esse inventar mundos é algo que rola, que tá aí. E essa ação tem alguns nomes: fantasia, imaginação… ou utopia. É esse último que interessa mais pra gente porque transporta a conversa pra perto da felicidade. Utopia e felicidade são ideias que têm um parentesco. E meu objetivo com esse episódio é tentar mostrar porque essas ideias são próximas e porque exercitar nossa capacidade de utopizar é importante.

Então vamos lá. Primeiro passo é entender o que é utopia.

Quando a gente falar em fantasia ou imaginação em geral a gente se refere a algo sem muito contorno: eu fantasio grandes ou pequenas cenas da vida, como as fantasias sexuais; a imaginação também pode ser de algo grande ou pequeno, eu posso imaginar uma xícara de café aqui na minha frente agora ou um dinossauro de boné. Já a utopia tem um contorno mais específico que nos interessa.

Porém, vale a ressalva aqui de que o uso comum de utopia não respeita aquilo que eu vou propor aqui. Infelizmente um problema sério do mundo é que as pessoas continuam falando e pensando diferentemente daquilo que eu acho.

No uso comum, as pessoas chamam de utópica aquela ideia descolada da realidade, aquela ideia improvável. “É utópico achar que o comunismo pode dar certo”, “é utópico achar que vai conseguir viver só de café”. Mas nota que o uso corrente de utopia, embora seja mais genérico, se refere sempre a algo bom. Aquilo que é dito descolado da realidade, que é considerado impossível é uma coisa boa (para quem a propôs, claro), seja o comunismo ou o café. Isso é diferente da imaginação ou da fantasia, que nem sempre são coisas que a gente quer que aconteça.

Deixa eu tentar delimitar um pouco melhor o conceito de utopia. Essa palavra, Utopia, nasceu com o livro do Thomas Morus chamado…. Utopia. Tcharán. A trama do livro é a seguinte: o explorador-navegador Fernando Hitlodeu conta para dois amigos, incluindo o próprio Morus, sobre sua expedição até a ilha-reino Utopia (vale lembrar que o Morus escreveu o livro bem na época das grandes navegações). E nesse papo entre os três, o Hitlodeu dá um nível de detalhe invejável sobre essa ilha que encontrou. O nível de detalhe é uma loucura, então só vou mencionar algumas coisas por aqui.

Utopia foi fundada pelo grande rei conquistador Utopus 1700 anos antes do Hitlodeu chegar lá. Utopia foi dividida em 54 cidades estados com língua, tradições, costumes e leis idênticas; o sistema político era democrático: os mais velhos de Utopia pegavam uma lista de 4 pessoas mais votadas pelos cidadãos do país e escolhiam aquela pessoa que seria um governante “mais útil” (pra usar as palavras do Morus). Esse governante ficava lá até morrer…. as casas eram feitas de pedra ou tijolo e não tinham mais do que três andares, mas tinham (todas) um belo jardim, cujo cultivo era um dos grandes prazeres dos utopianos; todo cidadão contribuía trabalhando na agricultura e também com alguma outra habilidade que aprendia, como tecelão, ferreiro ou carpinteiro. O dia de trabalho em Utopia tinha 6 horas e bastante tempo para lazer, embora, abre aspas para o Morus:

“não haja nenhum pretexto para o ócio – nenhuma taberna, nem lugares de prostituição, nem oportunidade para corrupção, nem antros ocultos, nem assembleias secretas. Pelo contrário, expostas aos olhares de todos, as pessoas dedicam-se a realizar o trabalho comum ou a curtir seu lazer de uma maneira decente.” (citado em Clayes, 2013, p.65)

Fecha aspas.

No caso das mulheres, a principal responsabilidade delas era cuidar das casas e cozinhar para toda a comunidade, que fazia refeições em conjunto. Não havia trocas em dinheiro, sendo que as pessoas podiam pegar o que elas precisassem de armazéns públicos… Bom, daria para continuar mais um tempão aqui. Mas acho que deu para sacar que Utopia era esse lugar de muita unidade, comunalidade, um sistema político claro, regida por mais velhos, alheia ao dinheiro e com boa dose de conservadorismo dos bons costumes. Nada de golden shower por lá.

E para além da descrição de Utopia, o próprio nome “utopia” é bem importante pra gente. Tão importante que essa palavra, inventada pelo Morus, ficou marcada e continua sendo usada até hoje. Eu já falei essas coisas em algum outro episódio, não lembro qual, mas vou falar de novo. A palavra utopia começa com a letra U, que no grego significa, mais comumente, uma negação e, menos comumente, significa “bom”… considerando o U como uma contração da palavra “EU” grega (o mesmo EU de eudaimonia). Tem algumas discussões de historiadores sobre se o Thomas Morus dominaria o grego antigo suficientemente pra conhecer essa contração de EU como U. O consenso é de que sim… mas, né, bom avisar (Quarta, 2006, p.35; Falcon, 2006, p.165). Curiosamente, a primeira edição do livro em italiano foi lançada como Eutopia ao invés de Utopia (Clayes, 2013). Voltando pra palavra, utopia termina com “topos” que, no mesmo grego, significa um lugar, um espaço geográfico… e a gente usa esse topos em topologia, topografia…

Utopia, então, significa o “não lugar” e o “bom lugar”. E a ilha Utopia continha esses significados: ela não existia, era uma invenção do Thomas Morus, e ao mesmo tempo era uma idealização, a descrição de um outro mundo-comunidade contrastante com o reino da Inglaterra, que o Morus habitava e criticava.

A obra do Morus ficou muito conhecida, vendeu pacas, o rei Henrique 8º no começo achou legal e depois não curtiu mais. No fim acabou condenando o Morus por traição. O bom lugar do Morus, não pareceu bom aos olhos do escolhido por Deus para governar… que mandou cortar a cabeça do Morus.

O ponto é que a Utopia inventada por Morus ficou tão famosa que inaugurou uma categoria à parte das invenções de mundo: utopia é um tipo de invenção de mundo com descrição detalhada de seu funcionamento, sua dinâmica, sua estrutura, seus processos. É um projeto de mundo imaginado em funcionamento. Isso é diferente da Cocanha, por exemplo. A Cocanha é como uma foto de um lugar muito louco, que deve ser divertido, mas está muito longe da realidade, é uma fantasia. Como pode ter loja que tem produtos sem custo se ninguém trabalha? Quem fez os produtos, quem colocou na prateleira? As pessoas só bebem leite e vinho… não bebem água? Que tipo de telhado preciso ter na minha casa contra chuva de queijo? No mínimo vai entupir a calha direto. Perguntas todas igualmente importantes, e que indicam uma grande diferença praquilo que o Morus propôs.

O Morus então inventou uma palavra que nomeou o gênero, mas isso não significa que ele inventou o gênero… o gênero da invenção detalhada de mundos bons e não presentes.

Lá na Grécia Antiga, o Platão escreveu o livro A República no qual ele propunha uma nova organização social. O que o Platão tinha ao redor dele, a democracia, não tava funcionando muito bem. Mandaram matar a pessoa mais abençoada de todas, aquela que tinha verdadeiramente o Bom Demônio com ela (eudaimonia), que era o seu mestre Sócrates. Conclusão do Platão: esse tipo de organização social-democrática era uma bosta. Deixar as pessoas em geral terem poder só podia dar ruim. As pessoas são burras, querem coisas estúpidas, acreditam em fake News… porque alguém em sã consciência daria poder para elas?

Pro Platão, seria muito melhor uma outra sociedade guiada pelas pessoas que verdadeiramente sabem das coisas: toca pra escanteio o povo e traz pro centro os filósofos. Esses sim são sábios. O Platão, então, tratou de descrever a estrutura e a dinâmica dessa nova e melhor sociedade. Cada um tinha um papel: o povo, que não controla os desejos e faz um monte de merda, vai trabalhar. Gastar energia botando a mão na massa e produzindo o necessário pra cidade sem sobrar muito tempo para querer meter o bedelho onde não deve. Aqueles cidadãos mais virtuosos, que conseguem se controlar, seriam os guerreiros ou guardas. Por não desejarem ou desejarem poucas coisas (sinal de virtude), eles seriam incorruptíveis e estariam dispostos a se sacrificar quando necessário. Vai tentar subornar um policial que não quer nada… Vai tentar intimidar alguém que não teme a morte… Se você não quer e não teme nada, não vai ter medo de combater os perigos. Por fim, aquelas pessoas mais especiais, que além de virtuosas são muito sábias, que amam a verdade e a buscam constantemente, deveriam ocupar a função de governantes. A República seria um governo do rei-filósofo que tomaria decisões orientado somente pela verdade e nada mais.

Então, a República tem uma descrição minuciosa, uma certa dinâmica que parece funcionável, um contraste com Atenas, que é um lugar que existe. Alguns diriam que não é uma utopia porque não chegou a ser algo consideravelmente distante do que acontecia, não foi tãooo inventado. Mas daí é entrar em uma discussão que não tem fim.

Mais inventado que A República são os mundos de obras literária. Duas histórias que apresentam mundos complexos e inventados, com paralelo no mundo real são as obras mítico-fundadoras de Gilgamesh, e Bhagavad Gita. Elas falam do mundo de suas épocas ao mesmo tempo em que apresentam um outro, inventado… mas que não é apresentado em termos de dinâmica. Mesma coisa poderia ser dita da ilha de Calipso onde Ulisses chega durante suas viagens. Ou então, um tanto depois, ali pelos 300, 400 depois de Cristo, da Cidade de Deus apresentada pelo Santo Agostinho.

Tão mais para Cocanha do que para Utopia.

Outro exemplo que parece utopia, mas não é, tá mais distante, são as Cidades Invisíveis do Ítalo Calvino. Cidades Invisíveis é o nome do livro dele, de 1972. Nessa história, aparentemente inspirada em Utopia, o explorador Marco Polo tem que descrever cidades longínquas que ele visitou para o rei-dominador-intimidador Kublai Khan. Parece com Utopia, mas a diferença é que no Cidades Invisíveis não tem uma dimensão idealizada. Há um puro exercício criativo de apresentação/descrição detalhada de não-lugares, mas que não são bons-lugares.

Apesar do balanço entre distância e proximidade, entre fantasia e factibilidade, entre descrição profunda e rasa, todos esses mundos possuem algo em comum. Todos estão dialogando com uma dimensão idealizada da vida. Estar em uma ilha que ninguém morre pode muito bem ser a visão da vida ideal pra quem propõe isso. Estar em um lugar que a comida não falta e que é tão abundante que até chove queijo… Pros franceses é uma visão ideal da vida. Ou seja, independentemente das oposições que falei antes, todas as propostas dialogam com uma imagem da vida ideal. Nas apresentações utópicas, contudo, tem um amadurecimento das reflexões e, inclusive, a consideração da impossibilidade de uma vida perfeita: na ilha de Utopia, por exemplo, haviam crimes. Há um esforço de transposição do ideal para o real.

E uma coisa incrível das utopias ou quase utopias é que, na medida em que falam do “bom” elas geram impacto nas pessoas, elas afetam as pessoas. 

Pensa no caso de uma ideia qualquer ou uma imaginação, seja a do Ítalo Calvino ou, sei lá, de um hobbit no Senhor dos Anéis. Depois do filme, você tá contaminado naquilo que pensa sobre hobbit, como acha que eles podem ser… mais ainda se você não tinha nenhuma ideia do que era um hobbit antes do filme. Mesma coisa vale para imaginar uma vila, uma cidade, um país, uma vida… Falar sobre utopia afeta como as pessoas sonham mundos possíveis (distantes, mas possíveis). Histórias sobre Atlantida, Shangri-lá e Eldorado afetaram muitíssimo muitas pessoas, muitas pessoas foram movidas por essas ideias utópicas (em especial na época das grandes navegações e explorações renascentistas).

Beleza. Utopias afetam como sonhamos mundos possíveis. Mas a coisa não é tão simples. Porque isso que é utopia (o ideal) para uns, pode muito bem não ser para outros. Utopia para uns, distopia para outros. Nesse caso, a chegada dos europeus nas américas é um exemplo perfeito. Pros povos originários foi uma porcaria a chegada dos europeus. O modo de vida dos europeus não era em nada almejada pelos indígenas, as ideias de Shangri-la, Atlantida e Eldorado em nada eram ideais para eles. Aquilo que os europeus almejavam, as cidades douradas não faziam sentido nenhum. Tanto é que os Incas, de saco cheio com a doença do ouro que os espanhóis diziam ter, chegaram a matar exploradores fazendo eles beberem ouro derretido. Aconteceu algo parecido no Games of Thrones, foi o fim que levou o irmão da Daenerys, mãe dos dragões, libertadora dos escravos, queridinha do brasil e mulher que fica doida de uma hora pra outra só pra história acabar.

 Voltando para o que interessa, vale destacar que a Utopia será sempre, em alguma medida, uma Distopia. Para alguns ou em certos momentos será um bom lugar, para outros, o mal lugar. Essa ambiguidade é muito comum de ser retratada nas Utopias mais contemporâneas, relacionadas com tecnologia e ciência. No audiovisual, dentre as ficções científicas, tem a famosa série Black Mirror que se apresenta como série distópica ao mesmo tempo em que apresenta tecnologias fantásticas e desejadas. Na literatura a gente tem o mundo Utópico retratado no Admirável Mundo Novo do Adolf Huxley… Uma medicina que tenha desvendou a pílula da felicidade! Uau! Utopia para uns, distopia para outros, como para “John, o Selvagem”.

O mundo tecnocrata apresentado pelo famossérimo psicólogo comportamental Bhurrus Skinner, no livro Walden II, é lindo maravilhoso para alguns, uma aberração para outros. Seria a República do Platão só que guiada por psicólogos ao invés de filósofos. Imagina? Um grupo de dois psicólogos não consegue concordar em nada… imagina botar psicólogos pra governar um país. Desastre puro e muita culpa distribuída para os pais e para as mães.

Essa ambiguidade da Utopia talvez seja mais impactantemente apresentada na expressão Pitchpoi (pitchí pfoi – פיטשי פוי), originário de histórias judaicas Yiddish da Polônia. Pitchpoi era a referência a uma vila remota que ninguém sabia se era como o céu na terra ou o inferno. Quando alguém sumia, se dizia que havia ido para Pitchpoi. Era um lugar que causava medo (ninguém queria ir para lá, ninguém queria sumir), mas que gerava esperança (quem sumiu talvez esteja num lugar melhor, num lugar divino). Durante a segunda guerra mundial, os judeus poloneses diziam, entre outras coisas, que seriam enviados para Pitchpoi. Essa ideia, em meio ao terror que viviam, cercados, aprisionados, alimentava alguma esperança. A Rubin Katz, que sobreviveu aos campos de concentração de Mukacheve e Auschwitz, escreveu no seu livro de experiências dela, abre aspas.

“Embora houvesse rumores ameaçadores, simplesmente não conseguíamos entender em nossas mentes jovens que eles pudessem ser verdade, que algo tão terrível poderia ter acontecido com nossos parentes e amigos desaparecidos. Do jeito que as coisas estavam aqui, nós nos perguntávamos se eles não estariam melhor nesse lugar para onde tinham ido, para a terra distante de Pitchipoï.” (Rubin, 2012, p.85)

Fecha aspas. 

A Denise Toros-Marter, com 16 anos na época, escreveu também sobre sua experiência de Pitchpoi, abre aspas:

“Nós sabiamos quase nada sobre qual seria a realidade desse lugar desconhecido para aqueles internados em Drancy [um lugar temporário para onde os judeus eram enviados quando retirados de suas casas]. Quando descobrimos, toda esperança se foi. Era Auschwitz.” (Toros-Marter, 2008).

Fecha aspas.

Pitchpoi é, assim, um flerte com a utopia e a distopia ao mesmo tempo. É uma ideia assustadoramente linda. Aterroriza e a acalenta.

Se a própria ideia de utopia é ambígua e frágil, parece natural que a sua tentativa de concretização (ou a busca por concretizá-la) seja turbulenta. A gente pode entender, por exemplo, que as grandes revoluções da história nada mais são do que tentativas de implementar utopias.

Trazer o não lugar para o lugar envolve esforço, sangue, suor e lágrima. Não é à toa que a utopia não estava presente antes, que era o NÃO lugar. As pessoas mais ricas do mundo não concentram tanta grana e espremem os demais sem saber…. “é só ir lá e avisar que tem dinheiro suficiente para todo mundo comer, viver…” que o Elon Musk vai, prontamente, distribuir a grana dele. Não. Tem razões muito mais complexas para o bom lugar não estar presente… pra utopia ser uma utopia.

Na Rússia do início do século XX, era porque a aristocracia czarista se beneficiava fortemente da exploração das classes menos abastadas. Inverter a lógica implicaria em muitas mudanças de poder e geraria muitos efeitos… precisou de muito sangue para trilhar o projeto utópico da revolução de 1917. A parte do sangue, portanto, pode dar uma manchada no BOM da ideia utópica. Se tanta gente precisa morrer pra alcançar Utopia, será que ela continua sendo uma utopia ou vira uma distopia? Mais ainda, tanto na então União Soviética, quanto na França pós revolução francesa, o esforço para manter o “bom lugar” de pé envolveu guilhotina, Goulags… tortura, morte, censura… nada mais distante de uma utopia…

A Utopia, como a felicidade, é um enigma. Ela é boa e ruim, às vezes ao mesmo tempo; ela é muito mais bonita na imaginação do que na prática… a gente acha que tá chegando perto dela e ela se desloca para outro lugar, assume outra forma…

Mas a utopia nos move. Imaginar e sonhar novos mundos, melhorias, dando forma mais próxima da nossa realidade (ou em contraste com ela) nos move a agir. Nos dá esperança até momento mais terrível, como Pitchpoi; nos dá referência para protestar contra absurdos, como o fato de pessoas morrerem de fome, de sede, pessoas não terem saneamento básico… É sobre isso que o Ailton Krenak diz no livro “Ideias para adiar o fim do mundo”. Um dos principais argumentos dele é que a gente inventa pouco ou mal outros mundos, que a gente se contenta com um mundo (topos) que está se consumindo e sumindo. Se não sonhamos novos mundos, nos submetemos aos que sonham… como sonham intensamente os bolsonaristas e trumpistas esse mundo bizonho da tradicional família iletrada e armada. Utopia para eles, distopia pros outros. Pra adiar o fim do mundo, a gente precisa de utopia.

Mas sonhar utopias não é simples, afinal não temos um consenso do que dever ser imaginado como ideal. Essa ideia de qual a melhor forma de se viver varia muito, é frágil, muda com o tempo, entre pessoas. E naturalmente, a concretização dos sonhos vai envolver mais complicações ainda… sonhei com um café espresso, na hora que dou um gole, ele não tá do meu agrado… faltou um azedinho no fundo. Sonhei mal sonhado ou implementei mal meu sonho? Agora imagina mil pessoas querendo café espresso… como que elas tão sonhando esse café? Frustrações estarão por vir com certeza. A realização das utopias será sempre mequetrefe. Isso porque a gente, ser humano, é cheio de problema… a gente sempre vai querer mais ou querer diferente. Como o Platão já escreveu, trocentos anos atrás, como Buda percebeu embaixo do pessegueiro… os desejos são transitórios e nos colocam numa trajetória desejante sem fim. Além do fato de que sonho não é realidade afinal de contas, a realidade sempre cai na nossa cabeça como uma bigorna, supreendendo pro bem e pro mal.

Ainda assim, a gente precisa sonhar esses mundos. E entender a diferença entre felicidade e utopia ajuda a aceitar essa complicação toda da utopia. A felicidade é uma base, um fundamento para o sonho utópico. Quem imagina um futuro bom tem como base “a melhor forma de se viver”, a felicidade. 

Mas, enquanto a felicidade é aquilo que EU penso ser a melhor forma de se viver, quando eu lanço essa felicidade para um “topos”, para um “lugar”, essa imagem de felicidade será vivida por outros… ela se torna coletiva.

Ou seja, se a felicidade é individual e alimenta sonhos utópicos, a utopia vai ser o esforço de conciliar uma diversidade de felicidades; vai ser um espaço de encontro entre felicidades. Um esforço sempre imperfeito, provisório de acomodação de múltiplas formas de pensar sobre a melhor maneira de se viver.

Não vou abrir mais um tema aqui, mas só para mencionar… dá para gente dizer que o projeto da Felicidade Interna Bruta do Butão é um esforço utópico, um esforço de conciliação entre aquilo que os butaneses pensam ser a melhor forma de se viver. Mas daí já estamos saindo da história do Thomas Morus e adentrando a política contemporânea que tem muito bafafá. Acho que o próximo episódio vai ser sobre isso. 

E pra fechar o episódio de hoje, uma frase do livro do grande Eduardo Galeano, As Palavras Andantes (2001, p.230).

Abre aspas:

“A utopia está lá no horizonte – disse Fernando Birri -. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

fecha aspas.

Espero que você tenha gostado do episódio. 

Até o próximo episódio!

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Referências: 

Clayes, Gregory (2013). Utopia: a história de uma ideia (trad. Pedro Barros). São Paulo: Edições SESC SP.

Falcon, F. J. C. (2005). Utopia e Modernidade. Morus-Utopia e Renascimento, 2, p. 161-184.

Franco Jr, H. (1998). Cocanha–Várias Faces de uma Utopia. Ateliê Editorial.

Katz, Rubin. (2012) Gone to Pitchipoï: A Boy’s Desperate Fight For survival in Wartime. Boston: Academic Studies PressQuarta, C. (2006). Utopia: gênese de uma palavra-chave. Morus-Utopia e Renascimento, 3, p.35-53.Galeano, E. (2001). Las Palabras Andantes. Buenos Aires: Catálogos.

Toros-Marter, Denise. (2008). J’avais seize ans à Pitchipoï, Éditions Le Manuscrit / Fondation pour la Mémoire de la Shoah.

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