E aí, pessoal, beleza? Eu sou o Luciano Sewaybricker e esse aqui é o Avesso da Felicidade. Quer dizer, esse é o episódio piloto de um tipo mais curtinho de episódio, tipo uma pílula. Então, como “pílulas do avesso da felicidade” ia ficar muito comprido, escolhi um nome bom pra atrair pessoas desavisadas, ansiosas por um incremento nos seus indicadores de felicidade.
Se você é uma dessas pessoas, desavisadas, eu tenho uma notícia ruim e outra boa. A ruim é que, aqui, você não vai encontrar esse incremento. Nada de mais felicidade pra você. A notícia boa é que você vai encontrar coisa muito melhor! A sabedoria, a verdade sobre a felicidade. Aquela verdade que a mídia tradicional não conta.
Já que é piloto, vamos experimentar umas coisas novas.
Essa pílula foi estimulada por um artigo, de 2014, chamado “Aversion to happiness across cultures: A review of where and why people are averse to happiness” (aversão à felicidade entre culturas: uma revisão de onde e como as pessoas têm aversão à felicidade). O título é bem interessante, tipo: como alguém pode ter aversão à algo tão maravilhoso quanto a felicidade? Aquilo que, pro Platão, é o destino de todos os seres humanos; aquilo que pro Pascal, é o que guia a ação de todos, até do suicida? Se a felicidade for algo tão incrível assim, a aversão a alguma coisa não seria, no fundo, uma tentativa de ser feliz?
Mas vamos deixar essa pergunta de lado um pouco porque acho que todo mundo, em alguma medida, já sentiu algo que poderia chamar de aversão à felicidade. Felicidade no senso comum, no geralzão mesmo.
Eu lembro de uma vez em que eu estava jogando Fifa 2018 no modo online, que era parte do meu doutorado, sabe? Conforme você ganhava os jogos de outros jogadores, você ia subindo de divisão. Começava na 10a e eu já estava na 2a. Eis que eu estava lá, jogando a partida derradeira que definiria se eu subiria para a 1a divisão. (nota de rodapé, você pode supor que eu estava investindo um tempo considerável da minha vida nisso. Tinha um investimento grande). Eu estava ganhando o jogo, 1 a 0, e meu corpo começou a tremer inteiro de sei lá o que. Misto de ansiedade, medo, tensão, expectativa, frio na barriga, suor… tudo junto. Aquilo era tão bizarro que lembro de ter pensado: se eu tomar um gol, tudo isso acaba. Agora, se eu não tomar o gol, vou ter que aguentar essa tremedeira mais uns bons minutos. E deu uma vontade, lá no fundo, de que tudo desmoronasse pra não ficar mais com esse frio na barriga, receio, ansiedade… “melhor dar tudo errado agora, enquanto não tá tãooo bom assim, do que dar errado depois”.
Resultado. Ganhei o jogo, segurei o 1 a 0 (diferente do que algumas seleções fazem em quartas de final em copa do mundo), mas nunca mais joguei no modo online. Trauma talvez.
Não sei se esse é o melhor exemplo, mas traduz uma das 4 formas mais comuns de aversão à felicidade que o artigo aponta: a ideia de que ser feliz causa coisas ruins a você. No meu caso, tremedeiras e afins. Mas tem também um conjunto de outras coisas potencialmente ruins. Em um episódio antigo eu mencionei o estudo do psicólogo Richard Bentall (1992), que aponta que quem é feliz tem mais propensão a comportamentos impulsivos e compulsivos. Por isso, felicidade deveria ser classificada como uma doença psiquiátrica. Ou então, podemos pensar na sabedoria da minha tia-avô Clotilde, que sempre dizia pra não ficar muito feliz, porque as coisas sempre podem piorar. Felicidade acaba rápido. Do mesmo jeito que sobe, desce.
Música.
A segunda forma de aversão à felicidade acontece pela suposição de que a pessoa feliz é uma pessoa pior. Essa é uma ideia clássica em Kant, que dizia que a pessoa feliz podia muito bem ser mesquinha, arrogante, cometer atrocidades… muito melhor seria a pessoa ser ética. Já os franceses, e aqui eu tô sendo bem genérico, usam menos a palavra felicidade porque a supõe rara. Se alguém demonstra felicidade com gestos, tipo sorrir bastante, é percebida como superficial. Algo como: “com o mundo em ruínas, com essa nossa existência aleatória e absurda, como essa pessoa está feliz? só pode ser imbecil.” (Wierzbicka, 2006)
A poetisa americana e ganhadora do nobel da literatura Louise Glück (1996, pp. 579–580), (que coincidentemente Glück é traduzido do alemão como felicidade) escreveu que estar bem, por conta da terapia pela qual passava, deixava ela assombrada pela visão desoladora da normalidade. Abre aspas para ela:
“Eu estava perturbada, especialmente, de que a normalidade – independentemente do que eu queria dizer por essa palavra – iria de algum modo erradicar a necessidade de ou a capacidade para realizar aquilo que eu cerimoniosamente chamava de “meu trabalho””.
(terrified, specifically, that normalcy-whatever I meant by that-would somehow eradicate the need for or capacity for what even then I ceremoniously called my work.)
Uma terceira forma de aversão se baseia na suposição de que expressar felicidade faz mal para você e/ou para os outros. Quem tem aquele olho grego, a pedrinha-amuleto contra o mau-olhado sabe bem dos riscos de demonstrar muita felicidade. Experimenta, por exemplo, ganhar na mega sena e contar para todo mundo para ver o que acontece. Tua vida vai ou acabar rapidinho, ou virar um inferno de parentes e amigos querendo um tostão. Tem um ditado japonês ótimo sobre isso que é: “rir alto acorda o diabo” (“laughing loudly wakes up sadness”, licença poética pro exagero. Uchida and Kitayama, 2009). E o diabo não vai puxar só o seu pé, mas de todo mundo ao seu redor.
O Epicuro, filósofo grego, já falava sobre o risco de querer a felicidade em quantidade, à baciada. Tem um monte de prazer que gera tanto problema depois… como se envolver em uma noite de amor e paixão ardente com a pessoa errada. Mais sábia é a felicidade de desfrutar de pequenos e certeiros prazeres. O que importa pro Epicuro, então, é a qualidade.
Por fim, a quarta aversão à felicidade tem a ver com a ideia de que buscar a felicidade é ruim pra pessoa e pros demais (e não a felicidade em si). O Nietzsche escreveu sobre isso numa anedota, dizendo que só os ingleses (utilitaristas) que buscam a felicidade, porque eles são uns idiotas. Essa coisa de perseguir, buscar, traçar um plano pela felicidade só geraria competição entre pessoas e empenho na coisa errada, tipo, consumismo, fama e afins.
Pronto. Vimos as 4 aversões mais comuns. E olha, essa coisa de aversão é tão comum que, se você jogar no Google “aversão à felicidade” você vai encontrar até um nome especial para isso, cherophobia. Chero (χᾰρᾱ́), do grego antigo, significa se inclinar para, estar favoravelmente disposto. Ou seja, é o medo às coisas pelas quais você se inclina para ou para as quais está favorável.
Tem até dois testes criados por psicólogos para medir essa cherophobia, ou o “medo da felicidade”, um de 2012 (Gilbert et al., 2012) e outro de 2013 (Joshanloo et al. 2013; Joshanloo 2013b). São testes bem simples, que você avalia em uma escala de 1 a 7 afirmações como “Eu tenho medo de ficar muito feliz”. Se você resistir até o final do episódio, eu leio as afirmações de um dos testes aqui, que são só 5 itens.
Mas vamos agora para uma análise dessa ideia de aversão à felicidade. São dois os principais pontos.
Primeiro ponto é que o artigo não fala de fobia, fala de aversão. E aversão pode rolar em níveis e formas muito diferentes. Em geral, a fobia seria uma forma extrema de aversão, que também pode ser vivida de forma mais leve.
Eu, por exemplo, tenho aversão leve à cebola. Não gosto, mas tolero a presença dela e até tenho amigos que gostam de cebola. Esse é um exemplo da intensidade da aversão. Mas rola também a extensão espacial ou contextual da aversão. Eu tolero cebola quando estou em certos contextos, em outros não. Em um restaurante ou na casa dos sogros, tolero. Mas quando estou em casa, nem pensar. Eu grito e xingo mesmo.
Temos também a dimensão comportamental àquilo que tenho aversão. Posso simplesmente negar cebola ou posso querer sair correndo, ter uma reação física, de náusea, vômito só de ouvir falar.
A aversão, portanto, é um negócio complexo. Dependendo do nível, dá pra falar de aversão a qualquer coisa… Até das coisas mais anti-aversivas de todas, como café. Tenho aversão a café excelente, que nem um que tomei na Colômbia. Janeiro de 2019. Não esqueço dele nunca. E isso me amaldiçoa profundamente. Todos os cafés são comparados com ele e, por isso, têm um gostinho final de “podia ser melhor”.
O segundo ponto para analisar na aversão à felicidade, é, obviamente, a ideia da felicidade. Era meio óbvio que eu ia falar disso mais cedo ou mais tarde…. Se não o podcast ia precisar de outro nome.
“E aí, pessoal, beleza? Eu sou o Luciano Sewaybricker e esse aqui é o Avesso.” Ia ficar estranho.
Tem um problema fundamental na reflexão sobre “aversão” à felicidade que é: dependendo da definição de felicidade, é ilógico supor uma aversão a ela. Só pra mencionar rápido um exemplo clássico. O Aristóteles supôs que a eudaimonia, que a gente traduz como felicidade, tinha a ver com o bem supremo. É aquilo pelo quê a gente faz todas as outras coisas. É o fim de todas as nossas ações. Se eu tomo sorvete é para alcançar a eudaimonia. O sorvete não proporciona diretamente eudaimonia, mas suponho que ele favoreça. Se eu estudo para passar em um concurso, vai ser o concurso ou o que ele me proporciona que vai ter mais relação com a eudaimonia; afinal eu estudo com a finalidade do concurso; e ser concursado tem uma finalidade que está mais próxima da eudaimonia.
Logo, se eu tenho aversão à alguma coisa, é a razão pela qual eu me distancio dessa coisa que vai ter relação com a eudaimonia e não a coisa da qual eu fujo. Eu não teria como fugir da felicidade, pois é ela que seria meu guia mestre. É o motor da vida.
Isso é um tanto parecido com o que eu adoto como definição de felicidade, que é aquilo que alguém supõem ser a melhor forma de se viver. Isso significa que a gente vai viver bem? Não. A gente faz um monte de cagada. Faço um monte de escolha errada, me lasco ao rodo que faz até parecer (pra mim e pros outros) que eu quero viver mal de vez em quando. Que eu tenho aversão à felicidade. Mas eu sempre faço tudo que eu faço tentando viver da melhor forma possível e não da pior. Ter aversão a algo seria, portanto, parte da felicidade, parte da nossa tentativa de viver da melhor maneira possível; do jeito que a gente pode.
Ou seja, a ideia de uma aversão à felicidade só vai fazer sentido se a gente a supor como algo não tão grandioso ou absoluto. Por exemplo, vai fazer mais sentido se a gente reduzir a felicidade a algo que a gente sente individualmente, como prazer ou bem-estar. No caso do artigo, o autor vai definir a ideia de felicidade que ele adota como, abre aspas:
“A felicidade que domina a cultura ocidental e as pesquisas sobre felicidade no ocidente, a ideia de uma felicidade pessoal caracterizada pela satisfação com a própria vida e a preponderância de emoções positivas frente às negativas.” (Joshanloo et al., 2014).
Fecha aspas.
Bom, o ponto é que, no fim das contas, a aversão à felicidade vai fazer sentido apenas se você compreender a felicidade de certa maneira. E é importante alinhar esse entendimento. Porque, imagina só a gente falando de espectrofobia, ou o medo de fantasma. A sua referência de fantasma é o Gasparzinho, ou seja, fantasma como fantasia, coisa de desenho, histórias; o fantasma camarada. E a minha é a de fantasma como um conjunto de entidades (fruto de seres que viveram no passado) e que habitam o nosso mundo hoje e podem interagir com ele, embora a gente não enxergue essa galera.
Essa conversa vai dar divergência, né?
Antes de terminar o episódio de hoje, só queria dizer que eu não tenho uma tia-avó chamada Clotilde. Eu inventei ela. Mas eu tenho sim aversão leve à cebola e eu cheguei na primeira divisão do fifa 18. De lá pra cá minha carreira entrou em declínio.
Fechando, então, vamos para a frase, do pintor norueguês Edvard Munch, que pintou a obra “o grito”, sobre a relação dele com seus sofrimentos mentais. Abre aspas:
“Eles são parte de mim e da minha arte. Eles são indistinguíveis de mim, e não os ter destruiria minha arte. Eu quero manter esses sofrimentos.” (c.f. Layard 2005, p. 220)
Fecha aspas.
E agora vamos para à “Escala do medo da felicidade” que eu prometi. E aqui eu vou ler o teste mais próximo de como ele está construído pra respeitar a elaboração do psicólogo social neo-zalandês Mohsen Joshanloo.
Fear of Happiness Scale – Joshanloo
Essa escala tem o objetivo de avaliar a crença geral de que experimentar a felicidade, sobretudo em excesso, pode proporcionar consequências negativas. A avaliação consiste em cinco itens que devem ser avaliados em uma escala de 7 pontos, indo de 1 (discordo totalmente) até 7 (concordo totalmente). O score total pode ir, portanto, de 5 a 35. Quanto maior o score do teste, a somatório de todos os pontos, há uma indicação de um maior medo da felicidade.
Eu vou ler as cinco afirmações devagar pra você poder dar uma nota de 1 a 7 para cada uma.
- Eu prefiro não ser muito alegre porque, em geral, a alegria é seguida por tristeza.
- Eu acredito que quanto mais me entusiasmo e fico feliz, mais devo esperar que coisas ruins acontecerão em minha vida.
- Desastres geralmente vêm depois da sorte.
- Me divertir muito leva a consequências ruins.
- Alegria demais tem algumas consequências ruins.
Caso você tenha tirado uma nota alta nesse teste, acima de 25, pode ser sinal de que você está passando por um momento difícil. Daí é importante procurar alguém para conversar, um psicólogo ou uma psicóloga, de preferência, beleza?
É isso. Espero que tenha gostado e até o próximo episódio! De preferência em um intervalo menor do que um ano.
Referências:
Journal of medical ethics: “A proposal to classify happiness as a psychiatric disorder” by Richard P. Bentall, vol. 18, no. 2, June 1992
Joshanloo, M., Weijers, D. Aversion to Happiness Across Cultures: A Review of Where and Why People are Averse to Happiness. J Happiness Stud 15, 717–735 (2014). https://doi.org/10.1007/s10902-013-9489-9
Gilbert, P., McEwan, K., Gibbons, L., Chotai, S., Duarte, J., & Matos, M. (2012). Fears of compassion and happiness in relation to alexithymia, mindfulness, and self-criticism. Psychology and Psychotherapy: Theory, Research and Practice, 85(4), 374–390.
Joshanloo, M., & Weijers, D. (2014). Aversion to happiness across cultures: A review of where and why people are averse to happiness. Journal of happiness studies, 15(3), 717-735.
Joshanloo, M. (2013a). Eastern conceptualizations of happiness: Fundamental differences with western views. Journal of Happiness Studies. http://link.springer.com/article/10.1007/s10902-013-9431-1.
Layard, R. (2005). Happiness: Lessons from a new science. New York: Penguin Books.
