E aí, pessoal, tudo bom? Meu nome é Luciano Sewaybricker e esse é o avesso da felicidade.
Depois de um longo tempo, mais de um ano, voltamos aqui com um novo episódio. E depois de tanto tempo, nada como falar de Felicidade e Tempo.
E o tempo é um negócio meio estranho, parece tão banal, fácil de falar a respeito, mas ao mesmo tempo bem complexo, lembrando um tanto a própria ideia de felicidade:
A gente, por exemplo, tem medo que o tempo passe rápido, de envelhecer… e acaba gastando horrores em botox. Ou que passe rápido quando a gente tá no trânsito, atrasado pra uma reunião, e dá aquela vontade de estrangular a primeira pessoa que passar pela frente…
Quando a gente joga video-game, rápidinho só, de repente passou 3 horas e tudo que você fez foi escolher que seu personagem usará chapéu panamá, cabelo rosa-choque e chamar Gumercindo.
Ou então pensa em todas as ficções e tentativas reais de criar máquinas do tempo, pra voltar ou avançar nele. Um tipo de dominação dessa besta feroz, chamada tempo.
O filme de volta para o futuro é um marco importante. E, independentemente de rolar ou não fazer isso, a gente já tem um primeiro mandamento bem conhecido: não vai sair mexendo na linha do tempo (tipo interagir com você mesmo ou seus pais), que vai dar merda.
Mais moderno é o filme Interestelar, com a teoria das cordas e a dilatação do tempo-espaço.
Mas, talvez, a tentativa de domar o tempo que me marcou mais profundamente foi a do Sérgio Moro. Só um parenteses breve pra essa história. Na época que o Twitter era o Twitter, Sergião demorou um tanto mas acabou entrando na rede social. Isso era pela época eleição de 2018 ou pós, quando ele tinha assumido cargo no governo. Não lembro direito. Mas o que lembro é que as pessoas no Twitter não estavam acreditando muito que era o Sérgio de verdade e pediram provas. Sérgio postou uma foto fazendo joinha. Não bastou. Pediram para provar que não era alguém simplesmente usando fotos antigas. E aí o Sérgio bolou o plano infalível de provar que era ele: ele subiu uma foto dele segurando um calendariozinho triangular, desses que você ganha de brinde na festa de fim de ano da firma e bota em cima da mesa, com a data do dia circulada de caneta vermelha. Pronto. Impossível argumentar contra. Essa foi a estratégia preguiçosa ou desavisada dele de imitar os filmes, onde as pessoas usam o jornal do dia para mostrar que se trata de uma foto recente. O pior que a ideia dele deu certo. Todo mundo acreditou que só podia se tratar de Sérgio. Será um gênio incompreendido?
No caso dos podcasts, uma das primeiras regras que ouvi foi para não usar informações datadas, que fossem particulares de um momento no tempo. Tipo, não falar que acabou de começar 2024 (que é quando comecei a escrever o roteiro desse episódio), fazer piada do negócio da foto do Moro. Essa, na real, é falta de referência nova na minha vida, porque hoje, em 2024, essa já tá bem datada.
Bom, a regra é que não é pra fazer isso porque sei lá quando vão ouvir o episódio e podem não entender nada. Talvez milênios daqui o Avesso da Felicidade finalmente viralize e ninguém vai entender a referência… Moro, que Moro? O que é jornal? Eles tinham isso lá na Terra? Felicidade? Oi?
Mas chega de papo furado.
Apesar da anedota, tem uma coisa importante aí antes de a gente partir partir pra felicidade. A gente não deve assumir que o Tempo é essa coisa óbvia. A gente precisa de um mínimo de profundidade no tema.
No caso do Sérgio, tempo equivale a um círculo vermelho no calendário, que seria um jeito mais tosco de dizer que tempo equivale ao que algum instrumento marca. Dito de outra maneira, tempo como uma coisa que pode ser medida, registrada e representada à perfeição. Lógico que vai variar de acordo com a unidade de medida do tempo e seus instrumentos diferentes:
o relógio para segundos, minutos, horas… seja relógio digital, solar, ampulheta…
as badaladas do sino da igreja para as horas… a feijoada de toda quarta feira… o galo cantando todo dia de manhã..
o calendário para dias, meses e anos…
quantidade de carbono-14 para tempo de tecidos orgânicos mortos…
diferenças de camadas geológicas para séculos e milênios…
No caso do Moro, essa medida não funcionou muito bem, mas no dia a dia a gente toma como base o tempo nesse esquema, cronológico (khrónos), e tá tudo certo. O tempo entendido como algo correndo por uma linha “lógica”, sempre para o futuro. Todos os eventos vividos e imaginados são distribuídos na ordem que acontecem ou podem acontecer; sempre nessa linha do tempo, sempre possíveis de serem comparados em mais antigos ou novos, mais rápidos ou devagares, no horário ou atrasado, iminente ou distante. Tudo que a gente vive no presente, vira passado. O futuro sempre acaba virando presente.
O sociólogo alemão Norbert Elias tem uma frase interessante sobreee esse elemento organizador do tempo. Abra aspas para ele.
“… a palavra ‘tempo’ é o símbolo de uma relação estabelecida por um grupo humano (isto é, um grupo de seres humanos que têm a faculdade biológica de lembrar e memorizar) entre dois ou mais processos, tomando um deles como referência ou medida para os outros” (Norbert Elias, 1997, p. 56).
Fecha aspas.
Ou seja, sem essa referência da linha unidirecional do tempo, é difícil imaginar a nossa vida contemporânea acontecendo: tem o horário de entrada no trabalho, o horário de encontrar alguém, o horário do cinema, o tempo que dura um filme ou esse episódio aqui. Essa marcas que representam o tempo ou duração de algo orientam nossas escolhas ( é muito tempo ou pouco tempo para o preço do ingresso desse filme; é cedo demais para eu ir; topo pagar mais caro para que esse produto que comprei chegue mais rápido; minha remuneração por hora trabalhada é tal; sou mais velho ou mais jovem que outra pessoa).
Essa forma de entender o tempo é muito eficiente para viver em comunidade. Dá para eu dizer que vou lançar novos episódios todas as sextas feira meio dia e você, imagino, vai acertar o momento em que o episódio vai estar no ar. Graças a essa organização cronológica do tempo a gente consegue coordenar muitos esforços coletivos. Imagina o caos para um exército combinar um ataque, uma escola começar as aulas, ou a festa surpresa pro um amigo…
Bom, (1) nessa ideia do tempo cronológico, o tempo é tomado como uma coisa externa. Um objeto a ser investigado no mundo, que acontece no mundo, linear e unidirecionalmente (para o futuro).
Tempo como uma ESTEIRA
E como um objeto externo, o tempo pode ser investigado e decifrado. Nossos relógios todos muito bem regulados, precisão de mensuração de tempo (vide os recordes das olimpíadas em milisegundos) e por aí vai. A gente percebe tanta precisão em medir o tempo que dá a impressão até de que dá para controlar ele. Algo como: Se a gente mede o tempo com tamanha precisão, por que, então, não daria para controla-lo? Esse é o sonho dos que querem voltar no tempo, ir para o futuro, viver para sempre e afins.
Uma visão distópica disso, em que a humanidade descobre como dominar o tempo e explorar ele como recurso, está no filme O Preço do Amanhã, de 2011. Já adianto que não está no meu top 10 filmes. Bom, mas nesse filme as pessoas sao capazes de comercializar o tempo de vida que elas têm disponível umas com as outras. Pessoas ricas compram tempo e acabam vivendo mais, pessoas pobres vendem o tempo delas e vivem menos. E o Justin Timberlake luta contra tudo e contra todos para reestabelecer a justiça no mundo. É a extrapolação da ideia de vender rim pra juntar dinheiro.
Mas, a gente não consegue manipular o tempo dessa maneira. Uma alternativa alternativa então seria explorar o tempo, tal qual um recurso, de uma outra maneira: extrair o máximo daquilo que o tempo tem pra oferecer. Posso não aumentar ou diminuir a quantidade de tempo que vivo, mas posso viver o máximo possível no tempo que tenho; posso viver da melhor maneira possível no tempo que tenho. Quer dizer, nos segundos, minutos, horas, dias e anos que tenho.
E subjacentes a essa compreensão do tempo a gente pode identificar duas principais ideias: (1) quanto mais e melhores coisas eu consigo fazer em menos tempo, melhor; e (2) quanto mais tempo eu tenho disponível, como um recurso disponível para eu usar, melhor. São, no fim das contas, essas duas ideias que vão orientar as principais investigações sobre felicidade e tempo.
Vamos começar pela segunda, só para variar um pouco.
A ideia de ter disponibilidade de tempo é referida nas pesquisas sobre felicidade como “tempo discricionário”, que é o tempo livre de restrições ou amarras, o tempo que eu escolho o que fazer com ele. Sem entrar em méritos de adequação filosófica de isso ser ou não verdadeiramente tempo ou de esse controle ser ou não possível, tem muitas pesquisas que investigam o quanto as pessoas se percebem com “riqueza de tempo” (no inglês, time affluence). Ou seja, tem um bocado de artigos, como um famoso do Tim Kasser e do Kennon Sheldon, de 2008, que identificou alta correlação entre riqueza de tempo com bem-estar subjetivo. Quem sente que tá sempre correndo atrás do próprio rabo, fazendo uma coisa atrás da outra e só cumprindo tarefas “obrigatórias”, tende a avaliar que a própria vida está pior.
Em outro artigo, três pesquisadores, um da London Business School, outro de Harvard e outro da Universidade de Los Angeles (Giurge, Whillans & West, de 2020), investigaram a relação da riqueza do tempo com bem-estar, saúde física e produtividade no trabalho, defendendo no fim do artigo que, abre aspas:
“cientistas, políticos e líderes de organizações deveriam dedicar mais atenção e recursos para entender e para reduzir a pobreza de tempo como forma de promover bem-estar psicológico e econômico.”
Fecha aspas.
Lições para empresários: “para conseguir explorar um pouco mais os trabalhadores, não dá mais tarefa, dá mais tempo para a pessoa”. Falar assim em voz alta soa bonito. Afinal, não é que a gente não tá produzindo mais por que não tá afim, como se tivesse muito tempo sobrando. Ou então como se quando a gente recebe uma nova tarefa pra fazer o dia automaticamente passa a ter, sei lá, 25h, 26h. Não… A gente tende a ficar soterrado de coisas pra fazer. Não adianta dar mais tarefa e achar que a produtividade vai aumentar. Quer dizer, até pode aumentar por um tempo, mas a pessoa vai se estrupiar inteira, dormir menos, pipocar doenças, menos tempo pra família no final de semana e afins. Uma hora ou outra esse modo de viver e trabalhar pede as contas (Sapiens Lab, 2024).
Algumas pesquisas um pouco mais recentes têm ajudado a dar uma camada a mais de profundidade para essa discussão: não é só porque a gente sofre quando está soterrado de tarefa que uma surra de tempo livre vai ser a solução.
A Marissa Sharif, da Universidade da Pensylvania, liderou uma pesquisa em que ela e outros dois pesquisadores encontraram uma queda da autoavaliação do bem-estar subjetivo em pessoas que diziam ter muito tempo livre para elas (Sharif, Mogilner & Hershfield, 2021). A explicação deles é que as pessoas com muito tempo livre se sentem mal por se sentirem pouco produtivas. Não é só a escassez de tempo que atropela, a riqueza de tempo também é capaz disso e pode gerar sofrimento. A minha avó, que era nutricionista em fábricas, meio que se aposentou um tanto forçadamente quando tava com 82 anos e ela ficava, cheia de tempo livre, lamentando não trabalhar mais com o que ela amava. Ela ficava falando do dia em que o time do Corinthians, da época do Sócrates, foi almocar no restaurante dela e ela obrigou todos os funcionarios a cantarem o hino do Corinthians se não não iam ganhar feijão. Bom, ela virou uma máquina de fazer palavra cruzada e bordar pano de prato para tentar tapar o excesso de tempo discricionário. Mas não dava pra dizer que ela ficou melhor com esse tempo livro do que estava antes.
Mas dá pra pensar que nem todo mundo vai achar ruim ter tempo livre. Eu por exemplo, ia gostar. E o artigo da Marissa Sharif não entra no detalhe de os participantes terem tempo livre por escolha ou não. Não me parece que se trata exatamente de ter mais ou menos tempo livre, mas ter mais ou menos tempo do jeito que você deseja. Se a minha vida ideal envolve um emprego CLT 40 horas, eu vou supor e desejar, em alguma medida, menos tempo discricionário. E tá tudo certo.
Na tentativa de descobrir se alguém já tinha testado como era a relação entre riqueza de tempo e felicidade para pessoas que tem tempo livre por escolha própria, encontrei um artigo que quase responde isso, mas que é interessante de qualquer jeito. É uma pesquisa comparativa, de 2020, entre milionários e não milionários holandeses autoavaliando a satisfação com a vida, a riqueza de tempo e as atividades que fizeram na última semana (Smeets, Whillans, Bekkers & Norton, 2020). Principais aprendizados: primeiro, milionários e não milionários trabalham uma quantidade de horas parecida (só podia ser na Europa mesmo); segundo, milionários se avaliam mais satisfeitos com a própria vida do que não milionários em média 1.2 pontos acima (em uma escala de 0 a 10); terceiro, a principal diferença que os pesquisadores encontraram na relação das pessoas com o tempo não estava na riqueza de ter mais tempo sobrando, mas no fato de que os milionários se envolveram muito mais em atividades de lazer ativo do que os não milionários, que ficam estatelados no sofá vendo Netflix.
Fica a sugestão para replicarem essa pesquisa aqui no Brasil e ver mesmo se milionários trabalham a mesma quantidade de horas que não milionários.
De todo o modo, esse universo de pesquisa quantitativa e correlacional entre riqueza de tempo e alguma medida do universo da felicidade (bem-estar subjetivo, satisfação com a vida e etc.) é o tipo mais comum no campo da ciência da felicidade.
Bom, comecei pela segunda das principais frentes de investigação entre felicidade e tempo, agora deixa eu voltar para a primeira, que é a de que (1) quanto mais e melhores coisas eu fizer em menos tempo, melhor. Esse tipo de interesse foi mais comum na primeira década dos anos 2000 e tinha uma grande influencia na ideia de Flow, proposta pelo psicólogo romeno Mihaly Csikszentmihalyi na década de 70.
Esse cara aí do nome difícil, o Mihaly, identificou que depois de experiênci as de grande imersão, daquele tipo que você nem vê o tempo passar, as pessoas tendem a relatar sentirem várias coisas próximas de felicidade: satisfação, contentamento, alegria, bem-estar e, inclusive, felicidade.
A ideia de flow teria uma relação com o tempo em que, naquele determinado intervalo, se está vivendo plenamente. A ideia de completa “imersão” seria um sinal de que se está vivendo da melhor forma possível, vivendo o máximo da vida em um determinado intervalo de tempo. Praticar um esporte pode ser um experiência de flow, jogar video-game, fazer uma prova, trabalhar em novo projeto… Mas a coisa não era tão simples assim. O Mihaly tinha uma preocupação de que a realizacao de atividades mal vistas, não virtuosas fossem consideradas flow. Por exemplo, pra diferenciar “ficar scrollando no instagram” sem ver o tempo passar da “verdadeira” experiência de flow, ele dizia que só é flow mesmo quando tem um equilíbrio entre o desafio que a atividade impõe e as habilidades da pessoa. A atividade não pode ser tão fácil que seja entediante, nem tão difícil que me deixe estressado demais. Scrollar não exige esforço, é um “flow da enrolação”. Mesma coisa pra ficar vendo série, não sair da cama.
Mas vale notar que nessa pra evitar atividades não virtuosas, a delimitação de flow como resultado da relação entre desafio e habilidade sugere um foco no desenvolvimento de habilidades, na conquista de objetivos, na superação de obstáculos… Algo meio empreendedor, sabe? Nada de descanso ou ócio, que estão desalinhados com um contexto social que cobra que a gente seja bem sucedido no trabalho, que cobra constantes experiências interessantes para gente ser bem sucedido no instagram: felicidade do flow não combina com espaço vazio, com ócio, preguiça, desinvestimento profissional… ou luxúria dos prazeres imediatos da netflix e do instagram. Essa é uma das razões pelas quais criticam a Psicologia Positiva, falando que ela é embebida na ideologia neoliberal. E só para saber, o Mihaly foi um dos principais propositores da Psicologia Positiva e escreveu junto com o Martin Seligman o artigo de lançamento desse empreendimento (Seligman & Csikszentmihalyi, 2000).
Mas tem uma coisa engracada nisso tudo. Apesar de ter uma preocupação dos pesquisadores, como o Mihaly, de não defenderem pecados (em especial o ócio), a ideia de tempo (cronológico) e felicidade quantificaveis não tem muito como escapar de um outro pecado: a luxúria. Porque, se tem uma coisa que imediatamente faz bem é o prazer. E, em geral, quando estamos sentindo prazer, estamos em um estado de imersão. Já outras coisas mais nobres, como estudar, se envolver com um projeto desafiador do trabalho… muitas vezes vai ser difícil convencer a gente de que essas atividades são “positivas”.
Por isso que acaba sendo mais “óbvia” a ideia de potencializar a felicidade no tempo a partir da estratégia de entuchar prazeres no menor intervalo de tempo. Lembro de uma professora do colegial que falou uma vez na aula: prefiro viver dez anos a mil do que mil anos a dez. Na dúvida, busca a intensidade dos prazers. A vida tá pouco intensa, pouco excitante? Vai conhecer gente nova, pula de bungee jump, mochilão pelo mundo, vai viver em uma comunidade poligâmica… explosão de sensações, o máximo que der: carpe diem, YOLO e afins.
Deixa agora eu explorar agora uma outra perspectiva de como entendemos o tempo. Porque, beleza, a gente tem o tempo cronológico, mas não pode ser so isso… Legal que marcamos o tempo, tem relógio, a gente consegue marcar encontros com amigos, mas o tempo passa de jeito muito diferente dependendo do momento. Não à toa a gente fala que o tempo voa, que o tempo se arrasta, que algo ficou “suspenso” no tempo… tipo o momento antes de bater pênalti em um campeonato, o instante que nosso olhar cruza com a da pessoa amada, logo antes da gente saber se foi aprovado ou não.. a percepção que a gente tem do tempo varia muito, sobretudo pra você, pessoa apaixonada.
Nesse caso aqui, eu estou chamando a atencao para uma perspectiva do tempo não mais externa, como um objeto que a gente pode investigar aí no mundo, mas como algo inseparável da gente. Esse é um tempo que interessa pela qualidade com que é vivido. O filósofo fenomenólogo Merleau-Ponty (1999) se referia a essa qualidade como “temporalidade”. O tempo é sempre um tempo vivido.
Assumir o tempo desse jeito exige que a gente parte de um outro ponto de partida que não é o das medidas de tempo (segundo, minutos e afins), mas sim a partir de como a gente tende a viver o tempo.
Primeiro, a gente sente que o tempo existe. Se não a gente não taria nem falando dele aqui.
Segundo, a gente vive o tempo como se ele extrapolasse a nossa vida. Eu não tenho provas, mas tenho convicção de que existia um mundo antes de eu nascer e vai continuar existindo (tipo, acredito que meus pais existiam antes de eu nascer).
E por fim, em terceiro lugar, a gente percebe o tempo como irreversível, avançando em direção ao futuro desconhecido quer a gente queira ou não (Bergson, James). Eu posso querer refazer uma ação, mas não dá. Eu quero ficar jovem para sempre, mas não dá. Por isso que é comum a ideia do tempo devorando pessoas, que nem Chronos na mitologia grega, que devorava os filhos, e a ideia mais recente do pai-tempo com ampulheta e foice… a gente vive o tempo como engolindo a gente e dando medo.
Beleza. Mas olha só que curioso, porque, apesar de a gente ter essa vivencia do tempo como continuidade (passado – presente – futuro), tudo que a gente vive é sempre vivido no instante presente. Ou seja, passado, presente e futuro são sempre e invariavelmente vividos no instante em que estamos. Não é, por exemplo, que o passado está lá, em uma caixinha em um tempo-espaço passado pro qual a gente vai e abre a caixa quando quer lembrar de algo. Passado, presente e futuro são, na verdade, nomes dados para diferenciar experiências que temos no aqui e agora. São experiências diferentes, é claro, e por isso elas ganham esse nome qualificador diferente.
Deixa eu destrinchar um pouco mais isso.
Quando eu lembro de uma experiência que eu vivi, um campeonato de futebol que joguei quando era pequeno, categoria fraldinha, e ganhei o troféu de melhor jogador. O mais perto que cheguei de ser jogador profissional de futebol. Bom, mas essas images, sons, cheiros… toda a lembrança é vivida como experiência no instante presente. É uma experiência que não é identica a que eu vivi quando tinha, sei lá, 8 anos? O que eu vivencio hoje, no que estou chamando de presente, tem diferenças importantes, faltam uns pedaços, tem certas distorções… é o fato de ser uma vivencia que vai ter esse gosto de familiaridade que me leva a chamar de “passado”, de memória, de lembrança.
Deixa eu dar um exemplo: presta atenção na palavra que vou dizer. CHUVISCO. CHUVISCO. CHUVISCO. Agora lembra da palavra que eu falei….. tenta ouvir eu dizendo ela…. ouvir Chuvisco é diferente de lembrar deu falando Chuvisco.
Espero que o exemplo tenha funcionado, porque eu fiquei bem na duvida se ia ficar ridículo na gravaçao. Se não funcionou, faz de conta que isso não aconteceu.
Algo parecido acontece com aquilo que a gente vai chamar de futuro. As vivências do instante que vão ganhar essa qualidade de “futuro” são aquelas que involvem incerteza, dúvidas. Por exemplo, eu só tenho expectativa e esperança sobre aquilo que ainda não aconteceu, também não desejo aquilo que já foi satisfeito… planejar, imaginar… tudo isso involve uma relação com o instante em que as coisas parecem incertas. É diferente pegar um copo de imaginar eu pegando um copo. O futuro tem essa qualidade do “virtual”, tem uma virtualidade.
A ansiedade é um belo exemplo de como o futuro é vivido no instante presente. Na experiencia ansiosa a gente passa a experimentar o futuro (o virtual) numa intensidade desmedida. A gente fica tão inclinado, projetado pro futuro, imaginando tudo que pode acontecer e dar errado, que a gente meio que fica um tanto disfuncional. As possibilidades do virtual se sobrepõem à concretude do presente.
O Sato Agostinho, Lá no terceiro século, escreveu sobre essa temporalidade de um jeito engraçado no livro Confissões: ele falou sobre o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro, fazendo uma alusão a essa impossibilidade de a gente escapar do aqui e agora (Santo Agostinho, confissões, 1964).
Central aqui é que os elementos constituintes do tempo – passado, presente e futuro – não estão espalhados em uma linha cronológica, externa e que a gente acessa milagrosamente via máquina do tempo quântica mental para depois voltar pro presente com informações privilegiadas.
O tempo só é tempo, do jeito que a gente supõe ser, com passado, presente e futuro, por que a gente tem experiências de vida com qualidades diferentes. São experiências que a gente vai, gradativamente, aprendendo a nomear e organizar para poder se comunicar com as outras pessoas, pra conseguir explicar a vida e o mundo.
Ou seja, antes de existir o tempo cronológico-medido, tudo começa com o tempo da vivência humana: a temporalidade. A temporalidade é estrutural da existência humana. Já o tempo cronológico é uma ferramenta; é uma invenção que ajuda a gente a viver melhor. Achar que o tempo cronológico é a verdade sobre o tempo, seria, assim, um erro filosófico. E perceber isso vai ser importante pra ideia de felicidade. Mas deixa eu só dar espaço pro Humberto Maturana, que escreveu sobre isso melhor do que eu. Abre aspas:
“Passado, presente e futuro são noções que nós, seres humanos, nós observadores, inventamos ao explicarmos nossas ocorrências no agora. Inventamos o passado como fonte do agora ou presente, e inventamos o futuro como dimensão que emerge como uma extrapolação de aspectos de nosso viver de agora, no presente. Como passado, presente e futuro são inventados para explicar nosso viver de agora, o tempo é inventado como um pano de fundo em que passado, presente e futuro têm lugar. Mas a vida, o viver, tem lugar agora, como um fluxo de processos de mudança” (Maturana, 1995, p. 1/7).
Fecha aspas.
Outro filme que recomendo, esse de verdade, chama A Chegada, de 2016. Imagina o que seria o encontro com uma espécie que tem uma experiencia de tempo diferente da nossa, que ao invés de viverem o tempo como uma linha unidirecional rumo ao futuro, vivem o tempo circularmente-ciclicamente. Não tem passado ou futuro. Como seria viver com essa outra lógica temporal? Como se comunicar se não dá para usar tempos verbais? Esse filme sempre me dá muitos nós mentais.
….
O que a gente chama de tempo cronológico, do relógio, é uma sequência de marcações (Segundos, minutos, horas) da passagem do tempo. Mas o número do relógio não é o tempo em si. É uma representação dele. Mais importante: é uma representação da passagem do tempo. A gente não tem medida alguma do tempo estático, em centímetros, em graus célsius. O tempo aí, medido em seu habitat natural, parado como um objeto pra poder “fotografar”.
Se o tempo não é essa coisa, como um objeto que a gente tenha qualquer experiência aí no habitat, o que é, então, essa coisa que “passa” e é medida pelo relógio? Na verdade, o que a gente chama de passagem do tempo é, olhando por outro ângulo, a transformação das coisas. A expressão “passagem do tempo” é um jeito de nos referirmos à “mudança” ou “transformação” de tudo. Como já dizia a tristíssima piada do tio do pavê, “tudo passa, até a uva passa”. Posso me arrepender disso no futuro? Com certeza.
No fundo, a gente não mede “o tempo” com o relógio, a gente mede o mundo e a vida mudando.
São transformações que acontecem no instante, que não é o segundo ou milésimo. Acontece na fronteira indivisível e imensurável entre passado e futuro. Na verdade, a gente pode inclusive dizer que a qualidade “tempo-transformacao” que a gente percebe é a própria fronteira que separa um do outro. Porque se a gente não percebesse mudança alguma nas coisas, a gente não teria porque ou como diferenciar passado, presente e futuro. Não teria diferença entre o que vivi e a memória, não teria diferença entre o virtual e o real. Seria, sei lá, a eternidade.
Tem uma metáfora do Heráclito, filosofo grego pré socratico, sobre o tempo como um rio bastante mencionada e que é mais ou menos assim: “Uma pessoa não se banha nas águas de um mesmo rio duas vezes, porque as águas que passam pela pessoa não são mais as mesmas e nem a pessoa é mais a mesma”.
Apesar de nessa metáfora o tempo ser retratado externamente à pessoa, como um rio, ela destaca bem a fluidez do tempo e a característica fundamental dele: transformação, o tempo é transformação e tudo está se transformando o tempo todo. Quer você queira, quer não.
A gente nota mudanças na gente, nos outros, no mundo. E é só porque tem mudança que a gente precisa da ideia de tempo. Por que um ser eterno, imortal, imutável precisaria de relógio? No infinito tudo já aconteceu e vai acontecer infinitas vezes, não tem porque contar, cronometrar, ficar ansioso… Passado, presente e futuro se condensam num grande e alargado instante.
E agora, o que a felicidade tem a ver com o tempo?
Se a felicidade tem a ver com reflexões sobre como viver a vida, e a vida é uma experiência necessariamente temporal, é importante assumir que a mudança vai fazer parte da felicidade.
Um aspecto é em relação à reflexão sobre minha vida, se levei uma boa vida até aqui ou não, se parece que estou encaminhado para uma boa vida no futuro… Mas a memória e a imaginação, passado e futuro, vão estar sujeitos a distorções. Pensar sobre o que passou, como memória, não é a mesma coisa que viver a coisa no instante. E com o tempo a nossa lembrança de algo também vai mudando, e nossa interpretação do que rolou também. O Daniel Kahneman, psicologo e nobel da economia, estudou muito isso e desenvolveu um instrumento de “reconstrucao da memoria” que pretendia minimizar os efeitos do passar do tempo na avaliação de alguém. De todo o modo, ele reconhecia que a avaliação dos momentos da vida estão fadados à mudança.
Por exemplo, a um tempo atrás eu pensava em uma experiência de trabalho que tive como um fracasso. Atualmente, passei a ser um pouco mais generoso comigo mesmo e penso que fiz o que pude e aprendi muita coisa com essa experiência profissional. Não chega a ser um sucesso, mas também não é um fracasso mais. E reavaliações como essa podem me levar a repensar se sou ou não feliz.
Se a felicidade é uma reflexão sobre a vida e a vida é mudança, é importante supor mudanças também pro resultado das reflexões sobre a felicidade.
Por outro lado, se alguém assumir que a felicidade seja universal, estável, comparavel, essa pessoa estará ignorando a dimensão ontologica do tempo, de que a mudança é a base da vida.
O problema é que ignorar a mudança e buscar o imutável-estável-universal é uma abordagem muito adequada ao jeito que a gente vive hoje. Na correria do dia a dia, na pressão para gente produzir mais, fazer mais em menos tempo, com horário marcado para tudo… a minha agenda do Google é um Carnaval só, cheio de cores para cada tipo de evento e um evento amontoado no outro.
A gente mal tem “tempo” para pensar na vida, sobre as mudanças na gente e ao nosso redor… na real a gente vai comprando cosméticos para tentar evitar a mudança, a gente amontoa atividades para aproveitar o mais intensamente e o máximo possível o tempo e não ter tempo de pensar a respeito; Elon Musk e Mark Zuckenberg, e aposto que o Bezos também, vão investindo rios de dinheiro em tecnologias pra viverem pra sempre.
Mas a real é que o tempo nos atropela. Porque ele não é, no fim, um recurso a ser manipulado, acumulado. A gente só consegue medir e explorar a representação do tempo. A dimensão ontológica-existencial extrapola isso. Seja quando a gente sente que o tempo antecede a gente, quando a gente percebe que tá ficando velho, no falecimento de um ente querido, seja quando algo estraga ou quebra, quando a gente perde hora… Uma ideia de felicidade que ignore que tempo é vida e vida é tempo parece ser uma ideia pela metade.
Pra finalizar, um trecho meio “bad vibes” do artigo do José Leite (1995), “nós quem cara pálida”, sobre a inescapabilidade da mudança.
Abre aspas.
“Time is money, dizem-nos todos, cada vez mais credulamente, na esperança de esquecer que o tempo é um jogo perdido para o real da Morte que as organizações/culturas tentam renegar, e que no longo prazo todos seremos reduzidos à nossa mais real insignificância, efeitos indescritíveis de um nada cósmico na imobilidade do eterno.”
Fecha aspas.
Espero que tenha gostado e até o próximo episódio.
Referências:
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Bergson, H. (1938 / 2003) La pensée et le mouvant. Paris: PUF.
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