Episódio 12 – Anti felicidade: os pessimistas

Esse episódio de hoje é especialmente pra você, pessoa rabugenta, amarga, que responde um “tudo bem?” com “não… tudo não está bem”. Há felicidade mesmo no fundo do poço. Confesso que talvez eu seja mais desse time aí, dos amargos, do que dos otimistas e alegres. Se não fosse o café, um espresso bem tirado… ou mal tirado, tanto faz, eu não teria forças pra falar de felicidade… Olha só, só de falar em café eu já fiquei mais feliz. O café é tipo meu soma, a droga do livro Admirável Mundo Novo.

Mas, olha só que maravilha, o pessimismo tem muitas facetas. Se você acha o pessimismo muito batido, comum, dá pra você escolher seu estilo de pessimismo. E tenho certeza que alguma dessas facetas vai encaixar bem no seu perfil. Não é exatamente esse o objetivo do episódio, mas, bom, quem sou eu pra julgar se esse for o seu objetivo?

Primeira coisa pra gente considerar nesse tema é que o pessimismo sempre esteve à espreita da felicidade:

O Aristóteles (Nicomachean Ethics 1153b14-15; 1152b6-8) falou um monte sobre a felicidade, que é importante desenvolver as virtudes, que ela é o nosso objetivo final, aquela coisa que é desejada não pra um outro fim, mas por ela mesma… mas o Aristóteles também assumiu que sem sorte, sem saúde, sem dinheiro, seria bem difícil conseguir ser feliz. A infelicidade, na verdade, era bem mais provável do que a felicidade. Já o Epicuro e os estóicos consideraram o pessimismo ainda mais profundamente na ideia de felicidade deles. Já que o mundo é repleto de desastres, infortúnios, sofrimentos, caos, violência… a felicidade seria justamente aquela coisa que nos tornaria imunes a tudo isso. Quando você não se importar mais com esse mundo horroroso, aí, quem sabe, você poderá ser feliz. Acho que eu já usei esse exemplo aqui, mas ele é emblemático do pensamento estóico: a pessoa feliz, chamada de sábia pelos estóicos, é aquela que, vendo a própria casa em chamas e toda a família lá dentro agonizando, ele dá meia volta e sai fora numa boa. 

Não sei se é um bom retrato de felicidade, mas tenho certeza que não é um bom retrato de um amigo… ou de um bombeiro.

Bom, se o Aristóteles insere uma pitada de pessimismo na sua ideia de felicidade, Epicuro e os Estóicos estruturam toda a felicidade a partir do pessimismo. Em alguma medida o pessimismo, a expectativa de que o pior pode acontecer, está lá, à espreita na felicidade.

E, olha, talvez essa relação entre felicidade e pessimismo seja uma especialidade brasileira. Tem lugar no mundo em que as pessoas se apresentam mais felizes apesar do apocalipse? O presidente oferece cloroquina pra uma ema? A gente faz um meme. Vivemos há 500 anos dizimando os povos originários? Protestamos enquanto fazemos samba. O filósofo francês, Clément Rosset (1989, p.7), relata essa percepção comum de seus amigos não brasileiros. Abre aspas:

“Aqueles de meus amigos que tiveram a ocasião de estadiar no Brasil retornaram todos com o mesmo sentimento dominante: de uma excepcional animação e alegria de viver, junto a um sentido agudo do desastre e da catástrofe iminente.”

Fecha aspas.

Mas para eu não ficar alguns vários minutos falando generalidades sobre a felicidade e o pessimismo, eu organizei esse episódio em dois grandes blocos: primeiro para falar sobre os pessimistas que falaram que a felicidade seria impossível; segundo, para falar daqueles que propuseram que a felicidade em si seria algo que nos faz mal.

Felicidade é impossível

Vamos começar, então pela ideia de que a felicidade é impossível. Esse é um tipo de pessimismo de célebres filósofos e que é comum para muita gente. Sabe quando você tem uma ideia genial, um projeto grandioso e tão logo já te vem o pensamento: eu nunca vou conseguir fazer isso… melhor então nem perder meu tempo tentando? Foi “exatamente” isso que o Immanuel Kant pensou sobre a felicidade.

Em primeiro lugar, ele ficava puto de imaginar que fosse possível existir uma pessoa terrível, odiosa e que fosse considerada feliz. Pra ele isso era o fim da picada, era um absurdo uma ideia de felicidade que permitisse isso. Mais ainda. Examinando o que ele entendeu ser a felicidade, que era a realização plena de todos os desejos e anseios, ele chegou a uma conclusão: a felicidade nunca seria sentida verdadeiramente por ninguém! Nunca ninguém realizaria todos os desejos e anseios. Você mal realiza um desejo e logo surge outro. Então, como ninguém nunca conseguiria realizar a felicidade, não fazia nem sentido falar sobre ela. Abre aspas pra ele:

“Quanto mais uma mente cultivada se lança no objetivo de apreciar a vida e a alcançar a felicidade, mais ela se distancia do verdadeiro contentamento” (McMahon, 2006, p. 250-251).

Fecha aspas.

Ficar falando da felicidade, entendida enquanto satisfação de todos os desejos não apenas era absurdo do ponto de vista filosófico (já que era impossível), mas também era contraproducente do ponto de vista moral. Era um desserviço à existência humana. Abre aspas de novo pra ele:

“Felicidade tem valor natural; moralidade (ou seja, ser digno de ser feliz) tem valor absoluto. Enquanto a felicidade nos aconselha sobre como satisfazer nossos desejos naturais, a moralidade nos aconselha sobre como nos comportar para merecer essa felicidade.” (Smith, 1918, p.570-571)

Fecha aspas. 

Se se guiar pela felicidade era uma furada, por outro lado, muito mais factível e razoável era se guiar pela moralidade. Essa sim poderia ser determinada filosoficamente e valeria a pena ser perseguida. 

Se pro Kant o caminho foi “a felicidade está cheirando mal… vamos investir nosso tempo em outra coisa!”, um contemporâneo dele, Schopenhauer, pensou “a felicidade está cheirando mal… vamos usar uma britadeira nela!”. Mas ele provavelmente pensou isso com menos entusiasmo do que reproduzi aqui.

O Schopenhauer também compartilhava da mesma visão de Kant sobre a felicidade. Essa felicidade enquanto “satisfação sucessiva de todo o nosso querer” é natural nos seres humanos, ela nos move e é impossível de ser realizada. Mas o Schopenhauer, diferentemente do Kant, não achava que dava pra gente fugir dessa felicidade. Estamos fadados a sermos movidos por ela e a sofrer as consequências de seu erro lógico. Viver movido pela felicidade, mas nunca a realizar, só poderia significar que o objetivo real da vida é a infelicidade, porque é isso que a experiência sempre joga na nossa cara. Sempre há sofrimento, frustração, vontades e desejos não realizados num percurso direto até a morte. 

Abre aspas para um longo e “auspicioso” trecho do Schopenhauer (2005): 

“(…) nós somos justamente Vontade de viver, e na satisfação sucessiva de todo o nosso querer é em que pensamos mediante a noção da felicidade. Enquanto nós persistimos neste erro, e ainda por cima corroboramo-lo com dogmas otimistas, o mundo nos parece cheio de contradições. Assim, a cada passo, nas grandes ou nas pequenas coisas, somos obrigados a experimentar que o mundo e a vida estão completamente arranjados de modo a não conterem a existência feliz (…) Neste sentido, seria mais correto colocar o objetivo da vida em nossas dores do que nos prazeres… A dor e a aflição trabalham em direção ao verdadeiro objetivo da vida, a supressão da Vontade dela” 

Fecha aspas.

Como o trecho indica, a felicidade é um erro lógico na nossa existência. Por outro lado, a recomendação extrema do Schopenhauer é que o único e factível objetivo realizável da vida é a sua própria supressão, ou seja, a morte. 

Mas pensando bem, o Schopenhauer pode ser interpretado como realista ao invés de pessimista. Afinal, uma vida de completa satisfação não é possível e, se fosse, seria uma vida bem longe do que a gente costuma imaginar: uma completa satisfação de tudo que a gente quer, deseja, faria da vida uma coisa muito bizarra… entediante talvez… sem mistério, sem suspense, sem expectativa, sem saudade… e por aí vai.

Um terceiro pessimista que considerava a felicidade impossível é o Freud. E a posição dele foi um pouco diferente. Deixa eu tentar ilustrar. Se você fosse amigo do Kant, do Schopenhauer e do Freud e contasse pra eles, empolgado: “um dia eu ainda vou ser chefe na empresa onde trabalho!” eles iam reagir mais ou menos assim: a) o Kant diria “Luciano, ao invés de sonhar com esse cargo, já que você não sabe se vai se realizar, melhor investir tempo em ser um bom profissional que você ganha mais”. b) o Schopenhauer diria “Luciano, tua vida é uma desgraça, não importa o que vai acontecer no seu trabalho, você pode ser promovido e vai continuar se fudendo de qualquer jeito”. Não sei se o Schopenhauer xingava, mas imagino ele falando assim. c) Já o Freud talvez fosse do pior tipo de pessimista, ele seria aquele amigo que não acredita em você, que sabe que você vai fracassar, mas diz “isso aí, Luciano, não abaixa não a cabeça! Segue sonhando!”.

Isso por que o Freud entendia que a “Felicidade é uma marca pré-histórica ou da tenra infância” de quando a gente era um só com nossa mãe, plenamente satisfeito (McMahon, 2006, p.447). Essa marca  acaba amaldiçoando a gente a tentar reproduzir essa sensação, a buscar incessantemente essa felicidade (Freud, 2010, p.29). Mas, tal como os pessimistas anteriores, para o Freud, abre aspas:

“A intenção de que o homem seja ‘feliz’ não se acha no plano da ‘criação’” (Freud, 2010, p.30)

Fecha aspas.

A diferença, contudo, do Freud pro Kant e pro Schopenhauer, é que essa mobilização em buscar a felicidade poderia ser direcionada. Ou seja, ela é importante, já que nos move. Por isso não é um problema sonhar e desejar. Basta dar um jeito de direcionar melhor essa força mobilizadora da felicidade (Freud, 2010, p.32), que pro Freud seria trabalhar em prol do bem comunitário. Bom, acho que dá pra dar uma olhadinha em volta pra ver que esse plano também não deu muito certo. 

Isso me lembra um trecho do Shakespeare em McBeth (Cena V, Ato V), abre aspas:

“A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum.”

Fecha aspas. Me representa em muitos momentos. Até eu tomar café e pensar “só pode ser obra de Deus”. 

Vamos então para nosso segundo grupo de pessimistas.

Felicidade é ruim

Não muito distante do Kant, Schops e Freud, estão algumas pessoas que se dedicaram a falar que a felicidade é uma porcaria. Não que os anteriores não pensassem isso, mas a diferença é que para esse segundo grupo seria sim possível alcançar a felicidade; uma porcaria de felicidade, mas ainda assim felicidade.

O Nietzsche talvez seja o mais emblemático desses. Ele tinha um ranço com a filosofia utilitarista, de origem inglesa. Achava uma filosofia rasa e que reduzia demais o ser humano. Abra aspas:

“O ser humano não visa especialmente o prazer; só os ingleses fazem isso” (2018, máxima 12)

Fecha aspas.

A gente já falou bastante aqui sobre as fragilidades do utilitarismo. Principalmente porque ele não possibilita identificar qualidades distintas nos prazeres. O prazer de uma conduta antiética pode ser equivalente ao de uma conduta ética? Prazer de roubar um banco pode ser equivalente ao de salvar uma criança de um atropelamento? O meu prazer tomando café é igual ao seu?

Era com essa simplicidade e fragilidade que o Nietzsche ficava puto. Ser feliz nesses termos só poderia ser um adjetivo de uma pessoa muito tosca. Uma pessoa com profundidade nunca se contentaria com tão pouco.

Quando eu estava na graduação eu lembro de ter ouvido em alguma aula, não sei de quem ou sobre quem, que seria impossível ser feliz enquanto se souber que alguém sofre em algum lugar do mundo. E essa ideia ainda ressoa em mim. Como se assumir feliz e mesmo se perceber feliz sabendo que pessoas ao meu alcance passam fome? Pessoas que eu poderia ajudar estão morrendo ou vivendo em condições indignas? Enquanto o Padre Júlio Lancellotti, com mais de 70 anos, dá marretada em pedra e eu fico no sofá de casa vendo Netflix. Que felicidade seria essa?

Uma imagem que me atormenta até hoje e vai continuar por muitos anos é a fotografia de um macaco carbonizado no pantanal, resultado da queimada terrível que rolou por lá no ano passado. Como ser feliz sabendo que isso aconteceu e ainda acontece?

Pro filósofo alemão, Theodor Adorno, só dá pra ser feliz nesse nosso mundo apocalíptico se a gente for enganado ou se a gente se auto enganar. Ou seja, uma felicidade só seria possível quando produzida artificialmente e vivida sem crítica. O segredo para essa felicidade está na publicidade e na ficção, na capacidade de inventar mundos alternativos nos quais a gente pode mergulhar.

Lidar com a realidade é sofrido. Inevitavelmente. Os gregos antigos lidavam com esse sofrimento de um jeito peculiar: eles contavam as histórias retratando, do jeito que conseguiam, todo esse sofrimento. Às vezes até exagerando o sofrimento. As famosas tragédias gregas são chamadas de tragédia porque contemplam nelas de tudo… as coisas boas e ruins, não tem essa de mocinho e bandido. Todos os personagens são, em alguma parcela, ambos. (https://fb.watch/3E7-lL-XHy/). Personagem principal da história se lascando e terminando a narrativa na fossa tem de monte. O Édipo, por exemplo, se lasca horrores na história dele. A ideia dos gregos era que você aprenderia ao acompanhar o retrato dos conflitos da vida.

Foi na década de 30 que se inventou essa coisa de “happy end”, em que tudo sempre acaba bem para o personagem com o qual o espectador deve se espelhar, se relacionar (Morin, 1997, p.92).

Eu cresci vendo desenhos e ouvindo contos em que termina com “e viveram felizes para sempre”. O pica-pau termina todo episódio gargalhando. (…) É um tipo de desfecho em que tudo que é ruim, tudo de mal que houve é espiado. Os pecados, a culpa, os sofrimentos, tudo perdoado, tudo compensado. Se uma pessoa passa fome no reino vizinho, não é um problema. Nesse mundo fictício, o personagem (e, no fundo, você) fez por merecer a felicidade! (“foi porque eu mereci”!). Tem uma famosa expressão da literatura da auto ajuda que diz algo mais ou menos assim: se você ainda não alcançou seu objetivo ou a felicidade é porque o percurso ainda não acabou. É a ideia de que, no fim, sempre jaz a felicidade (e não a tragédia).

E até hoje, pra mim, é estranho quando uma série ou um filme escapam desse “Happy End”. Quem não estranhou o Game of Thrones quando aquele que parecia ser o personagem principal perdeu a cabeça? Tá certo que o fim da série foi bem tosco, mas aquela cena mexeu com a expectativa do final feliz. Esses dias eu joguei o The Last of Us Parte II e woow. Estou até agora tentando digerir a história…. A gente não está acostumado com uma história que não reforce essa crença de que, no fim, tudo dará certo e será justificado! Se a gente está sofrendo, é porque ainda não chegamos no nosso “happy end”.

Bom, a ideia, então, é que esse otimismo do happy end, essa felicidade baseada em um contexto artificial é para imbecis. No mundo real você pode fazer tudo certo, seguir o script e ainda assim a vida enfiar o dedo no seu olho, chutar sua canela, cuspir na sua cara. 

A cena que eu sempre cito do filme Annie Hall, do Woody Allen, ilustra bem essa ideia de felicidade ser própria de pessoas toscas. Quando o Woody Allen se aproxima de um casal e pergunta qual o segredo para eles parecerem tão felizes, eles respondem: nós somos vazios e superficiais.

Além dessa felicidade dos imbecis, há uma outra versão da felicidade entendida como ruim. No caso é a felicidade entendida como uma doença psiquiátrica (Bentall, 1992). Para o Richard Bentall, psicólogo que apresentou essa ideia, a felicidade se encaixaria em alguns requisitos de uma doença psiquiátrica: (1) ela é estatisticamente rara, (2) quem é feliz teria desvantagens biológicas, ou seja, teria mais chance de morrer: seja porque as pessoas felizes costumam ter mais comportamentos compulsivos, comendo mais e bebendo mais bebidas alcóolicas; seja porque as pessoas felizes tendem a fazer uma apreciação mais superficial do contexto e de si mesmas, lançando-se em comportamentos impulsivos.

Você não precisa concordar que felicidade é uma doença psiquiátrica, mas acho difícil negar que essa felicidade que a gente ouve por aí tem muito de impossível e de estúpido…

Discussão

É importante notar que essas críticas todas, do Kant, Schops, Freud, Nietzsche, Adorno, Woody Allen e do Bentall são críticas a uma determinada ideia que eles têm da felicidade. Quando eles dizem que a felicidade é impossível ou ruim, eles estão tomando um determinado conceito de felicidade e não todo o universo de definições dessa ideia. Talvez, se fosse apresentado para eles uma nova definição de felicidade, eles até gostassem e mudassem de opinião. 

De todo o modo, como eles entendem que a felicidade é ruim, faz todo o sentido que concluam que se deveria evitar buscar a felicidade ou até mesmo evitar o debate sobre a felicidade.

Isso é muito fascinante sobre a felicidade. Ela é uma ideia tão complexa, que no emaranhado dela cabe até a sua antítese, o seu inverso, a sua negação. E, no fundo, isso é muito natural porque pra falar da felicidade se supõe alguma espécie de infelicidade, ao menos um pouco de infelicidade. 

Imagina o seguinte cenário: mundo perfeito de felicidade plena. Todo mundo realizado 100%. Por que alguém falaria da felicidade nesse mundo? Não faria sentido imaginar uma vida ideal… não faria sentido parar para pensar na melhor forma de se viver porque todo mundo já estaria vivendo a vida plena, completamente satisfeita e realizada. Nem haveria a experiência de uma vida que não fosse essa. Não seria uma possibilidade levar uma vida ruim. Nesse mundo ideal eu não falaria de uma vida feliz, eu falaria da vida e ponto final. Ou seja, a felicidade se tornou um tema, uma ideia porque alguém foi pessimista com a própria situação: “a minha vida tá ruim…. ela poderia ser melhor… se eu vivesse essa outra vida, que estou imaginando, eu seria… eu seria… feliz!”. 

Conclusão: se todo mundo for otimista e pró-gratiluz, “sou grato a toda, absolutamente toda a minha vida”, não teria porque a gente falar da felicidade.

Então, só falamos da felicidade porque a infelicidade é percebida (esteja ela presente ou à espreita). Por isso que a felicidade vai ser sempre uma felicidade frágil, na corda bamba. Falar de uma felicidade definitiva é uma grande baboseira, pois ter a felicidade assegurada para o resto da vida seria uma vida chata, entediante…e completamente descolada do mundo real, que sempre traz um sofrimentozinho pra gente nos momentos mais inoportunos.

Com isso, então a gente chega ao desfecho desse episódio. Espero que eu tenha te ajudado a ser mais otimista com seu pessimismo ou mais pessimista com seu otimismo.

Pra fechar com chave de ouro e todo mundo ficar feliz, o nosso próprio “happy end”, vou ler mais um trecho do livro Lógica do Pior (1989, p.8), do Clément Rosset. Abre aspas:

“Não há triunfo da vida sem um igual triunfo da morte, nem um verdadeiro transbordamento de alegria sem um igual transbordamento de desespero. Toda a alegria que pretendesse desconsiderar o trágico, ou ignorá-lo graças à aparente e passageira plenitude de sua felicidade, é necessariamente uma alegria falsificada (e aliás tão logo desmentida por um nada de experiência ou de lucidez) (…)”

Fecha aspas.

Quando tiver um tempo, dá um pulo na página do podcast, avessodafelicidade.com, lá você vai encontrar o contato pras minhas redes sociais, sugestões de leituras, a transcrição dos episódios e outras coisas mais.

Espero que você tenha gostado e até o próximo episódio!

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Esse episódio de hoje é especialmente pra você, pessoa rabugenta, amarga, que responde um “tudo bem?” com “não… tudo não está bem”. Falaremos dos pessimistas da felicidade, daqueles que propuseram que ela seria impossível ou que ela seria ruim, uma imbecilidade. Kant, Schopenhauer, Nietzsche, Freud, Adorno… um pouco de cada para que você seja mais pessimista com seu otimismo ou otimista com seu pessimismo.

Twitter: @lusbricker

Referências: 

Bentall, R. P. (1992). A proposal to classify happiness as a psychiatric disorder. Journal of medical ethics, 18(2), 94-98.

Freud, S. (2010). O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias e outros textos (1930-1936). Obras completas, 18, 13-122.

McMahon, D. M. (2006). Happiness: A history. Atlantic Monthly Press. 

Morin, E. (1997). Cultura de Massas no século XX. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

Nietzsche, F. (2018). The twilight of the idols. Jovian Press.

Rosset, C. (1989). A lógica do pior. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo.Schopenhauer, A. (2005). O mundo como vontade e como representação (Vol. 1). Unesp.

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