Episódio 13 – Felicidade e Arte

E aí, pessoal, tudo bem? Eu sou o Luciano Sewaybricker e esse é o canal “Avesso da Felicidade”. 

(trecho de Happy – Pharrel Willians)

Arte e Felicidade, que combinação mais auspiciosa. Dá vontade de saltar no ar e bater o calcanhar, entregar rosas a estranhos, se debruçar na janela e sorrir sem motivo.

E quando a gente assiste o filme “Na natureza selvagem” (cuidado com spoiler), no trecho final, depois de tanta viagem, tanta busca, o personagem principal chega à iluminação: “felicidade só é real quando compartilhada”. Taí uma função mais direta da arte com a felicidade. Fazer a gente se sentir mais feliz. Eu chego à iluminação junto com o personagem, eu canto, como uma gralha, junto com o Pharrel Willians: “Porque eu sou feliz!”

Mas essa mesma arte pode ter um efeito contrário e te deixar no canto do quarto em posição fetal, chorando. Como no trecho da série BoJack Horseman:

(trecho de BoJack Horseman)

Talvez ainda te dar uns cascudos depois, como o saudoso Shakespeare adorava fazer:

(trecho de McBeth interpretado por Marcelo Anthony)

Montanha-russa de sentimentos à parte, a ideia desse episódio é mostrar o quanto a arte nos ajuda a entender melhor a complexidade dessa ideia “felicidade”. Por exemplo, tem uma música do Tom Zé, de 1976, chamada “Vai” que é belíssima para dar pelo menos uma pitada disso. Nessa música, o Tom Zé está protestando contra a imposição de um modo de vida pelo Governo Militar brasileiro, vulgo ditadura. A felicidade, então, seria esse ideal de vida, mas seria também um castigo, algo que assombra, uma obrigação… Uma felicidade imposta seria, então, felicidade? E esse retrato do contexto de 1976 ajuda a gente a refletir sobre a felicidade hoje em dia. Não só porque tem gente que gostaria da volta do AI5, mas porque a felicidade, em certa medida, nos é imposta por diferentes vias. Temos que sorrir, temos que ser otimistas, temos que ser bem sucedidos e por aí vai.

(Trecho de Vai – de Tom Zé) 

Coisa mais linda, não?

Bom, para o episódio de hoje, a ideia não é soterrar você com trechos de filmes, músicas e afins, quer dizer, não é só isso pelo menos. É para mostrar o quanto pensar sobre a “obra de arte” ajuda a gente a pensar sobre a felicidade. Mais ainda, o próprio exercício de tentar conceituar “Arte” nos confronta com impasses muito parecidos com quando a gente tenta conceituar “felicidade”. E, pra organizar um pouco esse percurso, eu separei esse episódio em três blocos, primeiro para mostrar que a ideia de arte é tão complexa quanto felicidade; segundo para relacionar definição de arte com a definição de felicidade; e terceiro para mais alguns exemplos de felicidade na arte. 

Comecemos então. Bloco 1.

BLOCO I

Se responder a pergunta “o que é felicidade?” é capciosa, porque pessoas muito gabaritadas já responderam de tudo, a mesma coisa acontece com a pergunta “o que é arte?”. De modo que talvez seja impossível responder em definitivo essa pergunta.

Os nomes dos movimentos artísticos, como surrealismo, dadaísmo, realismo, lucianismo, escondem por trás entendimentos diferentes de arte. Arte pode ser a expressão do mundo interior do artista, pode ser um processo de descobrimento do mundo ou de si mesmo; arte pode ser uma representação do mundo físico… arte pode ser entendida como criação, como invenção, como produção…e por aí vai.

Mas mesmo essas várias palavras circulando pelo significado de arte não dão conta do recado. Muito em parte porque elas tendem a enfatizar o artista e a obra de arte. Mas tem muito mais gente envolvida no processo artístico, quer dizer, na percepção e categorização de algo como arte ou não. Por exemplo, a gente tem os donos das galerias, os críticos, os milionários e as casas de leilões… e: os espectadores. Tem gente que olha para um grafiti, por exemplo, e vê arte, tem gente que vê sujeira. Não dá para ignorar o espectador.

A famosa obra do Marcel Duchamp, “a fonte”, de 1917, foi emblemática para essa ideia de que a “obra de arte está nos olhos do espectador”. Essa obra, “a fonte”, é um mictório, desses de banheiro masculino, que foi assinado e transportado para um museu. O que tinha, então, mudado naquele mictório para deixar de ser só um mictório e virar uma obra de arte? O que diferenciaria um objeto qualquer de um objeto artístico? Pro Duchamp, “arte” não seria uma qualidade que estaria no objeto, mas dependeria da relação que as pessoas estabelecem com ele. Outro exemplo disso, menos significativo, é o que rolou no Museu de Arte Moderna de São Francisco em 2016. Um jovem de 17 anos deixou, de propósito, o óculos dele no chão. Um tempo depois tinha até gente ajoelhada tirando foto do óculos… 

Ampliar o entendimento da arte para além da relação entre artista e obra, traz pro jogo esse campo abstrato, de construção de sentido no mundo social envolvendo muita gente e muita percepção/opinião diferente… ou seja, coloca a gente no meio de brigas grandes. Pensa que a gente briga porque não sabe se o vestido é branco e dourado ou azul e preto… imagina então a briga que não rola pra dizer se um objeto é arte ou não… se ele deve valer milhões ou não.

E diante dessa complexidade, não faltam críticos a essa falta de perímetro, de critérios da arte moderna, digamos assim. 

Quem nunca foi em um museu de arte contemporânea e se perguntou, pelo menos uma vez, “isso aí é uma obra de arte??”, “Quem foi a pessoa sem noção que acreditou que isso era arte?”. Estranhamento faz parte da coisa. Vide a obra “Comedian” do Maurizio Catellan, que é uma banana grudada na parede com silver tape. Essa obra foi vendida por US$120.000,00 e, na real, o que foi vendido é um manual de instalação. Já que depois de uma semana ninguém vai querer aquela mesma banana mofada na parede de casa.

Mas, ao mesmo tempo, essa falta de perímetro dá margem para uma relação muito bonita com a arte. Pra quem já assistiu a série Sense8 deve lembrar de uma cena belíssima que trata disso. Cuidado com o spoiler. Um dos personagens, o Hernando Fuentes, está dando a aula dele sobre arte para uma classe de universitários e eis que umas fotos dele fazendo sexo com o namorado começam a circular entre os alunos. Daí, um aluno malandrão, joga a imagem pro projetor da sala e rola esse diálogo aqui, ó:

(trecho de Sense8)

Em síntese, o Hernando está dizendo que o objeto de arte também revela aquele que se relaciona com ela. Ou seja, mais uma vez, uma qualidade da arte não está na obra, mas fora dela… depende da postura desses que interagem com ela. Essa relação entre estar ou não na obra de arte foi muito explorada também pelo artista búlgaro Christo. A obra de arte icônica dele consistia em embrulhar construções, prédios, monumentos com um pano gigante. Parecido com quando você queria se fantasiar de fantasma quando era pequeno. É exatamente isso. Só que ao invés de você é um prédio, ao invés do lençol branco com dois buracos é um pano de sei lá quantas centenas de metros quadrados, e ao invés de ser uma fantasia tosca é uma obra de arte. O argumento do Christo para sua obra era de que ela produzia uma contradição: aquela construção que estava ali, no caminho de todo mundo, todos os dias, uma coisa banalizada, ao ser embrulhada acabava por se revelar. Ao ocultar a construção as pessoas voltavam a notá-la, refletir sobre ela, notar suas particularidades, belezas, história… e definitivamente essa qualidade não estava na obra, pois esse pedaço dela estava oculto.

Vamos para o segundo bloco. Mas antes, um intervalo musical.

(trecho do Beatles – Happiness is a Warm Gun)

BLOCO II

Mas o que é arte afinal de contas?

Diante dessa complexidade toda, o filósofo italiano Dino Formaggio definiu arte como “tudo aquilo a que os homens na história chamaram e chamam de arte”. Pro Dino, seria impossível pensar a arte em geral: qualquer tentativa vai agradar gregos ou troianos… nunca todo mundo. Por exemplo, arte como obra era uma compreensão importante no Renascimento, arte como expressão era importante no Romantismo e por aí vai.

Nessa mesma linha a gente poderia pensar sobre a felicidade. Felicidade é aquilo que já chamaram e chamam de felicidade. Quem sou eu pra dizer que aquilo que você diz sobre felicidade é uma baboseira? Em cada período e local tem as suas particularidades… pra cada pessoa, haveria particularidade e, por isso, seria impossível chegar em uma definição clara e única.

Mas e aí, o que a gente faz com isso?

Voltando para a arte, tem uma tentativa de delimitação feita pelo João Frayze-Pereira (2010), que é professor aposentado da Psicologia da USP, que vale a pena a gente olhar com mais calma.

Pro Frayze, abre aspas:

“A arte não tem um significado, ela é um significado”. 

Fecha aspas.

E o que isso significa? Quer dizer que aquilo que a gente chama de arte não tem um significado inerte, um significado estável que a gente atribui a ela. O mictório do Duchamp não tem um significado porque não é um simples mictório ou só um mictório. Aquele mictório, “A fonte”, ao invés de ter um significado, é um significado porque leva continuamente a novos sentidos. Aquele específico mictório, “A fonte”, é um mictório e também é uma crítica ao mercado da arte, é uma apreciação à beleza do cotidiano, é o questionamento do porquê o escatológico não poder ser arte… e por aí vai. A arte não tem um significado, ela é um significado, ela significa, ela dá significado ao mundo.

Abre aspas de novo para o Frayze:

 “Arte é um tal fazer que, enquanto faz, inventa o por fazer e o modo de fazer”.

Fecha aspas.

Ao não se reduzir ao objeto que está ali presente, sua concretude (como o mictório), aquilo que a gente chama de arte está sempre apontando para elementos do mundo que não estão presentes. Por isso que eu não vou no banheiro masculino e fico admirando os vários mictórios. Se eu fizesse isso, provavelmente isso daria muita confusão. Eu vou no banheiro preocupado com aquilo que está ali, está dado concretamente. 

A arte, ao contrário, aponta para o virtual, direciona a nossa atenção e reflexão ao que não está. O óculos caído no canto do museu, por estar naquele espaço em que a gente se prepara para presenciar objetos em sua virtualidade, deixa de ser só um óculos… É um óculos presenciado como um objeto que nos leva a transcender o que objetivamente está dado. Por essa razão que os críticos da arte contemporânea, quando fazem essas pegadinhas não estão mostrando o absurdo da arte chamada moderna, mas explicitando a sua riqueza e complexidade. 

Pra quem lembra do caso do Queermuseu em Porto Alegre, que uma galera viu ali obras de apologia a pedofilia, zoofilia e blasfêmia…. Na real eram pessoas que não conseguiam ver na obra de arte a virtualidade dela. Mas só a estreiteza do concreto. Ao invés de, ali, no encontro com a arte, se revelar toda a profundidade e complexidade de nossa humanidade… ela é reduzida ao concreto, ao objetivo.

Abre uma última aspas para o Frayze:

“A arte que se cumpre não é a que existe em si como coisa, mas a que atinge o espectador convidando-o a retomar o gesto que a criou e, saltando mediações, sem outro guia que não o movimento da linha inventada, a alcançar o mundo silencioso do pintor.”

Fecha aspas.

A ideia de felicidade pode ser compreendida segunda a mesma lente. Menos em relação ao concreto e mais em relação ao virtual. Lógico que você pode pegar um conceito de felicidade apresentado pelo Aristóteles, pelo Santo Agostinho ou pelo Zé da Esquina, quem for, e buscar uma receita objetiva sobre como conduzir a vida. Do mesmo jeito que dá pra você ver a pedra de 120 toneladas na entrada do Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles e só perceber uma pedra grande e pesada. 

Mas, no caso da felicidade, para isso fazer algum sentido, você precisaria ignorar que a vida do Aristóteles, do Santo Agostinho ou do Zé da Esquina não são a sua vida. Que qualquer apresentação daquilo que é a “melhor forma de se viver”, ou seja, a felicidade, é sempre relativo, é sempre a partir de uma perspectiva…

Por outro lado, se eu penso na virtualidade de uma conceito de felicidade, por exemplo, quando eu leio a obra do Epiteto, essa obra vai expandir meu horizonte sobre o que eu posso ser, quem posso ser, como posso ser… ou seja, me leva a refletir sobre o que significa ser humano e qual a melhor de se viver. 

Talvez, nesse momento, você esteja pensando: “ah… mas quanta baboseira, tudo filosofia barata que não serve pra nada. Eu quero performance! Eu quero resultados!”. Mas, saca só… se relacionar com a felicidade como uma obra de arte, ou seja, conforme sua virtualidade é muito mais útil do que buscar essa concretude prática por dois motivos: em primeiro lugar porque se aplicar a receita que o Aristóteles diz ter dado certo para ele na minha vida tá fadado ao fracasso, por outro lado, engrandecer meu entendimento do que é ser humano tem a aplicação mais ampla possível: a gente está sendo ser humano o tempo todo (menos quem tomou vacina e virou jacaré). Quer coisa mais útil do que ajudar a pensar sobre o que significa ser isso que a gente é o tempo inteiro? 

Em segundo lugar, porque a reflexão sobre a “melhor forma de se viver” é posta em prática 100% do tempo. Mesmo sem ter certeza sobre como isso rola na prática, a gente está o tempo todo agindo conforme aquilo que a gente entende ser a melhor forma de viver…. Ninguém faz nada achando que é a pior forma de se viver…pensando “essa é a pior cagada que eu poderia fazer… é a antítese de ser humano… perfeito! Vou fazer isso!”. Até a mais drástica das ações ou a mais ínfima delas são realizadas sempre a partir daquilo que se entende ser a melhor forma. 

Pronto. Taí meu argumento para a utilidade máxima da reflexão sobre a felicidade para além da receita de auto-ajuda.

Bom, a felicidade, portanto, por ter (como a arte) essa falta de perímetro fundamental vai sempre apontar para uma possibilidade para a gente ser, uma imagem futura que podemos ou não realizar. Dito de outra forma, permite que a gente transcenda nossa atual existência.

Qualquer objeto pode ser um objeto de arte, do mesmo jeito que toda arte pode deixar de ser arte em algum momento ou para alguma pessoa (Aiken, 1955). Do mesmo jeito, qualquer coisa pode fazer parte da felicidade, porque tudo que é percebido faz parte (de alguma maneira) da existência humana. Vai depender, portanto, de algo ser percebido como arte ou de algo ser percebido como importante, valioso para a melhor forma de ser.

Abre aspas para o filósofo americano Henry Aiken (1955, p.404):

“Como o termo “felicidade”, a expressão “obra de arte” não é redutível a definições descritivas, e os efeitos de tentar fazê-lo não são aqueles que o definidor esperaria: as definições descritivas (da felicidade ou da obra de arte) acabam não clarificando seu uso ou o que fazer com ela, mas sim acabam modificando e ampliando o universo de possibilidades.”

Fecha aspas.

BLOCO III

Bloco 3!

(trecho de Ismália – de Emicida com Larissa Luz e Fernanda Montenegro)

Apresentar um objeto de arte ou apresentar uma teoria sobre felicidade apresentam possibilidades e direcionam nossas atitudes, vão transformando nossa forma de ser. Quando os retratos passaram a apresentar pessoas admiráveis sorrindo, ali, por volta dos 1500, com a Mona Lisa e outras obras, isso teve um efeito direcionador nas nossas atitudes. O ideal de vida passou a incorporar a ideia de sorrir. Mas isso não significa que se eu sorrir o tempo inteiro, seguindo como uma receita, a vida será pleníssima. Vide todas as pessoas que sofrem muito, pouco, médio apesar das milhares de fotografias sorridentes no Instagram. 

E sobre isso a arte tem muito pra nos ensinar. Saca só o diálogo do começo do segundo ato da peça “Esperando Godot” do Samuel Beckett . Abre aspas para os personagens Vladimir e Estragon:

Vladimir: Você deve estar feliz também, lá no fundo… se você soubesse.

Estragon: Feliz com o quê?

Vladimir: De estar de volta comigo.

Estragon: Você diria isso?

Vladimir: Diga que está, mesmo que não seja verdade.

Estragon: O que eu devo dizer?

Vladimir: Diga “estou feliz”.

Estragon: Estou feliz.

Vladimir: Eu também.

Estragon: Eu também.

Vladimir: Estamos felizes.

Estragon: Estamos felizes. (silêncio). E agora? O que fazemos agora que estamos felizes?

Vladimir: Esperamos Godot.

Fecha aspas.

Do mesmo jeito que sorrir, se dizer feliz também não resolve o problema da felicidade. Ela escapa pelos vãos dos dedos, mesmo que pareça super concreta. Falar de felicidade, no fim das contas, só amplia o que ela pode ser; do mesmo jeito que uma obra de arte sempre pode dar um nó na cabeça de todo mundo e obrigar uma reformulação daquilo que se entende por arte. Felicidade é influenciada pelo contexto, pelas pessoas, pelo que é chamado de felicidade ou associado com a felicidade.

E o problema é que, por essa razão, ver, ler, escrever sobre felicidade, não resolve um dos problemas centrais que a gente costuma se colocar: como viver a felicidade? Como ser plenamente feliz? Se a cada vez que a gente tenta definir, a felicidade se transforma, acaba parecendo que é a infelicidade o nosso destino garantido. 

Quem fez muitas menções a isso foi o Shakespeare, seja pelo trecho do começo do episódio, de McBeth, ou pela personagem Desdêmona, em Otelo. A Desdêmona, mulher bela, fiel e entregue ao seu poderoso marido Otelo, acaba sendo assassinada pelo próprio marido… E o nome Desdêmona não é à toa, ele é uma leve adaptação de Disdemona, palavra oposta à Eudemona, versão italiana da eudaimonia grega. Em grego, EU equivale a bom e DIS equivale a ruim. Ou seja, a Desdêmona era a própria infelicidade, apesar de parecer que tudo estava a favor dela.

E mesmo esse problema com a felicidade ou excesso de infelicidade são tratados na arte e oferecem pra gente novos caminhos. Na série policial islandesa “Trapped”, o personagem principal diz em certo momento que, abre aspas.

“nunca sabemos quando estamos felizes, mas sempre sabemos quando não estamos”.

Fecha aspas.

Ou, conforme posto em outra versão no filme “Os 8 magníficos” do Domingos de Oliveira, abre aspas:

“Uma das maiores faltas do ser humano é não saber ser feliz quando ele é”. 

Fecha aspas.

A gente não sabe quando está feliz ou a gente não sabe ser feliz quando se é.

No livro “A felicidade, desesperadamente” o filósofo francês Comte-Sponville cita uma frase do Woody Allen que também ajuda a navegar por esse bololô, abre aspas:

“Como eu seria feliz se fosse feliz.”

Fecha aspas. 

Talvez, então, a gente não seja feliz, ou não saiba ser feliz porque a gente espera por uma coisa que não chega nunca… a gente espera pela chegada de Godot, quer dizer, da felicidade. A gente espera por uma receita da felicidade que funcione… quando, na verdade, por fundamento, essa receita não é possível de existir.

Um outro jeito de encarar isso, mais pé no chão, é o do escritor português Valter Hugo Mãe que sintetiza em pouquíssimas e belíssimas palavras no livro “O Filho de Mil Homens (2016). Abre aspas:

“Ser feliz é o que se pode”.

Fecha aspas.

Se a gente vive sem manual, tentando ser humano sem saber bem como, mas sempre agindo de acordo com o que a gente entende ser o melhor, a realização mais próxima possível do ideal é sempre aquilo que a gente consegue fazer. O mais próximo que a gente consegue estar da felicidade é aquilo que a gente é. A minha vida sempre será a felicidade realizável.

O Celso Frateschi, na peça “Diana”, também diz sobre isso, mas de um jeito um pouco diferente, abre aspas:

“Felicidade, em sua plenitude, talvez seja estar de acordo com nada.”

Fecha aspas.

Pra encerrar o episódio eu não vou ler mais nenhuma citação, que já teve demais por hoje.

(sons de aplausos).

Obrigado, obrigado. Espero que você tenha gostado. Volte sempre.

Quando tiver um tempo, dá um pulo na página do podcast, avessodafelicidade.com, lá você vai encontrar o contato pras minhas redes sociais, sugestões de leituras, a transcrição dos episódios e outras coisas mais.

Até o próximo episódio!

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Referências: 

Livros/Artigos

Aiken, H. (1955). The Aesthetic Relevance of Artists’ Intentions. The Journal of Philosophy, 52(24), 742-753. doi:10.2307/2022699

Comte-Sponville, A. (2005). A Felicidade, Desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes.

Frayze-Pereira, J. A. (2010). Arte,Dor. Inquietudes entre estética e psicanálise (2a. edição revista e ampliada). 2a.. ed. Cotia,SP: Ateliê.

Mãe, V. H. (2016). O filho de mil homens. São Paulo: Globo Livros.

Peças:

Beckett – Esperando Godot: https://www.youtube.com/watch?v=tuU3RrGj3Lc 

Frateschi – Diana: https://www.youtube.com/watch?v=8rbizlfwWYI

Shakespeare – McBeth interpretado por Marcelo Anthony : https://www.youtube.com/watch?v=Qjo8pKfpc5g

Músicas:

Beatles – Happiness is a Warm Gun

Pharrell Williams – Happy

Tom Zé – Vai

Emicida – Ismália (ft. Larissa Luz e Fernanda Montenegro)

Séries:

Sense8: https://youtu.be/DR8u1wtTGXs?t=44

Trapped: https://www.imdb.com/title/tt3561180/ 

BoJack Horseman: https://www.youtube.com/watch?v=nBagOJigbuk

Extras:

Sobre o Queermuseu: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45191250

Sobre o óculos no museu: https://g1.globo.com/planeta-bizarro/noticia/visitantes-confundem-oculos-no-chao-como-obra-de-arte-nos-eua.ghtml

Créditos Musicais:

Abertura:

“Flutey Funk” Kevin MacLeod (incompetech.com)

Licensed under Creative Commons: By Attribution 4.0 License

http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

https://incompetech.com/music/royalty-free/music.html

Fechamento: 

“Protofunk” Kevin MacLeod (incompetech.com)

Licensed under Creative Commons: By Attribution 4.0 License

http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

https://incompetech.com/music/royalty-free/music.html

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