Episódio 18 – Está tudo bem não estar bem?

O episódio de hoje é sobre “não estar bem”. E o que a felicidade tem a ver com isso? Boa pergunta. Pode parecer que não, mas confia em mim que tem. A felicidade pode ajudar a gente a entender melhor qual é desse momento em que a gente tem conseguido falar mais abertamente sobre adoecimento mental, sofrimento… 

Eu tento começar o episódio sempre com um pouco de energia e entusiasmo. Não que eu consigo sempre. Mas, olha, pra esse episódio não tá fácil. A vida tá uma merda. O bozo continua no poder, gente morrendo porque uns quiseram ganhar dinheiro na vacina, na seringa, na agulha, no líquido lá pra fazer vacina… Você trabalha com medo de ser demitido, daí trabalha o dobro, o triplo. Esgotamento mental, físico… apesar dos pesares, junta aquela força e vai no mercado comprar alguma coisa pra comer e gasta uma puta grana. Fica na dúvida se pegou caviar sem querer, mas não, só arroz mesmo e um teco de carne. Chega em casa, esgotado e sem um tostão, abre a internet e ouve que brasileiro não precisa comer tanto, que ao invés do contra-filé deveria ter comprado pé de galinha. É tudo proteína mesmo. Com um pouco de unha. Talvez seja melhor parar de ver as notícias… Daí você abre sua rede social. Mas sempre tem algum primo do tio que escreve uma bozisse. A família tá em ruínas, todo mundo se odeia. Nem internet dá pra abrir mais. Melhor ficar no quarto escondido embaixo do edredom. Mas daí, entre geadas (que nessa hora o edredom ajuda), você ferve de calor e sua que nem um leitão, porque, afinal, o mundo está ladeira abaixo… 

E é isso. O ponto é que você tá mal (se não estivesse, seria estranho ou negação) e esse sofrimento, se continuar nessa direção, vai ganhar, mais cedo ou mais tarde, a cara de uma doença mental: ansiedade, depressão, síndrome do pânico, de burnout…

Como ele tá na nossa cara, o adoecimento mental não tem como não ser discutido. Consumo de medicamentos psiquiátricos aumentando.. e acho que todo mundo conhece alguém que ficou bem mal recentemente. E por isso, já que está escancarado, passamos a falar mais abertamente do adoecimento mental. É um reconhecimento de que passamos do ponto. Que bom. Não que passamos do ponto, mas que notamos que estamos doentes. 

E nesse movimento de falar abertamente, chama especial atenção quando pessoas famosas trazem isso à tona e mostram que até elas adoecem e não estão bem. Pessoas que parecem ter tudo, que conquistaram um monte de coisa e têm um trabalho incrível… Aquelas pessoas que servem, muitas vezes, de ideal pra gente.. aparentemente elas também têm dificuldade em sair da cama e viver, têm família em ruínas… só não têm o problema de comprar pé de galinha.

A Naomi Osaka, tenista número dois do ranking, ganhou mais fama do que já tinha quando ela abandonou Roland Garros em março de 2021. Ela disse que vinha sofrendo com depressão desde 2018 e estava difícil conciliar os torneios, a motivação para treinar e competir com a saúde mental dela.  Precisou de muita coragem pra dizer não para o esporte que é parte importante dela, pra dizer não para o dinheiro, para os patrocinadores… 

Três meses depois, em julho de 2021, estava na capa da revista Times (2020) com o texto: ‘It’s O.K. Not to Be O.K.‘. Não é que a Naomi Osaka inaugurou isso de pessoas famosas chamando atenção para adoecimento mental, a Meghan Markle e a Michelle Obama (El País, 2021a) já tinham se pronunciado sobre isso no passado. E mais recentemente, a Simone Biles, ginasta dos Estados Unidos, abandonou umas provas em plena olimpíadas. Pra não ficar só nos exemplos gringos, a Laurinha Lero, do podcast Respondendo em Voz Alta (Episódio do dia 14 de Maio de 2021), passou por isso também. No momento em que parecia que as coisas estavam caminhando melhor para ela, pro programa dela, ela compartilhou que era um momento em que ela se sentia mais doente.

Até empresas, tradicionalmente negadoras de que as pessoas ficam doentes ao trabalhar (Dejours, 1987), estão tratando isso de um jeito um pouco diferente. Agora durante a pandemia, o Linkedin deu uma semana de folga para todos seus funcionários em Abril desse ano com o objetivo de prevenir burnout (EXAME, 2020). Um pouco depois, no fim de Agosto, a Nike fez a mesma coisa (Linkedin, 2020).

Reconhecer o sofrimento mental e poder falar sobre ele é inegavelmente importante. É clássico na psicologia o efeito curativo da palavra: do nomear, do compartilhar histórias, ouvir versões distintas, dialogar (Dejours, Freud). É importante também pra que o acesso a ajuda seja mais fácil, esteja mais visível para quem mais precisa. 

E é curioso que em meio a essa presença do discurso e dos relatos sobre adoecimento mental, ele tenha se tornado tão aceito que virou peça de consumo. No e-commerce Etsy, tem um mundaréu de produtos com o escrito “it’s okay not to be ok”. A Gabrielle Moss, editora da Bustle (revista digital voltada pro público feminino) escreveu que “A era da Girlboss (garota chefona) morreu. Bem-vinda à era da Girloser (garota perdedora)” (EL PAIS, 2021). Já no site da Tok Stok tem caneca com o escrito “tudo bem não estar bem” por $17,90 e a Amazon vende o livro “tudo bem não estar bem – siga em frente um passo de cada vez” por R$19,20.

Não sei pra você, mas pra mim cheira estranho quando um tema delicado vira produto… o produto não permite que a conversa sobre aquele tema seja profunda. Precisa ser rasa, cool pra vender bastante… meio estranho. E na linha desse estranhamento, eu vi um vídeo do instagramer Vittor (com dois tês) Fernando (@vittorfernando) que traduz bem esse estranhamento:

Um agradecimento à minha aluna Odara por me integrar ao mundo das pessoas conectadas e apresentar o vídeo.

Deixa eu tentar organizar aqui dois pontos que me preocupam em relação ao “tá tudo bem não estar bem”. 

O primeiro deles é que esse “tudo bem” possa ter um sentido de “normal”, já o segundo é que o “não estar bem” seja visto por uma lente coitadística. Desculpa por essa palavra, não achei nenhuma melhor.

Vamos a primeira parte, do tudo bem com sentido de normal. O problema da normalização é quando certos tipos de adoecimentos passam a ser entendidos como inerentes ao contexto. “Você tá mal? Chato, né? Mas, bom, faz parte. Todo mundo fica assim de vez em quando.” Faz parte o escambau. Não era pro mundo tá de cabeça pra baixo, não era pra eu trabalhar que nem um condenado pra não ser demitido. Não era pra mata nativa brasileira ser derrubada ou queimada pra plantar soja.

O problema aí, portanto, não é tratar como normal o fato de a gente ficar mal (porque, sim, a gente fica mal vez por outra… é inevitável), mas normalizar a circunstância que nos deixa mal. Que seria equivalente a dizer que a circunstância é inevitável. De inevitável já bastam as crises existenciais, não saber porque eu vivo, o que acontece depois da morte, a angústia de poder morrer a qualquer instante, não saber responder se sou ou não feliz, sofrer pela morte de pessoas queridas, pelas frustrações amorosas… a gente não precisa de mais sofrimentos inevitáveis do que esses, né?

Então, tá tudo bem não estar bem, mas não está tudo bem eu não estar bem por causa do trabalho ou por causa da política no Brasil. Eu não quero uma semana de folga (mentira, eu quero). Mas quero principalmente uma relação mais saudável com o trabalho, salário justo, metas realizáveis em horário de trabalho razoável… agora vai ver se as empresas estão ajustando as metas? Não estão. Porque se estivessem iam ter um problema de competitividade, de lucro gerado para acionistas… Não tá tudo bem a gente ter sofrido e ainda sofrer com a pandemia como a gente sofreu aqui no Brasil. Não tá. Não tá. A gente tem é que pedir Anitta.

Já o segundo problema, do coitadismo é o problema de como essa pessoa que “não tá bem” é tratada. E como a ideia do coitadinho já sugere, essa pessoa coitada é digna de dó, pena. Como o pessoal lá do time de futebol da chuteira de ouro de campinas, categoria fraldinha, chamava aquela pessoa que não era digna de receber a bola. Cafe com leite. 

Talvez você esteja pensando: “É óbvio que a pessoa doente é menos do que a saudável… é justamente por isso que ela é chamada de doente”. Mas é nesse raciocínio que tá presente a armadilha. Exatamente o que que faz determinada pessoa ser chamada ou percebida (por ela mesma, inclusive) como doente? Muitas razões, mas o que tem sido mais tratado nos exemplos da Naomi, da Simone, da Meghan, da Laurinha, é um desajustamento. Um desajustamento da vida social, produtiva. Um desajustamento de suas funções como tenista, ginasta, integrante da família real, podcaster…

Isso pode até não parecer um problema para o caso delas. Já que no desenrolar da história delas, a verbalização foi vista como corajosa. Estarem doentes acabou ganhando um valor especial e as ajudou a se realocarem como ajustadas socialmente. Mas se a gente pensar em um tenista em começo de carreira, ainda mal posicionado no ranking e que abandona um torneio… será que ele manteria o patrocínio? será que ele seria visto como corajoso? Uma pessoa com um cargo médio em uma empresa média que sofre com a carga de trabalho e não consegue ir pro trabalho… será que ela seria corajosa ou demitida?

O ponto aqui, portanto, é que só algumas pessoas vão navegar bem socialmente não estando bem. A grande maioria das pessoas vai é se lascar pra valer. 

Só algumas pessoas vão conseguir escapar dessa lógica. Pessoas com reputação, com uma rede social forte… mas são poucas as pessoas que estão mal que conseguem construir reputação, que conseguem manter uma rede social forte.

“Então quer dizer que é pra gente achar legal que alguém tá doente?” Mas isso não é sinônimo de considerar a pessoa como menos. A pessoa que está doente tem muitas possibilidades de pertencer, de se posicionar que não seja o da exclusão, do ficar na bandeirinha do escanteio lá do campinho da chuteira de ouro esperando o jogo acabar. Quem está doente enxerga o mundo de uma forma diferente de quem não está, uma forma que é importante de ser ouvida, que é denunciadora de muitas coisas problemáticas. A pessoa doente deve ser ouvida como alguém que é tão ou mais digna de falar sobre o mundo, tão ou mais inteira do que quem não é percebido como doente. 

O filósofo romeno Emil Cioran era um defensor ferrenho das pessoas desajustadas. Sabe aquela pessoa que você pensou “cara, essa pessoa é estranha…” – todo mundo já pensou isso uma vez – essa era a pessoa preferida do Cioran. Ele ganhou um monte de prêmio pelos seus livros, mas recusou todos. Cuspiu na cara da sociedade (Cioran, 2014). Ele podia ficar andando com os intelectuais de seu tempo, mas também não quis. Ele tinha um interesse especial pelos desajustados, fracassados, doentes.

Pro Cioran, uma coisa muito chata é quando alguém alcança o sucesso, quando ela se encaixa na sociedade. Beleza, parabéns, você alcançou aquela meta traçada (por você e pela sociedade). Você faz bem aquilo que deveria fazer e consegue se comparar com os demais naquilo. Talvez seja até a melhor pessoa naquilo, tipo a Simone Biles. Mas ao invés do Cioran ver isso como um sinal do “florescer” humano, de realização de todo o potencial humano, ele via como o oposto: um estreitamento do que a gente pode ser.

Bom mesmo é quando a gente fracassa, quando as coisas não vão bem. Porque é quando a gente não tá bem, quando a gente fracassa nesse percurso rumo ao sucesso que o mundo se abre pra gente. É como se a pessoa saudável, ajustada fosse um trem seguindo viagem e a pessoa doente, desajustada fosse um trem descarrilhado seguindo caminho a deus dará pra sabe-se lá onde.

Deixa eu dar um exemplo olímpico: você acha que o florescer humano, a realização do potencial humano é correr 100m rasos cada vez mais rápido? Que esse é o símbolo máximo de superação, de alcançar novos patamares do que significa ser humano. Tenta correr com o cadarço desamarrado pra você ver a complexidade que é e o nível de superação necessária pra conseguir chegar no final da prova. Fracasso? Pro Cioran não.

Achar que a vida acontece só no trilho do sucesso é muito pouco, muito estreito pro que significa viver. O que resta pra Simone Biles fazer pra ter mais sucesso nesse trilho, pra ela continuar realizando seu potencial, florescendo? Ao invés de rodopiar 3 vezes, rodopiar 4? Já a pessoa desajustada tem o infinito a sua frente e, portanto, a liberdade de um trem descarrilhado. Um trem descarrilhado viaja tranquilo? Obviamente não, pode tombar inclusive, mas é nessa vastidão de possibilidades que o Cioran entende que a gente verdadeiramente aprende sobre os limites e potenciais de ser humano. 

Não é pra você desejar estar doente, não era isso que o Cioran defendia. Mas estar doente não era sinônimo de ser menos. Mas de profundidade e possibilidades.

Pra você que estava se perguntando “o que diabos isso tudo tem a ver com a felicidade?” finalmente chegou a hora de eu responder sua dúvida silenciosa (silenciosa pra mim pelo menos). O Tolstói, logo na primeira frase do livro Anna Karenina escreveu, abre aspas:

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”

Fecha aspas. Provavelmente ele concordaria com o Cioran. Se todas se parecem, o que você aprende de novo com elas? Nessa felicidade irônica do Tolstoi não se aprende nada. Só se conquista.

E, olha, uma outra coisa que deixaria o Cioran e o Tolstói horrorizados é a Psicologia Positiva. A ideia de felicidade da PP sugere um trilho da vida bem sucedida. Essa vida ideal, seja felicidade ou bem-estar, é uma vida recheada de sentimentos positivos (sorrir, fazer amigos, ter propósito na vida, ter paz de espírito, ser realizado no trabalho, pertencer a comunidade…). Quando muito, os pesquisadores vão assumir que é normal a gente não sentir essas coisas o tempo todo. Mas quanto mais sentir essas coisas, melhor. Quanto mais mal ficar, pior. Bem nos moldes do “tá tudo bem não estar bem”. 

Ess a ideia do “não estar bem”, apesar de acontecer vez por outra, é um obstáculo pra vida feliz da PP. Não estar bem acontece, mas se der pra evitar, evite. Se der, inclusive, para não estar perto de pessoas que não estão bem, melhor ainda (XXXXX). No trilho da felicidade para a PP, não estar bem é uma lombada no meio do caminho. Que não deveria estar lá e só atrapalha a jornada.

Mas existe um senso crítico na PP. Tem uma vertente dentro do campo que é auto referida como Segunda Onda da Psicologia Positiva. Nessa segunda onda, a ideia do negativo é tratada com mais atenção, com mais cuidado. Trata-se o negativo como necessário e por vezes positivo (como na reflexão profunda da tristeza), e trata-se o positivo como problemático por vezes (como na chamada positividade tóxica de uma pessoa em negação).

Mas essa Segunda Onda ainda está em desenvolvimento. Como é um prolongamento e uma revisão dos principais autores da Psicologia Positiva, como o Seligman e o Diener, a segunda onda ainda se apoia numa visão bem simplista/pragmática do ser humano e se contradiz vez ou outra. Como, por exemplo, nessa coisa de positividade tóxica. Se o positivo pode ser negativo, a gente tem um baita problema de definição… o que, então é positivo? E se quiserem deixar de lado por completo a divisão entre positivo e negativo, daí não teria nem porque ser um prolongamento da Psicologia Positiva, ou ter positivo no nome. Então tem chão pela frente. 

De todo o modo, a visão dominante e que orienta a grande parte das pesquisas e publicações sobre felicidade, ainda são da primeira onda. E enquanto isso, Cioran e Tolstoi se reviram no túmulo..

O que a gente faz com tudo isso? Continuamos falando sobre o que que é isso que não tá bem. E que possamos falar cada vez mais a esse respeito, em mais fóruns, e cada vez mais pessoas possam se manifestar. Pessoas que não estão bem principalmente e que a gente aprenda muito com elas. 

Mas não dá pra normalizar e achar que adoecer faz parte nos contextos em que o sofrimento não é existencial, não é inerente à vida. A conversa precisa ser tambem uma denúncia.

Então, esse episódio aqui é pelo direito de “não estar bem” sem precisar “estar bem”. Dito de outro jeito: “tá tudo bem não estar tudo bem por não estar bem”. Deu pra entender? Eu quero ficar puto, quero protestar, gritar, xingar, ter vontade de estrangular. Quero sofrer por amores perdidos, não trabalhar por um ano porque meu pai morreu de covid… quero poder me sentir distante, desalojado sem que isso faça de mim menos ou menor. Quero poder viver e aprender descarrilhado sem me sentir obrigado a voltar para o trilho entediante da felicidade estreita da Psicologia Positiva. 

Ou então, vamos desgourmetizar o “tá tudo bem não estar bem”. Porque a gente escolhe quais são tragáveis e quais não são. Pessoas em situação de rua continuam largadas na calçada e a gente pula por cima delas; pessoas indígenas são expulsas vez após vez de suas terras e a gente acha normal que se vote o marco temporal, as pessoas chamadas de loucas são institucionalizadas longe do convívio social ainda hoje… bem a lá manicômio, sabe? Então o “tá tudo bem” é reservado pra poucos e poucas.

E o que que tudo isso tem a ver, no fim das contas, com a felicidade? É que, pra felicidade fazer um mínimo de sentido, pra ela ser uma felicidade rica, ampla, que traduz pra valer “a melhor forma de se viver”, eu tenho que poder desacreditar ela. Eu tenho que poder me dizer infeliz, viver a infelicidade, descarrilhar do caminho da felicidade tosca pela vastidão da infelicidade… Pra felicidade que vale a pena, eu não posso saber dizer com segurança sobre ela. E é nessa vastidão, longe do trilho que uma outra, mais rica, pode ser reconhecida. Quem sabe, inclusive, felicidade e infelicidade não sejam opostos, mas uma só coisa?

Pra finalizar, quero ler pra você uma carta belíssima do Graciliano Ramos para o Cândido Portinari.

Rio de Janeiro. 18 de Fevereiro de 1946.

Caríssimo Portinari:

A sua carta chegou muito atrasada, e receio que esta resposta já não o ache fixando na tela a nossa pobre gente da roça. Não há trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos deformações; contudo as deformações e miséria existem fora da arte e são cultivadas pelos que nos censuram.

O que às vezes pergunto a mim mesmo, com angústia, Portinari, é isto: se elas desaparecessem, poderíamos continuar a trabalhar? Desejamos realmente que elas desapareçam ou seremos também uns exploradores, tão perversos como os outros, quando expomos desgraças? Dos quadros que você mostrou quando almocei no Cosme Velho pela última vez, o que mais me comoveu foi aquela mãe com a criança morta. Saí de sua casa com um pensamento horrível: numa sociedade sem classes e sem miséria seria possível fazer-se aquilo? Numa vida tranquila e feliz que espécie de arte surgiria? Chego a pensar que faríamos cromos, anjinhos cor de rosa, e isto me horroriza.

Felizmente a dor existirá sempre, a nossa velha amiga, nada a suprimirá. E seríamos ingratos se desejássemos a supressão dela, não lhe parece? Veja como os nossos ricaços em geral são burros.

Julgo naturalmente que seria bom enforcá-los, mas se isto nos trouxesse tranquilidade e felicidade, eu ficaria bem desgostoso, porque não nascemos para tal sensaboria. O meu desejo é que, eliminados os ricos de qualquer modo e os sofrimentos causados por eles, venham novos sofrimentos, pois sem isto não temos arte.

E adeus, meu grande Portinari. Muitos abraços para você e para Maria.

Graciliano

Espero que você tenha gostado do episódio. 

E, pessoal, momento sério. Se você não estiver bem, procura a ajuda de um profissional, de psicologia por exemplo. Ou então, se estiver precisando de uma ajuda mais urgente, sempre tem o contato do Centro de Valorização da Vida. Tem o telefone 188 ou o chat deles online no cvv.org.br. O que eu falei aqui sobre o valor e a riqueza de não estar bem não significa que é de boa tá mal, que é uma escolha estar nesse lugar e a gente pode sair na hora que quiser (tipo, é só eu escolher voltar com meu trem pro trilho). Longe de mim! Essa coisa de “se você quer, você pode” é muito Psicologia Positiva… Então não esquece de se cuidar, beleza?

Até o próximo episódio!

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Twitter: @lusbricker

Referências: 

Cioran, E. (2014). O livro das ilusões. São Paulo: Editora Rocco.

Current Affairs (2021). https://www.currentaffairs.org/2021/03/corporate-mindfulness-programs-are-an-abomination

Dejours, C. (1987). A loucura do trabalho. São Paulo: Oboré.

El País (2021a). https://brasil.elpais.com/estilo/2021-07-15/tudo-bem-nao-estar-bem-o-lema-da-nova-era-que-da-adeus-ao-pensamento-positivo.html#?rel=lom 

El País (2021b) https://brasil.elpais.com/estilo/2021-04-29/o-mindfulness-corporativo-nao-aumenta-salario-nem-traz-horas-livres-ele-so-arruina-o-seu-trabalho.html#?rel=mas

Linkedin (2020). https://www.linkedin.com/posts/mmarrazzo_in-just-about-an-hour-teams-at-nike-will-activity-6834559785506107392-m2Cm/

New Yorker (2021). https://www.newyorker.com/magazine/2021/04/19/the-repressive-politics-of-emotional-intelligence

Respondendo em Voz Alta (2021). https://open.spotify.com/episode/2MbRlfCOnCy2rlLozYD1OI?si=rPRntKCVSsSkDcJ7g8cg7w&dl_branch=1 

Times (2020). https://time.com/6077128/naomi-osaka-essay-tokyo-olympics/

Titi Müller (2019). https://www.youtube.com/watch?v=1nt0SeegFIY

Tolstoi, L. (1990). Anna karenina. Alianza Editorial.
Vittor Fernandes (2020). @vittorfernandes. https://www.instagram.com/reel/CN6GkWNnWPo/?igshid=1xr0zsnpnzed8

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